Por nossos ancestrais, pela nossa memória

Se com racismo não haverá democracia, sei que sem a garantia de memória da luta de nossos ancestrais, um futuro diferente para a população negra também não será possível.

Celebração do Dia da Consciência Negra no monumento a Zumbi dos Palmares

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  • Por Anielle Franco

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Por Anielle Franco

Esse mês de novembro teve um significado diferente para mim. Logo após ter sido indicada para compor a equipe de transição do futuro governo, integrando o Grupo Técnico de Políticas Públicas para as Mulheres junto a companheiras respeitadas do movimento feminista e do movimento negro, recebi muitas mensagens de amigas, amigos e companheiras de militância do movimento feminista e movimento negro me parabenizando pela novidade, e destacando a importância do reconhecimento do trabalho desempenhado a frente do Instituto Marielle Franco – organização que fundei junto a minha mãe, Marinete, meu pai, Antônio, e minha sobrinha, Luyara – para seguir atuando por tudo aquilo que Marielle acreditava.

Desde então, tenho trabalhado arduamente integrando a Equipe de Transição e também trabalhando no processo de encerramento das atividades deste ano no Instituto Marielle Franco, após um período eleitoral de muito trabalho para apoiar candidaturas de mulheres negras em todo país, e também para conseguir derrotar Bolsonaro, retomar a democracia em nosso país e eleger Lula, novamente presidente.

Nesse período, quase não tive tempo para refletir e observar determinadas manifestações ao meu redor, mas gostaria de destacar alguns movimentos dos quais tive conhecimento nos últimos dias enquanto me dividia entre o trabalho da equipe de transição de governo e o trabalho junto ao Instituto Marielle Franco.  Mas, no último dia 20, tivemos o Dia da Consciência Negra no Brasil, e data que marca a morte de Zumbi dos Palmares, quando celebramos a memória e luta do movimento negro brasileiro.

O movimento negro há anos atualiza pautas prioritárias para melhoria da vida da população negra e trabalha por uma agenda de direitos para todas e todos. Neste marco, nos últimos anos, tivemos importantes conquistas no campo de políticas públicas, a exemplo da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNAISP), a Política Nacional de Atenção Integral às Pessoas com Doença Falciforme, a Lei de Cotas, todas fruto de lutas coletivas.

No Dia da Consciência Negra, convidamos a todas e todos a refletir sobre essas conquistas e se unir à luta por políticas de reparação social, inclusão econômica e de justiça racial. Nesse mesmo dia 20 de novembro, recebi a notícia de uma cerimônia em homenagem a ativistas e profissionais da saúde negros do nosso país. A cerimônia ocorreu em Salvador (BA), no 13º Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva, e acredito que não poderia ser mais simbólico que, em um dia 20, tivéssemos uma ação assim. 

Antes de detalhar alguns dos nomes que foram celebrados, relembro aqui que em 2018, poucos meses depois de Marielle ser assassinada, esse mesmo congresso homenageou minha irmã, dando seu nome ao auditório principal e relembrando, a todo instante, sua atuação pela saúde das mulheres no município do Rio de Janeiro, enquanto foi vereadora. Neste ano, o auditório principal levou o nome de Lélia Gonzalez, nossa ancestral, que tanto ensinou e ainda tanto ensina para o movimento de mulheres negras brasileiro e internacional. Lélia cunhou a categoria denominada amefricanidade, que se refere à experiência comum de mulheres e homens negros na diáspora e à experiência de mulheres e homens indígenas contra a dominação colonial, recuperando as histórias de resistência e luta dos povos colonizados contra as violências geradas pela colonialidade do poder.

Além disso, Lélia também fomentou reflexões sobre a realidade de exclusão das mulheres na sociedade brasileira, principalmente das negras e indígenas, foi pioneira nas críticas ao feminismo hegemônico e nas reflexões acerca das diferentes trajetórias de resistência das mulheres ao patriarcado, evidenciando, com isso, as histórias das mulheres negras e indígenas, no Brasil, na América Latina e no Caribe.

Além de Lélia, outras mulheres negras também foram homenageadas na ocasião: Sony Santos, assistente social que coordenou a Política de Saúde da População Negra em Recife e o Programa de DST/AIDS do município de Olinda, falecida em 2016; Maria José Aragão, médica, pediatra e ginecologista, dirigente do PCdoB do Maranhão, que atuou contra a ditadura militar no Brasil, falecida em 1991; Maria de Fátima Ferreira, médica, escritora e feminista que atuou como Secretária Executiva da Rede Feminista de Saúde, Direitos Sexuais e Reprodutivos e faleceu em 2017; Fran Demétrio, nutricionista e 1ª professora transexual da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, integrada à Associação Brasileira de Profissionais pela Saúde Integral de pessoas Trans, Travestis e Intersexo (ABRASITTI) e ao Coletivo de Trans Pra Frente (Salvador-BA).

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Se com racismo não haverá democracia, sei que sem a garantia de memória da luta de nossos ancestrais, um futuro diferente para a população negra também não será possível."

Esse movimento de homenagens no campo da saúde e da defesa dos direitos humanos foi especialmente marcante para mim. Acredito que nesse processo de transição governamental também é, uma vez que vivi em 2021 um momento delicado com meu pai internado pela Covid-19 e hoje, vivemos em nossa família, mais uma vez, um processo de reconhecimento da importância da atuação das trabalhadoras mulheres negras na saúde, com minha mãe, Marinete, em tratamento contra um câncer de mama. 

A importância e magnitude da conformação de um campo de luta pelo bem viver da população negra brasileira, bem como os esforços daqueles homens e mulheres negras que nunca saíram da linha de frente da luta por uma vida de dignidade deverão ser reconhecidas pelo Estado brasileiro, independente de seu governo. 

 O combate ao racismo e o fortalecimento de nossa democracia é papel de todas e todos nós. Se com racismo não haverá democracia, sei que sem a garantia de memória da luta de nossos ancestrais, um futuro diferente para a população negra também não será possível. E é a essa tarefa que seguirei me dedicando. A luta de Marielle, Lélia, Sony, Maria José, Maria de Fátima e Fran não será em vão.

*Anielle Franco é jornalista, educadora, diretora-executiva do Instituto Marielle Franco e assina coluna mensal na Gênero e Número.

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