Tayná Mesquita
Movimento Mulheres Negras Decidem
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O espantalho do identitarismo
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A ocupação da política que queremos e o que acontece quando mulheres negras ocupam o poder
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O que está em jogo em 2026
No início do mês, entre 5 e 6 de agosto, o plenário da Câmara dos Deputados virou palco de um teatro perigoso e sem precedentes recentes na política brasileira. Pelo menos 60 parlamentares — em sua maioria do PL, PP, União Brasil, Republicanos, PSD e MDB, majoritariamente homens brancos alinhados à direita e extrema direita — ocuparam fisicamente as Mesas Diretoras da Câmara e do Senado por mais de 30 horas.
Apesar do sequestro de um repertório clássico dos movimentos sociais progressistas — a ocupação física de um espaço de poder e decisão para demandar atenção a agendas de interesse coletivo — as “Excelências” ali reunidas em motim, impedindo os trabalhos legislativos para os quais foram eleitos, agiram em torno de interesses bastante privados (ao menos, ligados a uma mesma família política).
Protestavam contra a prisão domiciliar de Jair Bolsonaro (PL), determinada por Alexandre de Moraes em 4 de agosto de 2025. A medida foi motivada pelo reiterado descumprimento de cautelares no processo em que Bolsonaro é acusado de tentar obstruir investigações sobre planos golpistas após as eleições de 2022 e de atentar contra a soberania nacional.
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Além disso, exigiam a aprovação de uma anistia ampla e irrestrita para os investigados pelos ataques golpistas, o impeachment de Moraes e — como um golpe final — o fim do foro privilegiado, estratégia para atrasar ainda mais investigações e condenações de parlamentares. No Senado, mais de dez congressistas se revezaram na ocupação, cada um permanecendo cerca de duas horas no plenário.
Vestidos de terno e gravata, como a formalidade do cargo exige, com bocas tapadas por adesivos e mãos amarradas por correntes, performaram um ato jocoso, mas emblemático, de continuidade da tentativa de golpe de 8 de janeiro — agora., de dentro do Congresso. Com a certeza da impunidade, nem sequer respeitaram a cadeira do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), que até aqui parece relutante em enfrentar o custo político de responsabilizar os autores do motim — colocando em xeque sua própria relevância e autoridade.
Dias antes, esses parlamentares já tinham protagonizado uma cena igualmente deplorável, exibindo uma bandeira com o slogan “Trump, Make America Great Again” em coletiva, protestando contra a decisão de Motta de vetar homenagens a Bolsonaro, então com tornozeleira eletrônica.
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Tudo isso enquanto, sob influência direta da família Bolsonaro, o governo Trump impõe sanções a ministros do STF e tarifas de até 50% a produtos brasileiros estratégicos — um ataque à soberania nacional cujas consequências econômicas e políticas certamente pesarão sobre as camadas mais vulneráveis da população: mulheres, pessoas negras, trabalhadores informais.
Se quisermos falar de “identitarismo” — palavra que virou insulto coringa no debate público — talvez devêssemos começar por aqui.
As cenas recentes deixam claro: os verdadeiros identitários da política são homens, brancos, ricos e vestem black tie. E só legislam em causa própria.
O espantalho do identitarismo
Há muito tempo, “identitarismo” virou um espantalho político eficiente, mobilizado por diferentes espectros ideológicos para deslegitimar agendas que desafiam o status quo das desigualdades estruturais. Na esquerda, o termo é usado como acusação contra movimentos negros, feministas e LGBTQIA+, responsabilizando-os pelo avanço conservador. Como se as “agendas de costumes” — que para nós são agendas mandatórias para a vida digna, reparação e bem viver — fossem distrações periféricas ou obstáculos à “verdadeira” luta de classes.
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Essa leitura rasa e ultrapassada invisibiliza o entrelaçamento estrutural entre opressões interseccionais e ignora as complexas dinâmicas de exploração que atravessam de forma desproporcional os ditos “sujeitos identitários”: moradores de favelas e periferias, população em situação de rua, população negra, pessoas privadas de liberdade, mulheres (cis e trans, especialmente negras e indígenas), povos indígenas, comunidades quilombolas e tradicionais, trabalhadores autônomos (sobretudo informais), população LGBTQIA+, migrantes e refugiados — aqueles e aquelas que o filósofo Frantz Fanon um dia chamou de “condenados da terra”.
Na extrema direita, o rótulo cumpre função similar: atacar políticas de diversidade, desmontar ações afirmativas e redefinir “igualdade” como ameaça à suposta neutralidade social. É um esforço para blindar privilégios históricos sob a fachada de um discurso técnico e apartidário.
O uso é tão transversal que cria o fenômeno curioso:
De Bernie Sanders a Donald Trump, passando pelo bolsonarismo e figuras tradicionais da esquerda brasileira, repete-se a narrativa de que políticas antidiscriminatórias fragmentam a sociedade.
Nos EUA, o novo governo Trump já ataca iniciativas de diversidade e inclusão sob esse argumento — e encontra aplauso de parlamentares brasileiros.
No Brasil, a extrema direita bolsonarista segue o mesmo roteiro — com um agravante: coloca em risco, com o apoio intransigente dos EUA, os interesses nacionais e as instituições democráticas para proteger Bolsonaro.
Ao mesmo tempo em que a extrema direita busca continuamente deslegitimar as lutas antirracistas, feministas e LGBTQIA+, avança um projeto político profundamente identitário sob a ótica da branquitude: a preservação dos privilégios de uma elite colonial, autoritária e articulada globalmente.
Como nos ensinou o filósofo jamaicano-americano Charles W. Mills, o contrato racial é um acordo político não escrito que estrutura o mundo moderno, garantindo a supremacia branca como norma. A essa arquitetura de poder corresponde uma epistemologia da ignorância: um sistema ativo de produção e manutenção do não saber, que obscurece as estruturas de dominação e naturaliza privilégios raciais, tornando invisível — ou ilegítima — a política feita a partir das margens. O espantalho do identitarismo é uma expressão prática dessa ignorância fabricada.
A ocupação da política que queremos e o que acontece quando mulheres negras ocupam o poder
Enquanto, dia sim, dia também, a categoria “identitarismo” é sacada para deslegitimar a existência política dos movimentos negros, LGBTQIA+ e feministas contemporâneos, a realidade concreta expõe outra história — e o contraste é brutal.
Veja Jair Bolsonaro: quase três décadas como deputado federal resultaram em apenas dois projetos aprovados e outros 168 apresentados, a maioria voltada a pautas corporativistas, militares e de endurecimento penal. Nenhum deles alterou de forma estrutural ou positiva a vida da maioria da população.
Na presidência, seu legado foi ainda mais sombrio: o desmonte sistemático de políticas públicas e a morte evitável de mais de 690 mil pessoas na pandemia de covid-19, consequência direta de uma gestão negacionista e criminosa.
Marielle Franco, em pouco mais de um ano na Câmara Municipal do Rio, apresentou 16 projetos de lei (dos quais dois foram aprovados), sempre articulando direitos humanos, justiça social e participação popular. Fiscalizou as operações policiais em favelas e periferias, denunciou abusos e criou mecanismos para a proteção da população negra e periférica. Seu assassinato interrompeu uma trajetória que ainda é referência de mandato popular e transformador.
O legado de Marielle Franco
Hoje, outras mulheres negras seguem esse caminho. Erika Hilton talvez seja a figura política que mais incomoda e desafia tanto a direita quanto a esquerda: uma travesti negra, “sujeito interseccional” (ou “identitário”), por excelência, que em meio a uma crise de representação democrática e do silêncio dos movimentos progressistas nas ruas, conseguiu pautar e revitalizar uma agenda clássica da esquerda tradicional que se preocupa tanto com as supostas “contradições fundamentais” do sistema capitalista: o trabalho digno.
Na luta pelo fim da jornada 6×1, Erika tem articulado amplas frentes políticas, levou centenas às ruas e resgatou uma reivindicação histórica da classe trabalhadora. E fez isso de forma inclusiva, mostrando que o trabalhador precarizado também tem gênero, cor, território — e que essas dimensões qualificam a luta.
Ao lado dela, tantas outras mandatas ativistas e coletivas lideradas por mulheres negras vêm mostrando que a política pode ser feita de outro modo — com diálogo direto com a base, participação popular e ruptura com o verticalismo. Da já saudosa Mandata Quilombo, de Érica Malunguinho, à experiência pioneira da Gabinetona, de onde emergiu Áurea Carolina; das Juntas Codeputadas, em Pernambuco, que revelaram lideranças como Jô Cavalcanti e Robeyoncé Lima, à atuação de Mônica Seixas com As Pretas na ALESP; da Bancada Feminista, com Paula Nunes e Carolina Iara, às mandatas de Thainara Faria e Carol Dartora; e ainda as frutíferas sementes lançadas por Talíria Petrone e Renata Souza, sem esquecer nossas decanas Benedita da Silva e Leci Brandão.
Mulheres negras eleitas para uma democracia com paridade de gênero e equidade racial
Todas são prova viva do que acontece quando as mulheres negras ocupam o poder político: uma produção parlamentar que aponta para defesa dos direitos das mulheres e equidade de gênero, os direitos da população LGBTQIA+, à educação e saúde integral, à cultura e à memória, a justiça climática e o direito a um meio ambiente limpo e sustentável, o enfrentamento a violência policial e defesa do direito à vida, a defesa do espaço cívico e da democracia.
O que está em jogo em 2026
As eleições de 2026 acontecerão num cenário de múltiplas crises — política, econômica, climática, sanitária, de direitos humanos e de avanço do autoritarismo — que atravessam o mundo. E a convocação do momento será mais uma vez entre dois projetos: barbárie ou democracia. O primeiro é sustentado pelo ressentimento e pela manutenção dos privilégios raciais e de gênero. O outro aposta na ampliação radical da cidadania, redesenhando o espaço democrático para incluir os corpos – e corpas – que sempre foram excluídos.
As forças políticas progressistas precisam urgentemente não só reconhecer simbolicamente a potência, mas garantir recursos materiais e políticos para alavancar aquilo que talvez seja nossa única esperança: a radical imaginação política das mulheres negras.
E já passou da hora de devolver a acusação. Se vamos disputar corações e mentes para enfrentar o avanço do autoritarismo e conservadorismo, sejamos honestos.
Mulheres negras, indígenas, e pessoas LGBTQIA+ nunca ameaçaram a democracia. Pelo contrário: são a sua melhor aposta.
A verdadeira pergunta não é se cabemos no projeto de país que queremos — mas se haverá país democrático algum sem nós. A resposta, nós já sabemos.