O que os planos de governo dos presidenciáveis dizem sobre racismo climático – e o que calam

Design de capa: Carlos Carneiro | Montagem com fotos de Valter Campanato e Tânia Rêgo/Agência Brasil

O Brasil que vai às urnas em 4 de outubro não  elegerá apenas um presidente – elegerá, também, entre a democracia ou o retorno de tempos perversos para nossa sociedade. Treze chapas disputam o Palácio do Planalto. Porém, a emergência climática segue fora do centro do debate eleitoral, mesmo com o país batendo recordes de calor extremo, estiagens, enchentes e um número assustador de vidas ceifadas nos últimos anos. E pior: quando o tema aparece nos planos de governo protocolados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), raramente vem acompanhado de um recorte racial ou de gênero explícito.

A ausência não é um detalhe. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), entre os lares chefiados por uma única pessoa, sem cônjuge e com filhos de até 14 anos, 54% estão abaixo da linha da pobreza — e 63% desses lares são chefiados por mulheres negras que moram em periferias. São elas as mais expostas a enchentes, ondas de calor e à falta de saneamento quando o clima extremo bate à porta. Ainda assim, a conexão entre justiça climática, raça e gênero raramente aparece de forma explícita nos documentos que os presidenciáveis apresentaram como carta de intenções para o país.

O que os planos dizem sobre meio ambiente e clima

Uma análise comparativa da Política Por Inteiro (iniciativa do Instituto Talanoa), publicada em agosto de 2026, debruçou-se sobre seis planos de governo — Lula (PT), Ronaldo Caiado (PSD), Flávio Bolsonaro (PL), Renan Santos (Missão), Romeu Zema (Novo) e Hertz Dias (PSTU) — sob três eixos: transição energética e mineração, adaptação climática e mudança de uso da terra. Um achado central da análise interessa diretamente à pauta de racismo ambiental: em nenhum dos seis planos examinados o termo aparece de forma explícita.

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Segundo a análise, Lula e Ronaldo Caiado apresentam a formulação climática mais transversal, integrando a política de clima a outras agendas de governo. Lula reafirma o compromisso com a Contribuição Nacionalmente Determinada brasileira (NDC) até 2035 e propõe a criação de um Plano Nacional de Adaptação, além de planos estaduais e municipais de resposta a calor extremo e eventos climáticos, com infraestrutura verde e risco climático como variável obrigatória no planejamento energético. 

Já o programa de Flávio Bolsonaro sequer cita a mudança do clima como causa de eventos extremos ou como fator a se considerar na estruturação de um novo governo, e o candidato reforçou o negacionismo climático em entrevista ao Jornal Nacional no dia 28 de agosto. 

Hertz Dias reconhece a gravidade da crise climática e o fracasso iminente das metas do Acordo de Paris, mas não detalha instrumentos de política coordenada. Já Renan Santos trata a instabilidade climática apenas como problema do setor agropecuário, sem conectá-la à mudança do clima em nenhum eixo do programa. Romeu Zema reconhece os extremos climáticos, mas os trata como questão de gestão de risco, não de política climática propriamente dita.

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Essa lacuna foi reforçada por uma segunda análise, divulgada pelo Observatório do Clima em 10 de setembro de 2026. Ela avaliou os planos de seis presidenciáveis a partir de 28 itens distribuídos em oito eixos socioambientais. O levantamento identificou 16 compromissos positivos no programa de Lula, e apenas um no de Flávio Bolsonaro, que ainda soma sete propostas classificadas como antiambientais. 

Segundo a coordenadora de políticas públicas da entidade, Suely Araújo, os planos dos demais candidatos são bem mais frágeis do que o de Lula na agenda ambiental. Alguns chegam a ser considerados pela organização como inaceitáveis. 

O estudo confirma que nem o plano de Caiado nem o de Zema mencionam justiça climática ou racismo ambiental, que o programa de Renan Santos sequer cita a agenda do clima, e que, à frente do governo de Minas Gerais, Zema reduziu em 96% os recursos destinados à prevenção de impactos das chuvas entre 2023 e 2025 — dado que expõe o padrão de omissão justamente nas frentes que mais afetam populações vulneráveis.

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É no tratamento do uso da terra e dos territórios indígenas e quilombolas que as diferenças mais relevantes para o debate racial aparecem. Lula e Caiado adotam uma abordagem territorial, de proteção da vegetação nativa, unidades de conservação, bioeconomia, mas divergem entre si num ponto central: Lula mantém a demarcação de terras indígenas como compromisso explícito, enquanto Caiado retira esse compromisso do texto. 

Caiado defende que qualquer consulta a comunidades siga “a Constituição, sem tutela que impeça autonomia nas decisões” sobre exploração econômica dos territórios, posição que Flávio Bolsonaro e Romeu Zema também sustentam. Renan Santos vai além: propõe diretamente um marco legal para viabilizar a exploração mineral controlada em terras indígenas, consequentemente agravando o racismo ambiental nos territórios. 

Na direção oposta, o PSTU é o único, entre os seis partidos, a associar no plano de governo a agenda ambiental à demarcação, à reparação e à titulação quilombola como compromissos de fundo. É a formulação que mais se aproxima do vocabulário de combate ao racismo ambiental defendido por movimentos negros e indígenas, ainda que sem detalhar instrumentos de implementação.

Quando o tema é desmatamento, quase todos os planos convergem no discurso de combate. Flávio Bolsonaro promete zerá-lo até 2029, Lula até 2030, enquanto Zema não define um prazo. Os três partem de lógicas distintas: Lula trata o tema como parte de uma política territorial mais ampla, ligada a povos indígenas e comunidades tradicionais; Bolsonaro e Zema o enquadram, sobretudo, como questão de segurança pública e fiscalização por satélite. Renan Santos é o único, entre os seis, que não cita o desmatamento como problema a ser resolvido.

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O que os movimentos pedem

Enquanto os planos de governo mantêm as agendas de raça, gênero e clima em capítulos separados, organizações da sociedade civil vêm pressionando por integração. O Observatório do Clima, por meio do documento Propostas para a Política Ambiental Brasileira, entregue a parlamentares em 2026, dedica um capítulo inteiro à “Justiça Climática, Racismo Ambiental e Direitos Humanos”, com a recomendação de que recursos de adaptação climática sejam aplicados considerando raça, gênero e território, e a proposta de conselhos locais de justiça climática com participação de mulheres negras, quilombolas e indígenas.

A distância entre o que os movimentos sociais pedem e o que os planos de governo entregam não é surpresa para quem acompanha o tema: políticas públicas tendem a tratar raça, gênero e meio ambiente como gavetas separadas, mesmo quando a literatura científica e os dados oficiais mostram que esses eixos se cruzam na prática, e atravessam corpos e territórios de quem sofre primeiro e mais intensamente os efeitos das mudanças climáticas. 

O fato de nenhum dos planos analisados apresentar o “racismo ambiental” como algo a ser combatido por meio de políticas de Estado reforça o abismo desse debate, mesmo que muito pressionado pela sociedade. 

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A Resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente nº 26.916/2025 foi aprovada em plenária em  3 de dezembro de 2025, tornando-se a primeira norma do Conama a estabelecer princípios e diretrizes para a incorporação da justiça climática e do combate ao racismo ambiental nas políticas e ações ambientais, prevendo inclusive o letramento racial e de gênero de agentes públicos como instrumento de implementação. Esse tema, contudo, ainda é enfraquecido nos espaços de produção política.

Os planos de governo completos de todos os candidatos estão disponíveis para consulta pública no sistema DivulgaCandContas, do TSE. É fundamental – repito, fundamental – ler, conseguir diferenciar direitos garantidos de retirada de direitos e propostas que aprofundam as desigualdades nos territórios. É fundamental cobrar que o presidente eleito se comprometa com políticas públicas que protejam a população em todos os territórios. 

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Mariana Belmont

Mariana Belmont é jornalista, nascida em Parelheiros (extremo sul da cidade de São Paulo), trabalha com articulação e comunicação para políticas públicas. Atuou em cargos no governo sobre questões ambientais e de habitação na Prefeitura da cidade de São Paulo. Trabalhou como coordenadora de comunicação e articulação do Mosaico Bocaina de Áreas Protegidas pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Foi Superintendente de Programas e Diretora de Clima e Cidade no Instituto de Referência Negra Peregum. Foi colunista do UOL e agora escreve mensalmente para a Gênero e Número. Também é ativista, parte de movimentos ambientalistas e periféricos. Recentemente foi editora convidada da Revista "Diálogos Socioambientais: Racismo Ambiental" da Universidade Federal do ABCD. É organizadora do livro “Racismo Ambiental e Emergências Climáticas no Brasil” (Oralituras, 2023). Atualmente é Assessora sobre Clima e Racismo Ambiental de Geledés - Instituto da Mulher Negra.

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