Onde estão as pessoas trans na agenda climática do Brasil?

Foto: Montagem com fotos de Unsplash

Jarê Aikyry

Segundo relatório da ONU, a população trans e travesti se encontra em extrema vulnerabilidade no Brasil. A transfobia no país resulta em desigualdades sociais e problemas estruturais, como altos índices de evasão escolar, dificuldades de acesso ao mercado de trabalho e aos serviços de saúde, exclusão familiar e números alarmantes de violência, que levam, muitas vezes, a casos de homicídio e suicídio dessa população. Aqui, vale pontuar que marcadores raciais e territoriais são muito importantes quando discutimos a violência contra corpos trans, entendendo que pessoas trans negras e indígenas, principalmente de territórios já marginalizados, tendem a sofrer ainda mais com tais desigualdades.

Um fato já posto à mesa e reafirmado pelo doutor em Ciências Sociais da Unicamp Reinaldo Dias é que a emergência climática não apenas agrava condições meteorológicas e ambientais, mas também amplifica desigualdades sociais preexistentes, impactando desproporcionalmente as populações mais vulneráveis. Neste ponto, já temos dados e informações o suficiente para entender o que pessoas trans têm a ver com isso: a população trans e travesti é impactada de forma desigual pelos eventos climáticos extremos. 

As enchentes no Rio Grande do Sul em 2024 ilustraram perfeitamente o que acontece com nossa população quando em vulnerabilidade: falta de assistência, negação de direitos, desumanidade; somos expulsos de abrigos, não conseguimos acessar serviços de saúde, sofremos violência sexual na rua e dentro de abrigos, passamos fome e somos agredidos fisico e verbalmente. 

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Se nem em circunstâncias de calamidade pública e ajuda humanitária somos lidos como humanos o suficiente, então a vida não nos atravessa da mesma forma, e a crise socioambiental que vivemos não carrega os mesmos significados. 

Além disso, é importante pontuar que somos o principal alvo, atualmente, da necropolítica mundial e, assim, também somos excluídos do pensar-político em espaços de tomada de decisão internacionais, como a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas. 

Qual a importância disso? 

Acordos internacionais são uma porta de entrada muito relevante para a construção de políticas domésticas e, para além, a obrigatoriedade de cumprimento desses acordos pode garantir a concretização de políticas públicas a nível nacional. Isso significa que incluir a população LGBTQIA+ e, principalmente, a população trans nos acordos e políticas climáticas deveria ser assunto inegociável na agenda de gênero do Brasil.

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Por parte da sociedade civil brasileira, houve uma movimentação muito importante ao se mencionar mulheres e meninas trans, junto a outras mulheres LGBTQIA+, na nova submissão, assinada por 51 organizações, para fortalecer a estruturação do Plano de Ação de Gênero – legado importante que se espera da COP30, que acontecerá este ano em Belém. Além disso, a menção ao termo “transfobia ambiental” – que descreve as injustiças sociais e ambientais que recaem de forma desigual sobre pessoas trans e travestis – é um passo valioso na constante disputa de linguagem em que nos encontramos internacionalmente, onde a agenda antigênero tem ganhado espaço. 

Apesar disso, ainda caminhamos a passos lentos. Poucas políticas climáticas nacionais e acordos internacionais, de fato, incluem a população trans. E, quando falo de população trans, estou me referindo à sua totalidade: transfeminilidades, transmasculinidades e não binariedades. Aqui, deixo a pessoalidade escrever por mim:

Agora que entendemos a importância de incluir mulheres trans e travestis na agenda de gênero, precisamos também entender quais cadeiras as transmasculinidades e não binariedades precisam ocupar.

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Corpos transmasculinos e não binários também são alvo das violências de gênero – tanto aquelas direcionadas de forma específica às pessoas designadas mulheres ao nascer, quanto as decorrentes da transfobia instrumentalizada na sociedade. 

Esses dias, me deparei com um chamado do Fundo Elas+ que materializou o que anseio para a discussão de gênero no Brasil e no mundo: uma luta por justiça socioambiental que reconheça mulheres e outras transidentidades como alvo de defesa. Por isso, tenho exercitado nas discussões das quais participo esse pensar gênero de forma expandida – entendendo que somos o alvo coletivo do mesmo violador. 

Estamos, juntas, juntos e juntes, diariamente, construindo modos de viver que rejeitam a lógica que fundou esse país: colonial, racista, patriarcal e transfóbica. Lógicas essas que, como diz Malcom Ferdinan em seu livro Uma Ecologia Decolonial, produziram um mundo baseado na destruição ambiental.

A luta por justiça climática é também uma luta pelos direitos da população trans e travesti; se não for, então não pode ser chamada justa.

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Jarê Aikyry

Ativista socioambiental e jovem indígena, Jarê é diretor executivo da rede Engajamundo e coordenador do Miriã Mahsã coletivo de indígenas LGBTQIA+ do Amazonas. Trabalha há, pelo menos, 7 anos com a agenda socioambiental, incidindo nas negociações de clima da ONU e em políticas climáticas no âmbito nacional. Pesquisa a intersecção entre raça, gênero e mudanças climáticas com foco nas vivências de pessoas indígenas LGBTQIA+.

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