Mariana Belmont
O Carnaval se foi. Já sinto saudades e a vida real gritando ao lado. Logo mais, em abril, a cidade de Santa Marta, na Colômbia, receberá a I Conferência Transição Longe dos Combustíveis Fósseis. A conferência foi concebida como um espaço de debate para países, governos subnacionais e outras partes interessadas que reconheçam a necessidade de implementar uma transição para superar os combustíveis fósseis de forma justa, ordenada e equitativa, em consonância com os objetivos climáticos e os melhores dados científicos disponíveis.
Durante a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas de 2025 (COP30), realizada em Belém, países do Sul Global tentaram avançar em uma linguagem mais explícita sobre a eliminação progressiva dos combustíveis fósseis no texto final da decisão. Não conseguiram. A proposta, puxada pela Colômbia, foi deixada de lado nas negociações finais — mais um sinal do bloqueio persistente dentro do regime climático internacional quando se trata de enfrentar diretamente a produção de petróleo, gás e carvão.
Foi nesse contexto que o governo colombiano, em parceria com os Países Baixos, anunciou que sediaria uma conferência internacional dedicada a construir caminhos legais, econômicos e sociais para uma eliminação justa dos combustíveis fósseis — um espaço pensado como complemento ao processo formal das negociações da ONU, e não como sua continuidade automática.
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A iniciativa também dialoga com o crescente apoio internacional à proposta de um Tratado de Não Proliferação de Combustíveis Fósseis, discutida por ao menos 18 países – a exemplo da Colômbia, do Paquistão e do Timor-Leste – como parte de uma estratégia diplomática para coordenar o fim da expansão de energia fóssil em escala global.
A escolha de Santa Marta como sede é estratégica: por tratar-se de uma cidade portuária e uma peça-chave na exportação do carvão colombiano, o território sintetiza as contradições de uma economia ainda profundamente dependente da extração mineral e energética. Realizar ali uma conferência global sobre o fim dos combustíveis fósseis é reconhecer que a transição energética não será conduzida apenas por mercados ou inovação tecnológica, mas exigirá decisões políticas sobre o futuro de regiões inteiras estruturadas em torno do extrativismo.
E isso importa, especialmente para países como o Brasil.
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Embora o consenso científico sobre a necessidade de eliminar gradualmente os combustíveis fósseis venha se consolidando, ainda não existem espaços internacionais dedicados a discutir como superar, na prática, a dependência fiscal, social e econômica que muitos países produtores têm dessas atividades.
É essa lacuna que a conferência pretende preencher: reunir representantes governamentais, especialistas, povos indígenas, afrodescendentes, sociedade civil, ambientalistas, lideranças da indústria e academia para mapear caminhos viáveis para uma transição energética que não reproduza desigualdades históricas sob uma nova roupagem verde.
Mais do que um debate sobre energia, estamos falando sobre quem paga, quem decide, o custo da transição.
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Em toda a América Latina, são territórios afrodescendentes, indígenas e periféricos que concentram os impactos ambientais e sociais da expansão fóssil, enquanto permanecem à margem das decisões sobre o encerramento dessas mesmas atividades. Se a transição energética continuar sendo desenhada sem enfrentar essa assimetria de poder, corremos o risco de substituir uma economia extrativa por outra — mantendo intactas as geografias de sacrifício que sustentam o metabolismo energético global.
Dados da Oxfam International ajudam a dimensionar por que a eliminação dos combustíveis fósseis não pode ser tratada apenas como um desafio tecnológico, mas como uma agenda de justiça global. Em 2019, o 1% mais rico da população mundial foi responsável por cerca de 16% das emissões globais de carbono — o mesmo volume emitido pelos 66% mais pobres da humanidade, cerca de 5 bilhões de pessoas.
No país da COP 30, mulheres negras e indígenas são maioria sem saneamento básico
Ao mesmo tempo, mais de 90% dos desastres relacionados ao clima nas últimas décadas ocorreram em países de baixa e média renda, onde a mortalidade associada a eventos extremos é significativamente maior, especialmente em contextos marcados por desigualdade.
Esse descompasso revela uma arquitetura profundamente racializada da crise climática: enquanto os benefícios históricos da economia fóssil se concentram em elites e países do Norte Global, seus impactos recaem desproporcionalmente sobre populações afrodescendentes, indígenas e comunidades do Sul Global.
Leia nossa série sobre Justiça Climática
Nesse sentido, insistir na expansão de petróleo, gás e carvão não apenas agrava o aquecimento global — aprofunda também as assimetrias coloniais que estruturam quem emite, quem lucra e quem morre.
Santa Marta pode ser apenas mais uma conferência climática. Ou pode marcar o início de uma disputa mais honesta sobre aquilo que as negociações multilaterais ainda evitam nomear: não existe transição justa possível enquanto a expansão dos combustíveis fósseis continuar sendo tratada como compatível com o futuro climático do planeta.