Vitória Régia da Silva
2025 foi um ano cheio, atravessado por disputas centrais para o futuro do país. Em meio à preparação para a COP30, à realização da Marcha das Mulheres Negras e ao avanço de ofensivas antigênero no debate público, a Gênero e Número atuou em múltiplas frentes para afirmar dados, narrativas e incidência como ferramentas de defesa da democracia e dos direitos. Foi um ano de consolidação institucional, ampliação de impacto e aprofundamento da nossa presença nos espaços em que políticas públicas, comunicação e poder se encontram.
Seguimos orientadas por nossa missão de produzir, analisar e disseminar dados sobre gênero, raça e sexualidade para revelar desigualdades, qualificar o debate público e promover transformações sociais. Em um contexto de recrudescimento do ultraconservadorismo, de ataques a políticas de igualdade e de tentativas sistemáticas de desinformação, nosso trabalho ganhou ainda mais centralidade. Não apenas publicamos conteúdos, mas fortalecemos alianças, ocupamos arenas estratégicas e estruturamos projetos de longo prazo que conectam pesquisa, jornalismo e incidência.
Ao longo do ano, ampliamos nossa atuação política e institucional. Passamos a integrar espaços como o Conselho da Ajor (Associação de Jornalismo Digital), o Fórum de Gestão Compartilhada para Governo Aberto da Prefeitura de São Paulo, como membro observador, e a Me Too Global Network, além de participarmos de articulações como a Campanha Criança Não é Mãe, o Comitê de Enfrentamento à Violência de Gênero e Raça da Marcha das Mulheres Negras e Ecossistema de Comunicação da Marcha.
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Essas frentes não são apenas instâncias formais: elas posicionam a GN como uma organização que leva dados para dentro dos processos de formulação de políticas, disputando critérios de transparência, participação social e justiça de gênero em um país marcado por desigualdades estruturais.
Nossa presença em eventos e espaços públicos ao longo de 2025 reforçou esse papel. Estivemos em fóruns de jornalismo e direitos humanos e em ambientes institucionais de alta relevância política, como audiências públicas, formações com órgãos públicos e o Plenário do Senado Federal. A participação em debates sobre clima, violência, direitos reprodutivos e democracia, incluindo o lançamento de sumários e materiais na COP e na Marcha das Mulheres Negras, não apenas deu visibilidade ao nosso trabalho, como consolidou a Gênero e Número como referência na produção de evidências que conectam gênero, raça e justiça social às grandes agendas nacionais e globais.
Jornalismo, redes e design: disputar narrativas e ampliar o alcance
No jornalismo, mantivemos uma produção consistente e estrategicamente orientada. Em 2025, publicamos 34 reportagens, 32 artigos e colunas de opinião e 4 entrevistas que aprofundaram temas como direitos reprodutivos, violência, população negra, mulheres indígenas, pessoas LGBTQIA+ e os impactos políticos das ofensivas antigênero. Em um cenário de fragmentação da atenção e de mudanças nos algoritmos, reafirmamos que nosso compromisso não é apenas com volume de acesso, mas com impacto público, consistência e relevância social.
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Nas redes sociais e na nossa newsletter, os temas que mais mobilizaram a audiência reforçaram o papel da GN na disputa de narrativas: direitos reprodutivos, violência, discurso antigênero, mulheres negras e pautas LGBTQIA+.
A área de design e visualização de dados teve papel estratégico na ampliação do alcance e da inteligibilidade dos nossos conteúdos. Ao longo do ano, desenvolvemos 159 peças para redes sociais, 146 visualizações de dados, 30 ilustrações, 10 materiais impressos, 3 séries de reportagens e 3 reportagens visuais que transformaram bases complexas em narrativas acessíveis e politicamente potentes.
As reportagens visuais sobre sífilis congênita, violência contra mulheres indígenas, violência contra homens trans e as reportagens especiais sobre justiça climática, bem viver e mulheres negras, além do especial sobre misoprostol, mostraram que forma e conteúdo, quando integrados, não apenas comunicam, mas produzem sentido público e fortalecem a incidência. O design na GN não é apenas apoio estético, mas se afirma, a cada ano, como eixo central da nossa estratégia editorial.
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Projetos e pesquisas: da produção de dados à incidência política
Os projetos e pesquisas de 2025 consolidaram a GN como uma organização que atua na interseção entre produção de conhecimento, jornalismo de dados e ação política. O Radar Antigênero, lançado em setembro, estruturou um monitoramento inédito de narrativas que atacam direitos ligados a gênero no Brasil, oferecendo uma ferramenta concreta para pesquisadores, comunicadores e formuladores de políticas.
A série de reportagens “Misoprostol: o mesmo remédio, dois destinos” conectou Brasil e Argentina em uma abordagem comparativa sobre aborto e direitos reprodutivos, ampliando o debate para além das fronteiras nacionais. A série “Mulheres Indígenas e Negras pela Justiça Climática”, realizada em parceria com organizações da sociedade civil, inseriu gênero e raça no centro da discussão climática em um momento decisivo para o país, nas vésperas da COP30. Também participamos da criação da Coalizão de Mídias Negras e Feministas, em que cinco veículos se uniram para cobrir a 2ª Marcha das Mulheres Negras e dar visibilidade ao que a mídia tradicional ignora: a luta das mulheres negras por saúde, justiça e reparação, incluindo a publicação da série de reportagens “Juntas Pelo Bem Viver”.
O Mapa Nacional da Violência de Gênero, desenvolvido com o Senado Federal e o Instituto Natura, deu continuidade à construção de uma plataforma pública de dados oficiais, qualificando o debate e fortalecendo a incidência por políticas de enfrentamento à violência de gênero baseadas em evidências, com lançamentos de novos dados ao longo do ano e a realização de audiências públicas.
Juntas pelo Bem Viver
Por fim, pesquisas como a segunda edição da Sem Parar, realizada cinco anos após a primeira, em parceria com a SOF Sempreviva Organização Feminista, aprofundaram diagnósticos sobre trabalho remunerado e não remunerado, desigualdades e o próprio campo da sociedade civil, em um momento de implementação de ações da Política Nacional de Cuidados.
Reconhecimento público e parcerias
Em 2025, nosso trabalho também foi reconhecido por premiações e pelo fortalecimento de alianças no campo do jornalismo e da comunicação. Recebemos Menção Honrosa no 14º Prêmio AMAERJ Patrícia Acioli de Direitos Humanos pela reportagens sobre violência obstétrica no cárcere e o descumprimento do Habeas Corpus coletivo do STF para gestantes e mães. O Radar Antigênero foi finalista do Troféu Rastilho, e a reportagem “Interrompidas: sem apoio, adolescentes no Maranhão abandonam a escola após a gravidez” foi finalista da categoria profissional do Prêmio Mosca. Esses reconhecimentos reafirmam a relevância pública do nosso jornalismo e o compromisso da GN com pautas que historicamente permanecem à margem do debate.
Ao longo do ano, também fortalecemos parcerias editoriais e de divulgação com veículos e organizações que compartilham nossos valores e ampliam o alcance das nossas investigações, entre elas Fiquem Sabendo, Matinal, a Coalizão de Mídias Negras e Feministas (Instituto Azmina, Alma Preta, Nós, mulheres da Periferia e Instituto Mídia Étnica), Movimento Mulheres Negras Decidem, Think Olga, Anmiga e Abrati. Essas alianças são parte central da nossa estratégia: em um ecossistema de mídia marcado por concentração e precarização, colaborar é uma forma de sustentar diversidade, qualidade e impacto.
Esses projetos, reconhecimentos e parcerias não apenas ampliaram nossa visibilidade, mas ajudaram a consolidar esse novo lugar institucional da GN. Passamos a atuar não apenas como veículo de jornalismo de dados, mas como organização de referência na produção de diagnósticos, na construção de metodologias e na tradução de evidências em estratégias de incidência política. Em um país marcado por retrocessos e disputas em torno de direitos fundamentais, essa posição é, ao mesmo tempo, uma conquista e uma responsabilidade.
Mulheres negras na linha de frente da crise climática e ambiental
Do ponto de vista institucional, 2025 foi um ano de consolidação. A equipe cresceu de forma responsável, combinando quadro fixo e profissionais contratados por projeto, o que nos permitiu responder a demandas de alto impacto sem comprometer a sustentabilidade financeira. Os aprendizados de 2025 deixaram claro que impacto não se sustenta apenas com boas ideias e parcerias estratégicas, mas com estrutura, previsibilidade e cuidado com as pessoas que constroem a organização no dia a dia.
Encerramos o ano com um horizonte claro para 2026. Em um contexto de eleições, da celebração dos 20 anos da Lei Maria da Penha e da intensificação das disputas em torno de gênero, raça, democracia e clima, a GN se prepara para aprofundar sua atuação em incidência e disputa de narrativas. As atividades da organização e o investimento em narrativas, dados e inovação apontam para um novo ciclo institucional, em que pesquisa e jornalismo caminham de forma ainda mais integrada.
Somos uma organização que transforma informação em ação pública, que articula conhecimento com política e que escolhe, todos os dias, estar ao lado de quem luta por direitos, justiça e democracia. Seguimos com dados, cuidado e coragem, conscientes de que, no Brasil de hoje, produzir informação qualificada é também um ato político.