Roberta Garcia
Movimento Mulheres Negras Decidem
Chegamos a mais um mês do orgulho LGBTQIAPN+ e, enquanto o arco-íris ocupa vitrines e hashtags, seguimos disputando o essencial: viver. Viver com dignidade, com afeto, com futuro. Porque existir – para muita gente como eu, uma jornalista negra, articuladora política e queer – já é um ato profundamente político. E insistir em estar nos lugares que nos negaram é, também, um gesto de amor. E de raiva. Raiva boa, daquelas que movem montanhas.
Em 2024, disputamos eleições municipais em apenas 1.429 dos 5.568 municípios brasileiros. Elegemos representantes em meras 197 cidades. No papel, fomos 0,76% das candidaturas e 0,37% dos eleitos. Os dados são do VoteLGBT.
Giorgia Prates, em Curitiba; Benny Briolly, em Niterói; e Amanda Paschoal, em São Paulo, estão entre as 223 pessoas LGBTQIAPN+ eleitas para câmaras municipais em 2024. E em Minas Gerais, duas cidades elegeram prefeitos assumidamente gays – um avanço simbólico importante diante de um cenário ainda marcado pela sub-representação.
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Na vida real, somos cerca de 9% da população, segundo levantamento de 2022 do Datafolha. A conta não fecha – e a estrutura não esconde a sua face. Ainda assim, somamos mais de 1,7 milhão de votos. Vinte candidaturas LGBTQIAPN+ foram as mais votadas em seus municípios. Isso é conquista em forma de resistência!
Mas, para além de resistir, eu quero criar. Recriar. Imaginar. E nisso, nós mulheres negras temos dado o tom há muito tempo. Somos especialistas em imaginar futuros, mesmo quando o presente é brutal. Não é sobre utopia distante. É sobre o agora: o feijão na panela, a criança na escola, o corpo em segurança, o afeto livre, a terra viva. É sobre o bem viver como horizonte possível – e radicalmente político.
Com a nossa cara, nossa ginga, nossa voz. Uma política em que o nosso vocabulário seja uma expressão de pertencimento e conforto. Que o corpo dissidente não seja só tolerado, mas desejado como parte do projeto de país.
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Se estou falando de presença, é preciso reconhecer o que já está em movimento. Não é pouca coisa que a primeira mulher negra e trans eleita deputada federal no Brasil tenha sido reconhecida como a melhor parlamentar do país e a mais bem avaliada pela imprensa no Prêmio Congresso em Foco.
Erika Hilton não está apenas “fazendo história” – ela está reconfigurando o que se entende por política no Brasil. Seu corpo em plenário não é só símbolo: é desejo de ruptura. É projeto de espaço possível em uma nova estética que ressignifica a dor.
A nossa história política começa na construção de outros mundos dentro deste. Com as mulheres negras que aprenderam a transformar silêncio em palavra, ausência em quilombo, perdas em reexistência. Com as que inventaram, no cotidiano, as bases de uma política que não é feita de mandatos, mas de laços. É a imaginação radical como método. É o cuidado como estratégia. É o corpo como território de disputa e de invenção. A luta aqui é parte de um mapa maior e não se resume ao voto.
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Enquanto isso, os conservadores fazem barulho. Tentam controlar livros, banheiros, desejos. Os adeptos do moralismo seletivo criam projetos de lei que criminalizam nossas existências. Ocupam as manchetes a qualquer preço. Esquecem que já fomos muitas vezes enterradas e renascemos semente.
Orgulho, para mim, é memória. É planejamento. É dizer sim à complexidade, ao amor entre pessoas, à dança de corpos livres. É saber que nossa luta não cabe em planilha, mas precisa de orçamento.
É não aceitar migalhas de visibilidade, quando o que queremos é o bem viver respeitando – com tempo, com território, com descanso, com comunidade e redistribuição. Imaginar o Estado a partir do cuidado, e não da punição.
A sobrevivência não basta.
Sou parte de uma rede que pensa, sente e age.
Brasil é pioneiro em gerar dados oficiais sobre LGBT+ na política
Escrevo como quem não está sozinha. Como alguém que entendeu que ocupar os espaços é um direito. Que viver plenamente não deve ser exceção, mas política pública. Que a raiva, o amor, o riso e a dor podem — e devem — estar juntos na construção de um Brasil possível.
Então sim: vamos celebrar o orgulho. Mas vamos fazer isso conscientes de que toda celebração é disputa. Que nem todo close é voto — e que todo orgulho, se for sincero, precisa ser político. E incrivelmente imaginativo.
E aí? Qual o seu duplo twist carpado de hoje, hein?