Nego Bispo e a verdade na COP28

Nego Bispo, um homem negro, calvo, com barba grisalha, sorri para a foto.

Mariana Belmont

Cinco dias de COP28 aqui em Dubai, nos Emirados Árabes. Essa invenção de novos dias, de um futuro sem petróleo. Algumas mentiras que nós mesmos, que estamos aqui, acreditamos. E jogamos o jogo, achando que vamos conseguir não respirar aquela massa de petróleo queimando, que vemos do metrô limpo e bonito da cidade.

Escrevo no quarto do hotel, me dei o dia para ficar sentada no computador e dormir um pouco mais. Ainda tenho oito dias por Dubai, uma cidade em que não se ouve coração pulsar, não temos vontade de passear, uma maquete de vida montada em cima do deserto quente. E longe da minha casa.

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Não consigo escrever nada, absolutamente nada, sem referenciar nosso mestre Nego Bispo. Sentir sua partida longe de casa tem sido uma das experiências mais tristes que vivi. Estive com Nego Bispo há quase um mês, em um evento do Observatório do Clima, no Rio de Janeiro. Conversamos, ele já muito cansado de tantas viagens, mas querendo estabelecer mais paradas em seu quilombo no Piauí. Antes de ir embora, entreguei meu livro e ele deixou comigo “Colonização, Quilombos: modos e significações”. Quis pagar e ele não deixou. Tiramos uma foto e trocamos um longo abraço. Nego Bispo ancestralizou. E a gente te agradece muito por tudo, mestre.

Desde a notícia de sua partida, pensei muito no que estamos fazendo na COP28, a Conferência do Clima. Pressionando, constrangendo, tentando. Acho que tentar é uma palavra muito boa. O povo negro, indígena, mulheres negras, periferias e tantas comunidades tradicionais preservam a vida constante e presente nas florestas e cidades do Brasil. São essas pessoas que fazem a vida continuar acontecendo de verdade.

Algumas delas estão aqui na COP28. Nos últimos anos, a delegação de organizações indígenas, negras e periféricas aumentou consideravelmente. Para acompanhar as negociações, reuniões bilaterais com os governos do mundo, trocas entre organizações. Acho tudo isso válido. Eu mesma estou aqui para isso. Mas todas sabemos que é necessário mais que poucos resultados a cada ano.

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“Confluência é a lei que rege a relação de convivência entre os elementos da natureza e nos ensina que nem tudo que se ajunta se mistura, ou seja, nada é igual. Por assim ser, a confluência rege também os processos de mobilização provenientes do pensamento plurista dos povos politeístas. Transfluência é a lei que rege as relações de transformação dos elementos da natureza e nos ensina que nem tudo que se mistura se ajunta. Por assim ser, a transfluência rege também os processos de mobilização provenientes do pensamento monista do povo monoteísta. É a partir dessas leis que se geram os grandes debates entre a realidade e a aparência, ou seja, entre o que é orgânico e o que é sintético.” 

Nego Bispo, em “Colonização, Quilombos: modos e significações”.

Logo nos primeiros dias da Conferência houve a aprovação de um Fundo de Perdas e Danos, depois de anos de entraves colocados pelos países ricos nas negociações. O fundo, aprovado na COP27, no Egito, foi operacionalizado com um acordo já na abertura da conferência. Os países em desenvolvimento pedem que o fundo tenha um valor mínimo de US$100 bilhões anuais, mas esse piso não consta expressamente da decisão. As contribuições são voluntárias, mas há um chamado para que os países desenvolvidos forneçam o apoio necessário ao fundo, enquanto os demais são encorajados a fazer contribuições. Mas precisamos de mais, precisamos de ações concretas de adaptação.

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Depois de ser cobrado por cinco lideranças por não estar cumprindo promessas da sua campanha, como titulação de territórios quilombolas, demarcação de terras indígenas e a entrada no Brasil na Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), durante uma conversa com movimentos sociais presentes na COP28, no sábado (02/12), o Presidente Lula disse para as pessoas se organizarem, elegerem um Congresso menos conservador e impedirem a volta da extrema direita ao poder.

“Ou a gente participa ou a extrema direita vai voltar com muita força, não apenas no Brasil, mas em muitos outros países”, seguiu Lula. “Se preparem, que nós temos três anos de muita luta pela frente, de muita luta mesmo.”

A cobrança foi por maior participação na política institucional. “Ou nós construímos uma força democrática capaz de ganhar o poder Legislativo, o poder Executivo e fazer a transformação que vocês querem ou nós vamos ver acontecer o que aconteceu com o Marco Temporal.” Ao reclamar que ainda há poucos negros no Ministério Público e no Judiciário, apesar de sua presença maior nas universidades, o presidente ouviu gritos de “e uma ministra negra no STF, presidente?” Não houve respostas.

Se estávamos esperando ver que “o Brasil voltou para ser líder no combate às mudanças climáticas”, ainda não sentimos isso por aqui. E até agora nada de posições firmes e com responsabilidade do governo brasileiro por adaptação climática, o que evitaria milhares de mortes e daria mais qualidade de vida para a população negra, que corresponde a 56% da população brasileira.

Em 2025, teremos COP30 na Amazônia brasileira, em Belém do Pará, norte do Brasil. O governo brasileiro precisa levar isso muito a sério. As brincadeiras sobre reuniões em árvores e canoas não nos ajudam a ter responsabilidade com a população urbana da Amazônia e com o racismo ambiental.

Mas ainda temos alguns dias de quase verdades, tentativas de pressionar nas negociações, de falar com o governo brasileiro. E de sentir nojo da Braskem.

Obrigada por tudo, Nego Bispo.

Extraímos os frutos das árvores 

Expropriam as árvores dos frutos 

Extraímos os animais da mata 

Expropriam a mata dos animais 

Extraímos os peixes dos rios 

Expropriam os rios dos peixes 

Extraímos a brisa do vento 

Expropriam o vento da brisa Extraímos o fogo do calor 

Expropriam o calor do fogo Extraímos a vida da terra 

Expropriam a terra da vida Politeístas! 

Pluristas! 

Circulares! 

Monoteístas! 

Monistas! 

Lineares! 

Nego Bispo

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Mariana Belmont

Mariana Belmont é jornalista, nascida em Parelheiros (extremo sul da cidade de São Paulo), trabalha com articulação e comunicação para políticas públicas. Atuou em cargos no governo sobre questões ambientais e de habitação na Prefeitura da cidade de São Paulo. Trabalhou como coordenadora de comunicação e articulação do Mosaico Bocaina de Áreas Protegidas pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Foi Superintendente de Programas e Diretora de Clima e Cidade no Instituto de Referência Negra Peregum. Foi colunista do UOL e agora escreve mensalmente para a Gênero e Número. Também é ativista, parte de movimentos ambientalistas e periféricos. Recentemente foi editora convidada da Revista "Diálogos Socioambientais: Racismo Ambiental" da Universidade Federal do ABCD. É organizadora do livro “Racismo Ambiental e Emergências Climáticas no Brasil” (Oralituras, 2023). Atualmente é Assessora sobre Clima e Racismo Ambiental de Geledés - Instituto da Mulher Negra.

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