Maite Schneider
Com esta coluna completo um ano de casa na Gênero e Número, esse espaço que me acolheu tão lindamente. Quantas trocas, aprendizados e temas que me fazem querer cada vez mais me aprofundar em mim através de vocês. Obrigada, em primeiro lugar.
Em meu primeiro texto, de um ano atrás, fiz um convite para comemorarmos TODAS as mulheres. Falei da importância de um olhar mais abrangente, coletivo e interseccional.
Agora quero falar sobre mulheres serem também pessoas sem que isso diminua seu lugar de mulheridade. Pode ser?
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Quando vejo um grupo de mulheres que não concordam em ser tratadas como “pessoas com útero”, “pessoas que menstruam”, “pessoas que procriam”, “pessoas que sofrem feminicídio” e outras versões, procuro conversar e entender onde se encontram as razões para a discordância.
E sempre, depois de muita conversa, chego a pontos como: 1) o apagamento do termo mulher acarreta problemas para políticas públicas, manutenção ou conquista de direitos, 2) sentimento de exclusão e não pertencimento, 3) mulheres são mulheres e não pessoas que procriam, pessoas que menstruam, pessoas que têm vagina, isso gera uma coisificação do papel da mulher.
Claro que é muito importante refletirmos sobre discordâncias em tudo que estamos tentando melhorar como humanidade. Vamos amadurecendo, ampliando horizontes e construindo possibilidades melhores de existências para mais pessoas.
Coleção: Março das mulheres trans
Apagamento do termo mulher
Penso justamente que o termo “pessoas” multiplica olhares e não traz um apagamento ou a diminuição da mulher. O que não é nomeado encontra mais dificuldade de suporte, em termos de políticas públicas gerais e em todas as áreas de nossa sociedade.
Claro que podemos falar de mulheres e também pessoas que menstruam, pessoas que procriam e assim por diante. Acontece que em termos de políticas públicas – e até mesmo nas privadas -, ao criarmos esses caminhos, tentamos sempre usar o da INCLUSÃO como normativa para sua construção.
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Ao usarmos o termo “mulheres”, se realmente levássemos em consideração TODAS as mulheres, já seria excludente com vários outros recortes. Afinal, há mulheres que menstruam, que não menstruam, que não querem menstruar e assim por diante.
O mesmo ocorre com as mulheres que gestam – temos as que podem, querem e gestam; as que podem, não querem e não gestam; as que não podem, não querem e não gestam, entre outras tantas.
Ao não ampliarmos nossas visões para quem também existe de fato, continuamos deixando de fora quem também tem direito de existir. Ao falarmos somente de mulheres sobre temáticas como gravidez, pobreza menstrual e feminicídio, deixamos de incluir homens trans, pessoas transmasculinas, pessoas não binárias, em alguns casos pessoas intersexo e até mesmo, segundo alguns feminismos radicais, mulheres trans e travestis.
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Sentimento de exclusão e não pertencimento
Você pode e deve continuar usando o termo mulher sempre que puder, quiser e se sentir à vontade para fazê-lo. Pode tatuar em seu corpo, imprimir em sua alma e vivê-lo da maneira que desejar. Se é esse uso que te faz pertencer ou se sentir parte, e se é esse pertencimento que te faz continuar, SIGA, não pare, esse é o caminho!
Agora, não impeça ou seja empecilho para que pessoas que estão tentando sobreviver com um mínimo de dignidade, direitos e acessibilidades sofram com a sua única verdade e crença de possibilidade. Isso é cruel demais!
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Mulheres são mulheres
Claro que sim, concordo muito. Mulheres são seres múltiplos, plurais e diversos, assim como pessoas que procriam e pessoas que têm vagina são diversas. E é justamente por essa multiplicidade e pluralidade que vejo como potência a abertura de olhares e práticas.
A coisificação do papel da mulher não é feita pelo uso de termos como pessoas que menstruam, pessoas com vagina ou pessoas que procriam. A coisificação do papel da mulher é feita por um pensamento machista reducionista aplicado em práticas diárias, criadas e impostas, muitas vezes, como naturais e orgânicas.
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A diversidade é a maior igualdade que temos como humanidade. Somos pessoas diversas por essência. E ser diferente não é algo ruim, entenda. A diferença só não é saudável quando reflete desigualdade.
Se um termo, linguagem, pensamento ou ação que você usa EXCLUI no dia a dia e você tem a oportunidade de aprender, mudar ou, quem sabe, INCLUIR ao seu dia a dia essa possibilidade, não seria muito mais interessante – e até humano – incorporar esse exercício na prática do seu cotidiano?