Mulheres negras seguem na linha de frente e nos dados também

Imagem: Montagem com fotos de Fabio Rodrigues-Pozzebom e Bruno Peres/Agência Brasil

Vitória Régia da Silva

A 2ª Marcha Nacional das Mulheres Negras, realizada em 25 de novembro em Brasília, reuniu mais de 300 mil mulheres e reafirmou a centralidade do movimento negro feminino na construção democrática do país. Mais do que um ato político, o encontro evidenciou a força de uma agenda que combina luta, memória, dados e disputa narrativa, dimensões que, juntas, apontam caminhos para um Brasil mais justo.

Durante a coletiva de abertura, a historiadora e fundadora do Odara – Instituto da Mulher Negra, Valdecir Nascimento, sintetizou o espírito da Marcha:

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Mulheres negras fazem revolução todos os dias, em todos os lugares. Não queremos piedade. Não viemos pedir, mas afirmar o que temos feito (...). Nós colocamos o mundo para marchar junto com a gente.”

As palavras ecoaram ao longo de toda a programação e seguem reverberando dias depois — não apenas como lema, mas como diagnóstico e horizonte.

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Da rua às redes: comunicação estratégica, dados e memória

Representar o Comitê de Justiça Reprodutiva durante a coletiva foi, para mim e para a Gênero e Número, um momento de profunda responsabilidade. A organização acompanha, desde sua criação, como os dados sobre violência obstétrica, impactos ambientais nos territórios e criminalização do acesso à saúde escancaram a desproporcionalidade que atinge mulheres negras.

Sentar ao lado de lideranças históricas e jovens ativistas foi também reconhecer que a defesa dos direitos reprodutivos no Brasil se sustenta em décadas de luta protagonizada por mulheres negras, que seguem dizendo — com razão — que não existe democracia possível sem garantir dignidade, autonomia e justiça para quem carrega o país nas costas.

A Gênero e Número esteve em Brasília desde 22 de novembro, fazendo a cobertura da programação da Marcha — debates, lançamentos, seminários e expressões culturais, como o ballroom, que reafirmam a diversidade política e estética do movimento. Todo o material está disponível em nossas redes e em nosso site.

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Essa atuação fez parte da Coalizão de Mídias Negras e Feministas, parceria com AzMina, Alma Preta, Nós, Mulheres da Periferia e Instituto Mídia Étnica. O esforço conjunto ampliou o alcance, qualificou a narrativa e fortaleceu a presença digital da Marcha, preenchendo o vazio histórico deixado pela mídia tradicional quando o assunto é a luta das mulheres negras por saúde, reparação e justiça.

Construção contínua: pesquisa, articulação e incidência

A presença na Marcha é apenas uma parte de um processo mais longo. Desde outubro de 2024, a Gênero e Número está envolvida na construção política e estratégica do evento. Provocadas pelas mais velhas sobre a ausência de diagnósticos públicos sobre mulheres negras e políticas públicas, unimos forças com a Oxfam Brasil e o Observatório da Branquitude para produzir um estudo nacional inédito sobre a Marcha, com lançamento previsto para 2026.

Em 2025, demos um passo preliminar: lançamos o sumário executivo “Crise Ambiental e Climática: Mulheres Negras na Linha de Frente”, apresentado na COP, em Belém, e na programação oficial da Marcha em Brasília. O documento evidencia como mulheres negras estão desproporcionalmente expostas à crise climática, a desastres ambientais e às injustiças alimentares que moldam o presente brasileiro.

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Também desde abril de 2025, integramos o Ecossistema de Comunicação da Marcha, espaço coletivo que articula organizações e comunicadoras para garantir que a voz das mulheres negras esteja em circulação permanente – das ruas às plataformas digitais, das grandes mídias às comunitárias. Além disso, participamos do Comitê de Enfrentamento à Violência de Gênero e Raça, iniciativa que reúne movimentos e organizações para fortalecer estratégias de acolhimento e proteção a mulheres negras diante das múltiplas violências que enfrentam cotidianamente.

As vozes de quem constrói

Esse trabalho não é individual. É coletivo. E nossa equipe viveu a Marcha a partir de diferentes papéis e experiências.

Miriã Damasceno, assistente de comunicação, compartilha:

“Estar em Brasília para a 2ª Marcha Nacional das Mulheres Negras teve um impacto impossível de descrever em palavras – e que bom que pude descrever nas imagens e vídeos que fiz ao longo do dia. Caminhei entre tantas mulheres incríveis, registrando cada gesto de força, em parceria com outras mídias feministas. Juntas, alcançamos muito mais. Voltei para casa atravessada pelo que vi e vivi, grata por ter ajudado a contar essa história do jeito que ela merece ser vista.”

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Lara Martins, analista de captação e desenvolvimento institucional, relata:

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Caminhar na Marcha, dez anos após sua primeira edição, foi estar entre gerações que transformam dor em legado e futuro em possibilidade. As mais velhas conduziam a marcha; a juventude pulsava em som, cor e esperança. Brasília se tornou um corpo vivo de memória e luta. Saí profundamente tocada e grata por viver esse momento.”

Laila Nery, jornalista e colaboradora da GN, destaca:

“Nós, mulheres negras brasileiras, sempre estivemos em movimento e sabemos disso. Marchar é uma atividade diária a qual estamos habituadas.Ver o sorriso das nossas irmãs enquanto nos reunimos com e por elas é como entrar num território onde o mundo, por alguns instantes, passa a ter o formato do que sempre sonhamos: justo, vivo, possível. Ali, no meio de milhares, de mulheres que admiro, a sensação era de reconhecimento imediato. Não precisávamos explicar nada. Nossos corpos já diziam tudo.”

“É emocionante perceber como cada uma chegou ali por caminhos diferentes, mas trazendo o mesmo inimigo nas costas: o racismo que tenta nos dispersar, nos silenciar, nos isolar. E, ainda assim, estávamos juntas. Inteiras, como faz Mano Brown, aquelas ‘que não viraram comida de tubarão’. Com uma delicadeza que só existe onde há cuidado e memória, onde estamos dispostas a exigir um mundo mais justo para os nossos”, prossegue.

“O que vi naquele encontro foi a continuação das mulheres que vieram antes de nós, como a minha tataravó, as que resistiram em silêncio, as que lutaram em voz alta, as que ficaram pelo caminho e as que abriram caminhos onde não havia nenhum. A gente entende que não está sozinha, nunca esteve. E que o racismo pode ser grande, mas a nossa coletividade é maior”.

A 2ª Marcha Nacional das Mulheres Negras reforçou algo que já sabíamos, mas que agora está visível para todo o país: mulheres negras estão na linha de frente, seja produzindo dados, liderando pesquisas, articulando comunicação estratégica, disputando narrativas, fortalecendo redes e apontando soluções para o Brasil do presente e do futuro.

Se o país deseja enfrentar desigualdades estruturais – de gênero, raça, classe, território e acesso a direitos –, precisa olhar para onde as mulheres negras estão apontando há décadas. Na linha de frente das lutas climáticas, nas batalhas por justiça reprodutiva, nos enfrentamentos ao racismo religioso, nos territórios, nas redes e nas ruas.

A Marcha não terminou no dia 25. Ela continua nos nossos trabalhos, pesquisas, articulações e alianças. E continuará enquanto for necessário afirmar, defender e garantir que mulheres negras vivam com dignidade, autonomia e direitos respeitados. Seguimos marchando e produzindo os dados, as narrativas e os caminhos que sustentam esse futuro.

Este artigo faz parte da série Juntas pelo Bem Viver. Essa é uma iniciativa da Coalizão de Mídias Negras e Feministas, formada por Gênero e Número, Alma Preta, AzMina, Instituto Mídia Étnica e Nós, Mulheres da Periferia.

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Vitória Régia da Silva

Jornalista formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e pós-graduanda em Diversidade e Inovação Social pela PUC Rio. É diretora executiva da Gênero e Número, organização em que, há mais de oito anos, se dedica à cobertura especializada em gênero, raça e sexualidade, sempre guiada por dados. Também é conselheira da Ajor (Associação de Jornalismo Digital). Coautora do livro Capitolina: o mundo é das garotas (Ed. Seguinte) e colaboradora no livro Explosão Feminista (Ed. Companhia das Letras), organizado por Heloisa Buarque de Holanda.

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