A primeira mulher é a Mãe Terra

Em uma perspectiva dos povos indígenas, nós, mulheres, somos ao mesmo tempo corpo e território. Em outras palavras, existimos como parte e extensão de nossos territórios, que podem ser materiais ou imateriais. Em nossos corpos carregamos e transferimos heranças de saberes e espiritualidades ancestrais. Neste sentido, consideramos a Mãe Terra como a primeira mulher indígena. Quando uma mulher indígena nasce, é parte da Mãe Terra que se expande.

Para alguns povos do Alto Rio Negro, por exemplo, na história da origem do mundo, antes desse mundo existir, quando somente a escuridão dominava, uma mulher apareceu por si mesma. Yebá Buró, a avó do mundo, é a arquiteta do mundo terrestre. Em live para a realização da Conversa Selvagem – Terceira Flecha: Somos Um? Somos Muitos?, o doutor em antropologia, João Paulo Barreto, que pertence ao povo Tukano, além de declarar que nosso corpo é composto pelos mesmos elementos principais que constituem a Terra, afirma que Ela não é um corpo parado, mas em contínua transformação, em movimento, pois possui todos os elementos que podem gerar vida. Por isso, o corpo terrestre, para os povos indígenas, é entendido como um corpo de mulher: a Mãe Terra. O mundo é o útero da mulher.

Cuidar da Terra significa garantia de continuidade da vida. Uma Terra fértil apresenta, como consequência, diversidade de vidas. Esse corpo-mulher precisa ser cuidado o tempo todo. Não surgimos de um movimento estanque, de uma gênese. Segundo Aílton Krenak, a ideia de gênese é um prejuízo para compreender a metamorfose contínua da vida. Barreto enfatiza que a origem da vida é cíclica e não estática. Ele utiliza como exemplo dessa metamorfose constante a questão do eclipse lunar. Em suas palavras, o tukano afirma:

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O eclipse lunar é um evento muito importante. É quando acontece uma penetração no plano terrestre e fertiliza o mundo. Daí, quando há um período de revoada de tanajura, piracema, primavera... todos esses eventos são parte da Terra. A Terra tá parindo. Ela ficou grávida e está parindo, por isso que há toda essa importância para nós, de acompanhar o mundo terrestre e cuidar disso, para que a todo tempo tenhamos essa gravidez da Terra."

No entanto, não são todas as epistemologias que compreendem a Mãe Terra como os povos indígenas. As consequências são desastrosas para todos os diferentes corpos que constituem o plano terrestre. Entender a Terra como um recurso que precisa ser apenas consumido desequilibra a relação entre todos os que nela pertencem.

Quando afirmamos que a mulher indígena é corpo-território, enfatizamos que se trata de um corpo político. Um corpo de conhecimento que é forjado no convívio em comunidade, seja ela na aldeia ou na cidade. Quando essa especificidade não é reconhecida e respeitada, diferentes processos de violência são cometidos. Para nós, a primeira mulher violentada foi a Mãe Terra, quando do período do “contato”. Desde então, o desequilíbrio para a manutenção da fertilidade do plano terrestre encontra-se comprometido.

A Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade – ANMIGA, ao publicar na semana dos povos indígenas de 2023 o material Mulheres: corpos-territórios indígenas em resistência!, tenta dialogar com a sociedade indígena e não indígena sobre a importância de reflorestarmentes.

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Reflorestarmentes: trata-se de um grande chamamento que fazemos à humanidade, na tentativa de proporcionar a todos os povos do mundo uma nova forma possível de nos relacionarmos com a Mãe Terra e também entre nós, seres que nela vivemos."

Pensando nos processos de uma educação que ensine o respeito pela Terra e pelo meio-ambiente, Xakriabá nos fala sobre as diferentes formas de tutelas implementadas pelo Estado, na tentativa de controlar nossos corpos-territórios. São muitos e diferentes os processos de violências aos que os povos indígenas são submetidos, desde o não cumprimento das demarcações de terras até nossas mentes, quando tentam interferir nos nossos processos identitários. Neste sentido, a importância do conhecimento das mulheres indígenas na preservação, manutenção e ensinamentos sobre as sementes é defendida pela pesquisadora como forma de resistência de um povo. O banco de semente tradicional Xakriabá é a materialidade dos conhecimentos dos corpos-territórios. Segundo a parentíssima:

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Quando perdemos uma variedade de sementes, não é só a semente de “cumê” que enche a barriga, que perdemos. Junto perdemos parte da memória e outros conhecimentos que também vão embora. As sementes para nós são sinal da autonomia alimentar, que carregam nossa história, nossa memória alimentar, e são fundamentais em nossos rituais."

Possuímos diferentes maneiras de alimentar nossos corpos-territórios. A cultura alimenta nossas identidades, a agricultura alimenta nossos corpos e o viver em comunidade alimenta nossas relações em equilíbrio. Nosso corpo-território precisa estar bem alimentado para que continue fértil.

Quando escreve o poema Eu não tenho minha aldeia (2019), Eliane Potiguara contesta sobre os processos de violência decorrentes das invasões das terras indígenas pelos colonizadores. Ao nascermos nas cidades, que também são território indígena, ainda mantemos viva nossa herança genética quando mantemos viva nossa compreensão sobre a vida em coletividade.

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Ah! Já tenho minha aldeia Minha aldeia é Meu Coração ardente É a casa de meus antepassados E do topo dela eu vejo o mundo Com o olhar mais solitário que nunca Onde eu possa jorrar Milhares de luzes Que brotarão mentes Despossuídas de racismo e preconceito"

Ao mesmo tempo em que denuncia o sequestro do território, a Potiguara nos lembra que, enquanto mulheres indígenas, somos nosso próprio corpo-território, independente de onde estejamos.

Racismo, preconceito, vulnerabilidade alimentar, aquecimento global, racismo ambiental, entre outros, são alguns dos temas que nos levam a refletir sobre a manutenção do corpo-território saudável – e não estamos tratando apenas de aspectos físicos. A espiritualidade indígena percebe o mundo para além do plano terrestre em que estamos, assim como estabelece relações com diferentes seres e entidades que aqui habitam. São muitas vidas e todas possuem sua mãe.

Na tentativa de materializar essa dimensão espiritual, apresento como exemplo o castigo da Mãe Terra sofrido pelo povo Munduruku da Terra Indígena Kwatá-Laranjal, narrada por seu Pergentino Lopes da Silva.

Um antigo lugar sagrado, chamado Careca, foi agredido por um grupo de não indígenas, que pegaram suas armas e começaram a atirar em direção ao barranco. O que eles não sabiam é que, com aqueles tiros, eles estavam ofendendo a mãe daquele lugar. Como consequência, a febre apareceu e começou a atacar todos que por lá habitavam. Além da aldeia Laranjal, a aldeia Cipó também foi atingida. Foi uma grande mortandade. Somente com a reunião dos pajés é que a mãe da doença foi fechada.

A espiritualidade dos povos indígenas transita diferentes entendimentos sobre a vida. Davi Kopenawa fala sobre a grande importância da manutenção do equilíbrio com o meio-ambiente para a sustentação do céu. Medicina e espiritualidade indígena estão constantemente conectadas. Em outras palavras, Terra saudável significa equilíbrio aos nossos corpos-territórios.

Diferentes processos de violência legitimados pelo Estado contribuem para a não possibilidade de equilíbrio de nossos corpos-territórios, entre eles o debate em torno do Projeto de Lei 490, que determina que são terras indígenas aquelas que estavam ocupadas pelos povos originários em 5 de outubro de 1988. Em outras palavras, exige a comprovação da posse da terra no dia da promulgação da Constituição Federal de 88, mesmo que diferentes estudos antropológicos apontem a presença dos povos indígenas por essas terras há mais de 15 mil anos.

Joênia Wapichana, atual presidente da Fundação Nacional dos Povos Indígenas, afirma que o PL 490 é um grande golpe na tentativa de embargar e frear a demarcação tão necessária das terras indígenas no Brasil, que já era garantida pela Constituição Federal de 88, no artigo 231, que garante aos povos indígenas os seus direitos.

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A demarcação de terras é um direito dos povos indígenas e um dever constitucional do Estado brasileiro, realizado pela União, mais especificamente pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas. O PL 490/07 e seus projetos apensados são um risco. Em nenhum momento, por exemplo, se teve o cuidado de consultar os povos indígenas sobre as propostas, o que é exigido pela Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), da qual o Brasil é signatário. Esse projeto sequer poderia estar tramitando nesta Casa”

O Marco temporal é inconstitucional e quer inverter a lógica de interpretação da história, reposicionando as pessoas, colocando o colonizador como dono da terra e o indígena como colonizador. Ela nega e anula qualquer contribuição dos povos indígenas para esse território. Nega nossas práticas de sobrevivência. Nega nossas tecnologias, ciências, epistemes, nossos grafismos, nossos corpos. Ele nega toda nossa cosmogonia. Dessa maneira, nega ainda a contribuição dos povos indígenas para o planeta.

Para que a mulher indígena, Mãe Terra, que é corpo-território, continue viva, nós resistimos e nos posicionamos contra o PL 490 e contra todos os retrocessos e desmantelamentos à Terra e aos diferentes mundos que nela coabitam.

Bibliografia

BANIWA, Braulina. Mulheres: corpos-territórios indígenas em resistência!; organização Kassiane Schiwingel. Porto Alegre: Fundação Luterana de Diaconia: Conselho de Missão entre Povos Indígenas, 2023.

BELEZA, Adalberto Rodrigues. Kwata-Laranjal, História e Reconquista da Terra. Org. Clóvis Fernando Palmeira Oliveria. Manaus: SEDUC-AM, 2002.

KOPENAWA, David; BRUCE, Davi. A queda do céu: palavras de um xamã yanomami. Tradução Beatriz Perrone-Moisés; prefácio de Eduardo Viveiros de Castro. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

LANA, Firmino Arantes; LANA, Luiz Gomes. Antes o mundo não existia: Mitologia Desana-Kèhíripõrã. Ilustrações Toramu Kehiri. 3ª ed. rev. ampl. – Rio de Janeiro: Dantes Ed., 2019.

POTIGUARA, Eliane. Metade cara, metade máscara. Rio de Janeiro, RJ. 3ª ed. revisada. Grumin, 2019.

XAKRIABÁ, Célia. O Barro, O Genipapo e o Giz no fazer epistemológico de autoria Xakriabá: reativação da memória por uma educação territorializada. Dissertação – Mestrado Profissional em Sustentabilidade junto a povos e terras tradicionais. UnB, 2018.

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Danielle Gonzaga de Brito

Danielle Gonzaga de Brito é doutoranda no programa de pós-graduação em Letras, na Universidade Federal do Mato Grosso do Sul - UFMS; Mestre em Letras e graduada em Letras Língua Inglesa pela Universidade Federal do Amazonas - UFAM. Professora no curso de Letras Língua Portuguesa e Língua Inglesa da UFAM/IEAA em Humaitá. Pertence ao povo Munduruku, com território ancestral a TI Kwatá-Laranjal, Borba – AM. Vice coordenadora do grupo de estudos e pesquisa em filosofia ARANDU, da UFAM/IEAA. Articuladora nacional do coletivo Mulherio das Letras Indígenas. Membro do Movimento dos estudantes indígenas do Amazonas - MEIAM

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