Machismo e racismo pintados de colonialismo verde

Nos últimos dias, sentimentos de raiva, ódio, indignação, revolta e tristeza atravessaram meu corpo. Uma sensação de impotência absurda diante do que o presente nos apresenta de forma violenta e escancarada. 

Há alguns anos, em um bar, um conhecido começou a falar sobre Marina Silva de forma violenta. Eu e Tony, um amigo, saímos com uma lista de defesas, mas em toda a discussão nada daquilo fazia sentido – os  ataques, as frases machistas e a mentira plantada sobre ela que a esquerda da Santa Cecília acreditou e replicava nos bares de São Paulo. 

Ouvido atento e reativo, o conhecido disparou: “Ela apoiou um cara de direita, na foto ela solta o cabelo e tudo, ela nunca solta o cabelo, quis mostrar que era mulher só ali?”. Aquilo foi como um soco. Tentei argumentar, mas era impossível. O homem, quando confrontado, é o pior dos seres humanos. 

Anos depois, o mesmo conhecido postou sobre Marina, torceu por ela apoiando Lula e ao me encontrar em um ato disse “me enganei demais, né Mari?”. Eu ri e fiz cara que eu faço bem, pensando na ironia e na ocasião. A conjuntura mudou, os políticos que eram inimigos viraram aliados e até chamamos de “companheiro”. 

“Ora, Mariana, mas o homem pode mudar de ideia e de posição”.

O presidente Lula tem assumido compromissos públicos bem diretos quanto ao combate aos desmatamentos e às mudanças climáticas, e a favor da demarcação de terras indígenas e titulação de territórios quilombolas. Mas não pode se perder ao tentar “unir” o país, como ele mesmo prometeu em 1° de janeiro de 2023.

Todos sabíamos que o Congresso Nacional eleito em 2022 seria  pior que o dos quatro anos do governo Bolsonaro. E o governo cedeu rapidamente nas áreas que usou em discursos internacionais, a climática, a ambiental e a proteção dos povos indígenas. 

No dia 30 de maio, o Congresso Nacional mostrou a que veio. Primeiro, a Câmara aprovou o Projeto de Lei do Marco Temporal, que inviabiliza a demarcação das Terras Indígenas (TIs). Agora o PL segue para o Senado Federal, com a promessa de mais cautela antes de avançar com a votação. 

No dia seguinte, 31 de maio, a Medida Provisória 1154 foi aprovada, com pressão e chantagem explícita do presidente da Câmara, Arthur Lira. A votação garante a manutenção dos atuais 33 ministérios, mas a bancada ruralista conseguiu avançar no jogo da política genocida contra o meio ambiente e aprovou o enfraquecimento dos ministérios dos Povos Indígenas (MPI) e do Meio Ambiente e Mudança do Climática (MMA). 

Demonstrações de violência, machismo, racismo e uma lista enorme de mentiras no plenário. Falas de homens brancos do latifúndio que não respeitam a existência de corpos que não se parecem com os seus. Só lembro de ver coisas parecidas e neste nível durante a votação do golpe contra a Presidenta Dilma Rousseff, no dia 17 de abril de 2016. 

Assistimos aos membros do governo, os homens brancos do governo, não se posicionarem na direção de blindar as ministras Marina Silva e Sônia Guajajara. Elas ficaram em praça pública, expostas e lutando com a sociedade civil para que suas pastas não fossem esvaziadas. As fotos são terríveis. Coletivas de imprensa, audiências públicas e conversas entre homens brancos, alguns de esquerda outros de direita, mas todos no mesmo lugar, na busca pelo desenvolvimento com exploração de recursos naturais.

Por que atacar com tamanha violência e tantos argumentos frágeis duas mulheres com poder de mobilização, liderança e capacidade técnica e política?

 Sônia e Marina são ministras de Estado que enfrentam os “comedores de floresta”, são elas que não recuam na luta pela preservação do país ao lado dos direitos humanos. Homens brancos poderosos consideram mulheres negras e indígenas pessoas não capacitadas para análises técnicas, históricas e políticas. 

Acho oportuno pensar sobre isso, sobre a violência que mulheres sofrem cotidianamente ao ocupar espaços políticos no país. Deslegitimadas em praça pública, desrespeitadas, não só pela extrema direita, mas pelos homens que se dizem aliados da pauta que elas defendem. O submundo sujo da política de Brasília é nefasto para todas as mulheres. 

A utopia de um desenvolvimentismo que explora corpos e pessoas, que avança sobre famílias, que cobre corpos de veneno, que tenta enfraquecer construções coletivas e movimentos sociais. 

A quem interessa a violência contra essas mulheres? A quem interessa gritos violentos e insultos contra uma Ministra de Estado, Senador Randolfe? A quem interessa pautar em urgência o Marco Temporal? A quem interessa desmontar ministérios liderados por mulheres?  

Assistimos no horário nobre à negação da vida da floresta e da cidade, da luta para combater o racismo, o machismo, a fome e toda a construção de uma vida autônoma de mulheres que não precisam pedir permissão aos homens, que colocam todo seu corpo político na luta por direitos, na luta por terras indígenas, quilombolas e pelo combate às desigualdades sociais. 

Os corpos expostos e constantemente violentados pelo colonialismo pintado de verde, de falsos discursos de conluio por poder. Poder e mais poder aos homens brancos sentados na sala de estar, com seus vinhos caros e festinhas privadas para combinar o desmonte de políticas públicas criadas e desenvolvidas para a maioria da população. 

Peguei aqui meu livro de cabeceira o “Dispositivo de racialidade: a construção do outro como não ser como fundamento do ser” (Companhia das Letras, 2023), tese de doutorado de Sueli Carneiro, recentemente lançado depois de dezoito anos da sua defesa.

“O ressentimento em relação aos negros que escaparam da vigilância e conseguiram driblar os interditos dará margem a novas formas de constrangimentos raciais por meio das demonstrações de inadequação daqueles que romperam com as barreiras. O assassinato moral é uma das manifestações do ressentimento que provocam os negros que adentraram aos espaços privativos dos racialmente hegemônicos e têm um momento emblemático no destino.”

Ainda me parece tão atual a branquitude masculina ser a linha de frente do desmonte da política e das lutas construídas por mulheres negras e indígenas. Por inveja, ressentimento, poder branco e machismo. 

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Mariana Belmont

Mariana Belmont é jornalista, nascida em Parelheiros (extremo sul da cidade de São Paulo), trabalha com articulação e comunicação para políticas públicas. Atuou em cargos no governo sobre questões ambientais e de habitação na Prefeitura da cidade de São Paulo. Trabalhou como coordenadora de comunicação e articulação do Mosaico Bocaina de Áreas Protegidas pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Foi Superintendente de Programas e Diretora de Clima e Cidade no Instituto de Referência Negra Peregum. Foi colunista do UOL e agora escreve mensalmente para a Gênero e Número. Também é ativista, parte de movimentos ambientalistas e periféricos. Recentemente foi editora convidada da Revista "Diálogos Socioambientais: Racismo Ambiental" da Universidade Federal do ABCD. É organizadora do livro “Racismo Ambiental e Emergências Climáticas no Brasil” (Oralituras, 2023). Atualmente é Assessora sobre Clima e Racismo Ambiental de Geledés - Instituto da Mulher Negra.

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