Ailton Krenak sempre foi imortal

Foto: Reprodução Instagram @_ailtonkrenak

“Nesse processo de luta de interesses, que têm se manifestado extremamente aéticos e eu espero não agredir com a minha manifestação, o protocolo dessa casa, mas eu acredito que os senhores não poderão ficar omissos, os senhores não terão como ficar alheios a mais essa agressão movida pelo poder econômico, pela ganância, pela ignorância do que significa ser um povo indígena, povo indígena tem um jeito de pensar, tem um jeito de viver, tem condições fundamentais para sua existência e para a manifestação da sua tradição, da sua vida e da sua cultura, que não colocam em risco e nunca colocaram a existência sequer dos animais que vivem ao redor das áreas indígenas, quanto mais de outros seres humanos. 

Eu creio que nenhum dos senhores poderiam nunca apontar atos, atitudes da gente indígena do Brasil que colocou em risco, seja a vida, seja o patrimônio de qualquer pessoa, de qualquer grupo humano nesse país. 

E, hoje nós somos o alvo de uma agressão, que pretende atingir na essência, a nossa fé, a nossa confiança, de que ainda existe dignidade, de que ainda é possível construir uma sociedade que sabe respeitar os mais fracos, que sabe respeitar aqueles que não tem o dinheiro para manter uma campanha incessante de difamação, que saiba respeitar um povo que sempre viveu à revelia de todas as riquezas, um povo que habita casas cobertas de palha, que dorme em esteiras no chão, não deve ser identificado de jeito nenhum como um povo que é o inimigo dos interesses do Brasil, inimigo dos interesses da nação e que coloca em risco qualquer desenvolvimento. 

O povo indígena tem regado com sangue cada hectare dos oito milhões de quilômetros quadrados do Brasil, os senhores são testemunhas disso, eu agradeço a presidência dessa casa, agradeço aos senhores e eu espero não ter agredido com as minhas palavras o sentimento dos senhores que se encontram nessa casa, obrigado!” 

Discurso de Ailton Krenak, na Assembleia Nacional Constituinte (1987).

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Em 1987, Ailton Krenak, indígena do Povo Krenak de Minas Gerais, fez esse discurso na Assembléia Nacional Constituinte, um prédio onde até hoje a maioria das cadeiras são ocupadas por homens brancos. Muitos deles são contra os territórios indígenas e apoiam políticas genocidas de extermínio dos povos que já estavam aqui quando as caravelas chegaram.

Durante a Assembleia Nacional Constituinte, Krenak desempenhou um papel significativo em defesa do Capítulo dos Índios (arts. 231 e 232), ficando marcado por esse seu célebre discurso, proferido no Congresso Nacional em 04 de setembro de 1987. Nos anos que antecederam a promulgação da Constituição, Krenak participou também da organização e articulação do Movimento Indígena.

No dia 5 de abril de 2024, 36 anos depois, Krenak tomou posse como o mais novo imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL). Assim, torna-se o primeiro indígena membro da ABL. Seus últimos livros “O amanhã não está à venda”, “Ideias para adiar o fim do mundo” e “A vida não é útil”, todos lançados pela Companhia das Letras, são daquelas obras de formato pequeno, mas que geram reflexões para uma vida inteira. Você demora para ler, vai e volta na leitura, quer entender, mas também quer devorar tudo.

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Quando ouvimos Krenak em mesas, conversas, textos, queremos ouvir. Mas será que estamos escutando mesmo? Krenak é uma voz incansável na defesa dos direitos dos povos originários, da vida na terra, e de um novo modelo de desenvolvimento que coloque as pessoas e o meio ambiente no centro do debate e das preocupações que tornam a emergência mais aterrorizante.

Tenho pouco a dizer, acho que ver a história acontecendo assim, de perto, é bonito. Enche os olhos de lágrimas o abraço de Krenak e Gilberto Gil. Fernanda Montenegro emocionada. Imagine, uma emoção atrasada. Quantos séculos estamos atrasados?

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Quantos anos demorou para quem uma instituição criada por homens brancos, de sua maioria brancos, aceitasse o segundo imortal negro na ABL? ‘É preciso resistir sempre’, disse Gilberto Gil em sua posse.

A honrosa indicação de uma liderança indígena para a ABL, em um contexto de resistência e  sobrevivência dos povos indígenas no Brasil, que vem sendo ameaçada, é uma forma de reconhecer sua contribuição para a formação da sociedade brasileira, mesmo que com grande atraso. Olhando para o futuro, nos ajuda ainda a olhar com ideias para adiar o fim desse mundo. Para uma sociedade desgastada e cansada.

Ailton Krenak, Gilberto Gil, Machado de Assis, nunca foram mortais, sempre foram imortais. E que outros imortais do nosso tempo tenham a chance, não de entrar nas instituições, mas de serem respeitados em vida. Que nossas escritoras e referências, as mulheres negras, indígenas, quilombolas, possam ocupar os espaços, qualquer espaço onde elas queriam estar. Em nosso tempo presente.

Obrigada por tudo, Krenak.

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Um trecho do discurso de Krenak na sua posse na Academia Brasileira de letras:

“(…) o romance Escrava Isaura, e ele dá bem uma ideia do que era capaz de alguém projetar de lá do século XIX, numa sociedade ainda escravocrata, antes da princesa Isabel ser convocada a assinar qualquer livro do tamanho daquele ali, ela deve ter assinado um livro grandão para configurar a situação que veio abolir a escravatura no nosso país. Abolir a escravatura não é abolir a escravidão. Quem dera fosse. Se abolir a escravatura fosse abolir a escravidão, nós estaríamos vivendo numa sociedade com menos desigualdade e brutalidade no tratamento com as nossas diferenças do que nós vivemos hoje. E a gente não ia se impressionar tanto em celebrar uma sessão da Comissão da Verdade ou da Comissão da Anistia vinculada ao Ministério dos Direitos Humanos, apreciando uma determinação da Comissão da Verdade, onde o Brasil é demandado a pedir perdão por ter tentado matar o povo indígena através dos seus instrumentos republicanos, suas milícias, suas polícias, seus exércitos, suas forças armadas, que não deixou ninguém de fora. Todo mundo participou dessa espécie de pesadelo em que os indígenas eram considerados um risco e que tinham que passar por campos de reeducação.

A terra indígena Krenak, ela foi um reformatório nos moldes do que a gente imagina ter acontecido em países de governos totalitários, onde parte da comunidade que formava aquela nação, era separada para ser reeducada, para poder voltar a convívio. Quer dizer, os totalitarismos em qualquer lugar do mundo, eles têm um defeito grave, eles não conseguem expressar a intenção que dá origem a essas práticas. E pedir perdão depois significa muito pouco no sentido da reparação, a real reparação, a reparação verdadeira que se deve a povos que foram humilhados.

Os povos indígenas acompanharam toda essa história brasileira, mesmo para aqueles que pensam que nós nunca entendemos direito o que os brancos estão falando. Eu espero ter honrado aqueles que me antecederam, aqueles que contribuíram para que essa Casa pudesse seguir honrando a sua fundação com o Machado de Assis, como o notável médico-sanitarista Oswaldo Cruz, que sucedeu o Raimundo Correia, esse que a gente atribui a ele a fundação da Cadeira. Nessa Academia, autores, médicos, não é novidade, escritores, autores, médicos, não é novidade.”

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Mariana Belmont

Mariana Belmont é jornalista, nascida em Parelheiros (extremo sul da cidade de São Paulo), trabalha com articulação e comunicação para políticas públicas. Atuou em cargos no governo sobre questões ambientais e de habitação na Prefeitura da cidade de São Paulo. Trabalhou como coordenadora de comunicação e articulação do Mosaico Bocaina de Áreas Protegidas pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Foi Superintendente de Programas e Diretora de Clima e Cidade no Instituto de Referência Negra Peregum. Foi colunista do UOL e agora escreve mensalmente para a Gênero e Número. Também é ativista, parte de movimentos ambientalistas e periféricos. Recentemente foi editora convidada da Revista "Diálogos Socioambientais: Racismo Ambiental" da Universidade Federal do ABCD. É organizadora do livro “Racismo Ambiental e Emergências Climáticas no Brasil” (Oralituras, 2023). Atualmente é Assessora sobre Clima e Racismo Ambiental de Geledés - Instituto da Mulher Negra.

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