Juventude, trabalho doméstico e cuidado

Ilustração mostra jovem com mochila e caderno. Ao fundo, uma vassoura, um fogão e uma pia.
Ilustração: Victória Sacagami/ Gênero e Número

Paula Monteiro de Albuquerque

Mulheres dedicam mais tempo ao trabalho doméstico e ao cuidado, mas desde quando essa divisão desigual do trabalho doméstico se instaura?

Os dados da PNAD Contínua de 2022 demonstram que a maior diferença percentual da taxa de realização de afazeres domésticos segundo sexo ocorre entre o grupo de idade de 14 a 24 anos. Entre as jovens do sexo feminino, o percentual foi de 86%, enquanto para os jovens do sexo masculino foi de 69%. Em relação à quantidade de horas dedicadas aos afazeres domésticos e/ou ao cuidado de pessoas, as jovens do sexo feminino dedicam, em média, 16 horas, enquanto os jovens do sexo masculino dedicam em torno de 9,6 horas.

ler Assine a nossa newsletter semanal

Os dados demonstram que a configuração da divisão sexual do trabalho também impacta a juventude de modo distinto segundo o gênero e a classe. De acordo com o estudo de Kominsky e Santana (2006), as meninas, sobretudo nas camadas populares, passam a realizar afazeres domésticos – lavar roupa, passar, cozinhar, limpar a casa e cuidar das crianças menores – quando a mãe se ausenta por conta de um trabalho fora de casa.

Ou seja, desde muito cedo as meninas são responsabilizadas pelo trabalho doméstico e de cuidado no seio familiar, uma experiência bem distinta da dos meninos, que costumam ser mais responsabilizados pela contribuição com a renda familiar através do trabalho remunerado.

Ainda segundo as autoras, se verifica que mesmo quando as jovens passam a desempenhar atividades laborais fora de casa, elas continuam a auxiliar com os afazeres domésticos e com cuidado de familiares, ao passo que seus pais, irmãos e outras figuras masculinas são dispensados das atividades domésticas caso exerçam atividade remunerada.

ler Teias do cuidado: um espaço de divulgação científica na Gênero e Número

Quais são os impactos dessa divisão desigual dos afazeres domésticos imposta culturalmente sobre as mulheres desde a infância e a juventude? Desde cedo, as mulheres enfrentam problemas para conciliar essas atividades com o estudo e, posteriormente, com o trabalho fora do domicílio ou remunerado, assim como, com o lazer e o descanso.

As mulheres enfrentam a dificuldade de inserção e permanência no mercado de trabalho e, uma vez inseridas, ainda encaram jornadas duplas ou triplas de trabalho. Assim, é necessário refletir sobre o impacto da sobrecarga de trabalho doméstico e de cuidado especificamente nas jovens, tanto em relação às suas trajetórias educacionais como na forma de inserção no mercado de trabalho.

ler Trabalhadoras domésticas nas teias do cuidado

Segundo o relatório do IBGE sobre o módulo anual de educação da PNAD Contínua de 2023, o principal motivo dos jovens de 14 a 29 anos terem abandonado ou nunca frequentado a escola foi a necessidade de trabalhar (42%). No entanto, ao olharmos esse dado segundo o sexo, percebemos que o percentual é muito mais alto para os homens (53%) do que para as mulheres (26%).

Ao se somar as porcentagens de motivo para não frequentar a escola por gravidez (23%) e por ter que realizar afazeres domésticos ou cuidar de pessoas (10%), temos um total de 33%, o que supera o percentual do motivo da necessidade de trabalhar.

Entre os jovens do sexo masculino, o percentual de não frequentar escola por ter que realizar afazeres domésticos e cuidado é inexpressivo (menos de 1%). Dessa forma, as desigualdades de gênero na divisão do trabalho doméstico e na entrada no mercado de trabalho parece já estar reproduzida desde a juventude, impactando de diversas maneiras as trajetórias escolares, levando inclusive à evasão escolar.

ler Pesquisas de opinião sobre valores de gênero no Brasil

A análise dos jovens conhecidos como nem-nem, aqueles que nem estudam e nem trabalham, é também interessante para observar a relação entre a juventude e o trabalho doméstico. Em sua pesquisa sobre o estado de ocupação dos jovens, Cardoso e Hermeto apontam que os jovens que nem estudam e nem trabalham estão mais propensos a realizar afazeres domésticos do que os jovens que só estudam, os que só trabalham e os que trabalham e estudam.

Os resultados ainda demonstram uma discrepância segundo gênero, em que a incidência de realização de afazeres domésticos é 43% maior sobre as mulheres do que sobre os homens (Cardoso e Hermeto, 2021).

De acordo com a Síntese de Indicadores Sociais 2023 (IBGE), as mulheres apresentam maiores percentuais na condição de nem-nem em todos os grupos de idade analisados, sendo essa condição mais frequente para as mulheres de 18 a 24 anos. O percentual de jovens de 15 a 29 anos que não estudam e não estão ocupados é de 29% para as mulheres, quase o dobro do observado entre os homens (16%).

ler Tarefas domésticas e cuidado de pessoas afastam jovens negras do mercado de trabalho

Ao se analisar os motivos pelos quais os jovens brasileiros nem-nem estão fora da força de trabalho, os cuidados de parentes e os afazeres domésticos se destacam como o principal motivo entre as mulheres. Assim, a desigualdade no tempo dedicado e na responsabilização pelo trabalho doméstico é o principal obstáculo para que as jovens brasileiras continuem a estudar e trabalhem fora de casa, mesmo que não seja o único.

Uma vez que a mudança cultural acerca dos papéis de gênero é demorada e processual, é importante pensar meios de mitigação da desigualdade de gênero na divisão do trabalho doméstico e de cuidado, de modo a não sobrecarregar mulheres (jovens ou não) e nem impossibilitar trajetórias educacionais e ocupacionais femininas.

Referências

CARDOSO, G. e HERMETO, A. Detalhando o perfil de atividade dos jovens brasileiros que não estudam nem trabalham. Revista Brasileira de Estudos de População, v. 38, p. 1-20, 2021.

IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua: educação: 2023 / IBGE, Coordenação de Trabalho e Rendimento. Rio de Janeiro: IBGE, 16 p., 2024.

IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua: outras formas de trabalho: 2022 / IBGE, Coordenação de Pesquisas por Amostra de Domicílios. Rio de Janeiro: IBGE. n. 13, 126 p., 2023a.

IBGE. Síntese de indicadores sociais: uma análise das condições de vida da população brasileira: 2023 / IBGE, Coordenação de População e Indicadores Sociais. Rio de Janeiro: IBGE, n. 53, 152 p., 2023b.

KOSMINSKY, E. V.; SANTANA, J. N. Crianças e jovens e o trabalho doméstico: a construção social do feminino. Sociedade e Cultura, v. 9, n. 2, p. 227-236, 2006.

Quem leu essa Artigo também viu:

Paula Monteiro de Albuquerque

Mestranda em Sociologia na Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGSA/UFRJ), integra o Laboratório de Estudos sobre Diferença, Desigualdade e Estratificação (LEDDE/UFRJ) e atua como bolsista de apoio técnico e extensionista do projeto de pesquisa Teias do Cuidado (CNPq). É bacharel e licenciada em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2017). Dedica-se aos estudos nas áreas da sociologia da educação, das desigualdades e da estratificação com foco nos marcadores sociais de raça e gênero. Fora da academia leciona sociologia na rede pública.

Se você chegou até aqui, apoie nosso trabalho.

Você é fundamental para seguirmos com o nosso trabalho, produzindo o jornalismo urgente que fazemos, que revela, com análises, dados e contexto, as questões críticas das desigualdades de raça e de gênero no país.

Somos jornalistas, designers, cientistas de dados e pesquisadoras que produzem informação de qualidade para embasar discursos de mudança. São muitos padrões e estereótipos que precisam ser desnaturalizados.

A Gênero e Número é uma empresa social sem fins lucrativos que não coleta seus dados, não vende anúncio para garantir independência editorial e não atende a interesses de grandes empresas de mídia.

Quero apoiar ver mais