Homens são 60% dos autores de textos publicados nos maiores jornais do Brasil

Diariamente, somos expostos aos conteúdos divulgados pelos grandes canais de mídia e comunicação. Apesar da significativa importância e impacto dessas fontes em nossa visão de mundo, raramente questionamos o perfil dos redatores nos principais veículos de comunicação do Brasil.

Movidos pelo questionamento sobre quem produz opinião na grande mídia, o Grupo de Estudos Multidisciplinar da Ação Afirmativa (GEMAA) tem desenvolvido estudos que investigam o perfil racial e de gênero das pessoas que escrevem e comandam os principais jornais do país.

Depois de analisar o perfil de colunistas e autores de textos de opinião das primeiras páginas das publicações, nos aprofundamos em todas as páginas dos três maiores jornais impressos do Brasil: Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo e O Globo.

Para a pesquisa, foi extraída uma amostra aleatória de 21 edições publicadas entre janeiro e julho de 2021 de cada um dos três veículos. Em seguida, codificamos manualmente as informações de todas as pessoas que assinaram matérias ou colunas publicadas. Cerca de 60% dos autores são homens e apenas uma mulher trans foi identificada, na posição de convidada pontual.

Homens estão presentes em uma proporção de mais de três para cada duas mulheres na autoria de textos assinados. Autoras mulheres concentram-se em faixas etárias mais jovens, enquanto os homens estão nas faixas etárias a partir de 50 anos, o que sugere que a desproporção pode estar relacionada à desigualdade de gênero na distribuição de poder nas redações ou ao crescimento mais recente da participação feminina nesse espaço.

Também observamos uma grave desigualdade racial, que varia pouco de jornal para jornal: 84% dos produtores de conteúdo são brancos. O segundo grupo mais representado no jornalismo brasileiro são os pardos, com 6,1%, seguidos pelos pretos com 3,4%. Os indígenas são o grupo menos representado, com apenas uma autoria, ou seja, 0,1% da amostra.

Ao analisar a combinação de desigualdades de raça e de gênero, observamos que nos três veículos a maioria dos textos são assinados por homens brancos e, na sequência, por mulheres brancas. Em seguida e em menores proporções, estão os homens negros e depois as mulheres negras.

Quando analisamos a frequência com que autoras e autores assinam textos nesses jornais, observamos que a maioria se enquadra na faixa de uma a cinco publicações no período analisado (6 meses). No entanto, as categorias de maior frequência são dominadas desproporcionalmente por mulheres brancas e homens brancos, enquanto pessoas pretas, tanto homens como mulheres, encontram-se exclusivamente na faixa de menor frequência.

A desigualdade de gênero se repete, com pequenas variações, em todas as editorias. A exceção é a de esportes, onde é mais acentuada: os textos têm seis vezes mais autores homens do que mulheres. Quando adicionamos a variável raça à análise, surgem disparidades, como a ausência total de mulheres negras na autoria de textos de educação, embora elas sejam o grupo mais numeroso da população brasileira. Mulheres negras também têm autoria muito baixa em assuntos relacionados à ciência e tecnologia, política e saúde.

No que se refere aos espaços de opinião, a disparidade na representação racial é ainda maior do que a encontrada no total de textos da amostra, com uma média de 90% de autoria dos textos por parte de brancos. A desigualdade é ainda mais acentuada nos quadros editoriais, que são responsáveis pelo controle de toda a atividade jornalística em cada meio. No Estadão, 100% dos editores são brancos, enquanto O Globo chega perto disso, com 93%. Nenhum dos dois jornais possui sequer uma pessoa preta em seu corpo editorial. A Folha de São Paulo apresenta uma desigualdade ligeiramente menor no perfil dos editores, chegando a 14% de não-brancos.

Os dados produzidos e analisados pelo GEMAA revelam uma realidade alarmante de notáveis desigualdades de raça e gênero na elite do jornalismo brasileiro. Essas disparidades se agravam à medida que avançamos para as esferas de maior poder e prestígio dentro das publicações, como as equipes de colaboradores de textos de opinião e o corpo editorial. Infelizmente, essa questão no campo jornalístico acarreta consequências deletérias para a qualidade da democracia brasileira.

A informação desempenha um papel fundamental na formação da opinião pública, o que por sua vez impacta a legitimidade das instituições e os processos de participação política, as decisões nas urnas e a sociabilidade, em geral. A exclusão de profissionais negros e pardos e, em menor grau, de mulheres da atividade jornalística contribui para a normalização da predominância masculina e branca, perpetuando a exclusão daqueles que nao são homens brancos de outros espaços sociais de prestígio e poder.

As desigualdades na representação racial nas mídias brasileiras refletem um sistema estrutural que limita a diversidade de vozes e perspectivas, e que perpetua narrativas que não capturam a riqueza e a complexidade da sociedade brasileira. Também compromete a capacidade da mídia em abordar questões cruciais sem reforçar estereótipos, preconceitos e desinformação.

Nesse sentido, é essencial enfrentar de forma enérgica essas desigualdades e promover a inclusão e a representatividade em todas as etapas do processo de produção de conteúdo jornalístico. Somente com uma mídia mais diversa e inclusiva poderemos superar os obstáculos da exclusão e avançar em direção a uma sociedade mais justa, equitativa e plural. Isso requer o engajamento de todos os setores da sociedade, o que inclui as próprias instituições midiáticas, na busca por uma transformação significativa e duradoura.

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Izabele Petersen

Izabele Petersen é graduanda em direito e pesquisadora associada do Gemaa.

Poema Portela

Poema Portela lidera a frente de pesquisa do LabJaca. Também atua como estrategista na Box1824, desenvolvendo estudos sobre tendências culturais e comportamentos emergentes. É cientista social, formada pela UFRJ, mestra em sociologia pelo Iesp/Uerj, onde trabalhou durante os últimos anos como subcoordenadora do Gemaa.

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