Desigualdades de gênero e raça em secretarias estaduais no Brasil

Solenidade de posse do novo secretariado. Rio de Janeiro, 2023. Foto: Rogerio Santana/ Governo do Estado do Rio de Janeiro.

Andressa Oliveira

Levantamento realizado pelo Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (GEMAA) traz à tona dados preocupantes sobre a representatividade de gênero e raça no secretariado estadual brasileiro. A cada 10 secretários estaduais, apenas um é identificado como preto ou pardo, enquanto 56% da população brasileira se declaram assim. Além disso, as mulheres, que compõem 51% da população, ocupam apenas 30% dos cargos de secretariado.

A pesquisa, realizada em julho de 2023, listou 572 secretarias e seus líderes. O estudo combinou informações do nome e foto, utilizando a plataforma “Nomes do Brasil” do IBGE e consultas adicionais a fotos para garantir precisão na classificação por gênero.

Quanto à identificação racial, foi adotada a “heteroclassificação múltipla e tolerante”, uma metodologia desenvolvida pelo GEMAA. A técnica se baseia em fotos disponíveis na internet para estimar a identidade racial das pessoas, reconhecendo a complexidade da classificação racial e priorizando categorias como “preta” ou “parda” em situações duvidosas.

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Gênero e raça em secretarias estaduais

170

mulheres

402

homens

brancas

negras

indígenas

amarelas

85% brancas

12% negras

3% indígenas

1% amarela

90% brancos

10% negros

Fonte gemaa

Gênero e raça em secretarias estaduais

indígenas

brancas

negras

amarelas

170

mulheres

402

homens

85% brancas

12% negras

3% indígenas

1% amarela

90% brancos

10% negros

Fonte gemaa

O levantamento organizou as secretarias em quatro grandes setores: social, infraestrutura, econômico e órgãos centrais. Os resultados apontam para uma baixa representatividade de mulheres e pessoas negras nos cargos de liderança.

A análise regional revelou que somente o Nordeste superou a média nacional em representação feminina, com 37%, enquanto a média nacional é de 30%. Entretanto, a representação feminina ainda está abaixo da composição populacional da região. Quanto à representação racial, apenas as regiões Nordeste e Norte registraram percentuais superiores à média nacional de pessoas pretas ou pardas, mas ainda aquém de sua composição populacional.

A concentração de mulheres e pessoas negras em pastas sociais sugere a persistência de estigmas e estereótipos que associam esses grupos a determinados temas, limitando suas representações em áreas consideradas estratégicas, como economia e infraestrutura.

ler Gênero e raça têm pouco espaço em agendas do Consea com o Executivo federal

Gênero do secretariado

por setor de secretaria

mulheres

homens

0

50%

100%

social

47%

53%

infra-

estrutura

25%

75%

órgãos

centrais

22%

78%

econômica

15%

85%

Fonte gemaa

Gênero do secretariado por setor de secretaria

homens

mulheres

0

50%

100%

47%

53%

social

25%

75%

infra-

estrutura

22%

78%

órgãos

centrais

15%

85%

econômica

Fonte gemaa

Em síntese, o levantamento revela um quadro complexo de desigualdades de gênero e raça no secretariado estadual brasileiro, destacando a urgência de políticas de ações afirmativas para mitigar as desigualdades presentes no setor público.

Além disso, reforça a necessidade de disponibilizar de maneira ampla dados sobre as pessoas que ocupam posições no setor público, especialmente informações autodeclaratórias sobre raça e gênero, para evidenciar desigualdades ao longo do tempo e propor caminhos para o avanço da representatividade.

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Andressa Oliveira

Coordenadora de comunicação no GEMAA, publicitária e cientista social. Mestranda no PPGSA/UFRJ. É também articuladora política no MND e pesquisadora no Observatório de Favelas.

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