Em 2018, as maiores manifestações protagonizadas por mulheres no Brasil levaram milhares às ruas pelo Ele Não, em oposição ao candidato Jair Bolsonaro. Meses antes, naquele mesmo ano, uma maré de lenços verdes inundara as praças na Argentina em campanha pelo aborto legal, culminando na aprovação da lei em dezembro de 2020. A mobilização argentina já acontecia desde o Ni Una Menos, em 2015. No Chile, a faísca acesa pelas estudantes contra o assédio universitário transformou os subsequentes 8 de Março em marcos históricos. Somaram-se a isso o Paro Internacional de Mujeres (2017-2019) e os protestos colombianos de 2021.
No entanto, os anos seguintes foram marcados pela vitória de diversos candidatos de extrema direita na América Latina. No Brasil, Jair Bolsonaro (2019-2022) venceu com um discurso focado no combate às “ideologias de gênero”. Em El Salvador, Nayib Bukele (2019-atualmente) mantém uma política repressiva de segurança pública e endurecimento penal. Na Argentina, Javier Milei (2023-atualmente) defende uma agenda ultraliberal contrária às pautas feministas. Na Bolívia, o governo de Rodrigo Paz (2025-atualmente), embora de direita tradicional, buscou sustentação na extrema direita de Santa Cruz. No Chile, uma das bandeiras de José Antonio Kast (2026-atualmente) foi a defesa do modelo cristão tradicional de família.
Nos últimos meses, somaram-se as vitórias dos conservadores Abelardo de la Espriella na Colômbia e Keiko Fujimori no Peru – lideranças que, alinhadas à influência e ao apoio explícito de Donald Trump nos Estados Unidos, projetam o nacionalismo cristão e a agenda antigênero da Casa Branca em escala internacional. Essa radicalização à direita tem se consolidado no cenário eleitoral da América do Sul, e projetos que incluam questões de gênero são bases das campanhas presidenciais mais recentes da região.
Diante desse cenário dual, como explicar que o maior ciclo de mobilização feminista da história recente da América Latina tenha coexistido com o avanço eleitoral das novas extremas direitas?
As mobilizações feministas tomaram força justamente quando o ciclo político conhecido como onda rosa, que coloriu o mapa do subcontinente americano entre os anos 1990 e fins de 2010, começou a dar sinais de esgotamento. Esses governos de centro-esquerda, ao contrário da ameaça vermelha que a esquerda representava no século XX, desbotaram e perderam radicalidade.
Isso porque, com a derrota da URSS como contraponto geopolítico e a vitória hegemônica dos EUA, a esquerda partidária já não pretendia mais romper a estrutura social e econômica da conformação do sistema capitalista. Além disso, sob o Consenso de Washington nos anos 1990 – um conjunto de recomendações neoliberais que ditou a cartilha econômica global através de exigências de austeridade fiscal e abertura de mercado – impôs-se a abertura forçada de mercados e a privatização.
Após anos de períodos ditatoriais e autoritários em vários países da região, os governos de centro-esquerda chegaram ao poder com a proposta de consolidação democrática e diminuição das desigualdades. Também chegaram surfando na alta demanda da China pelas nossas commodities.
O dinheiro do petróleo, da soja e do minério de ferro financiou uma grande expansão de políticas sociais e tirou milhões de pessoas da miséria, sem que para isso os Estados precisassem romper com as regras do mercado. No entanto, esse ciclo econômico ruiu após o colapso financeiro de 2008.
A virada da década trouxe consigo a queda dos preços das commodities e desacelerou a economia chinesa.
Na América Latina, entre muitos problemas, isso levou ao aumento do endividamento externo e, por consequência, ao estrangulamento do orçamento público dos nossos países. Com a crise, ficou evidente que não se sustentaria por muito tempo a ilusão de incluir os mais pobres sem contrariar os interesses dos mais ricos.
A pandemia de covid-19 foi um fator a mais para essa crise em andamento. O fechamento das escolas, o colapso dos hospitais e o desemprego em massa tornaram o espaço doméstico o principal – ou muitas vezes, o único – espaço de cuidado.
Como já nos alertou o geógrafo David Harvey no início dos anos 2000, a crise do capital é crônica e acontece de forma cíclica. Ou seja, faz parte da própria forma como funciona o sistema capitalista. Quando as engrenagens travam nos países centrais, o sistema ativa mecanismos predatórios do que Harvey chama de “acumulação por espoliação” na periferia global para reaver suas taxas de lucro.
Isso acontece por meio de um sistema de rapina, um modelo de exploração econômica que drena os recursos locais em benefício do capital estrangeiro e que, embora seja legal e institucionalizado, suga os excedentes locais e aprisiona populações inteiras como servas da dívida internacional.
Para a América Latina, isso significou políticas de austeridade irreais e privatizações de bens e serviços públicos a preços baixíssimos para aliviar as nossas crises de endividamento.
Os problemas econômicos não apareceram apenas nos dados estatísticos, mas também de forma material, no cotidiano das pessoas. Por exemplo, os cortes nos investimentos públicos em educação, saúde e creches não fizeram com que desaparecesse a necessidade de cuidar das crianças, dos idosos e dos doentes. Essa responsabilidade foi simplesmente privatizada e empurrada de volta para dentro dos lares.
Nancy Fraser define esse processo como a “faceta canibal” do capitalismo: o sistema devora silenciosamente o tempo e a energia dedicados à reprodução social para se manter oxigenado.
Assim, quando a crise aperta e o Estado retira os auxílios sociais, as mulheres trabalhadoras atuam como a última barreira invisível e não paga que absorve os custos do colapso dos serviços públicos para que as engrenagens do capital continuem a funcionar.
Portanto, as disputas de gênero que dividem a América Latina não são uma pauta à parte da econômica, mas estão intimamente relacionadas à forma de organização do trabalho, ainda que permeadas por debates culturais também importantes.
A pergunta de fundo basicamente é: quem deve sustentar a vida em uma sociedade onde o Estado se exime dessa função?
A extrema direita responde a essa questão devolvendo o fardo da sobrevivência à família, à igreja, ao mercado e às autoridades. Diante da retração do Estado e da precarização da vida dos trabalhadores, os projetos conservadores reafirmam o lar e a divisão sexual do trabalho tradicionais como formas de reorganizar a reprodução social.
Ou seja, não se trata apenas de uma disputa moral. O combate à “ideologia de gênero”, à educação sexual ou aos direitos reprodutivos femininos desloca a insatisfação produzida pela crise econômica para certos inimigos políticos.
Ao transformar feministas, pessoas LGBTQIA+ e defensores dos direitos humanos em ameaças à ordem social, essas lideranças legitimam o fortalecimento de um Estado punitivo e a manutenção da estrutura econômica.
Uma luta de fronteira
O feminismo latino-americano percorre o caminho contrário. Longe de ser um movimento apenas identitário, como erroneamente acusam tanto a direita quanto setores mais ortodoxos da própria esquerda, o feminismo coloca a questão da reprodução social no centro da economia política.
A crítica que reduz a luta das mulheres a uma pauta de costumes ignora que a divisão sexual do trabalho sustenta a própria estrutura capitalista. Portanto, em vez de naturalizar que o cuidado continue sendo absorvido gratuitamente pelas mulheres, nós, feministas, reivindicamos que essa responsabilidade seja socialmente compartilhada.
Daí vem a defesa de sistemas públicos de cuidado, da ampliação dos direitos reprodutivos, do enfrentamento à violência em diferentes instâncias e de formas mais concretas de participação de grupos historicamente marginalizados.
É nesse sentido que Nancy Fraser define o feminismo como uma luta de fronteira, que disputa para retirar a reprodução da vida da lógica privada e recolocá-la no centro do debate público.
Em um momento que se desenrola mais uma crise estrutural, gênero tornou-se um ponto importantíssimo de disputa sobre o futuro político e econômico da América Latina. As eleições recentes no subcontinente expressam esse conflito ao colocarem em disputa projetos antagônicos de organização da sociedade: de um lado, o aprofundamento da exploração feminina como política de Estado; de outro, a reorganização coletiva da reprodução da vida.
O avanço dessa onda conservadora nos países vizinhos é o prelúdio do que o Brasil enfrenta nas eleições presidenciais deste ano.
Ao assumir a liderança da chapa da extrema-direita, a candidatura de Flávio Bolsonaro representa a continuidade direta de um projeto abertamente golpista, vinculado a estruturas milicianas e do crime organizado e alinhado aos interesses ultraconservadores estadunidenses – elementos que, vale lembrar, são pontos essenciais do bolsonarismo.
Nesse sentido, as eleições brasileiras de 2026 devem colocar em disputa projetos distintos de organização da reprodução social que orientarão o país nos próximos anos. Essa disputa também envolve a preservação da soberania política brasileira diante da crescente articulação internacional da extrema-direita e de sua influência sobre os projetos políticos nacionais.
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É mestre e doutoranda em Ciência Política pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UNICAMP, na linha de Teoria e Pensamento Político, sob financiamento da FAPESP. Formada em Ciências Sociais pela UFU, recentemente concluiu estágio de pesquisa na Universidade Autônoma de Barcelona (BEPE/FAPESP). Suas pesquisas concentram-se no pensamento político conservador, no autoritarismo, nas extremas direitas e nas transformações do neoliberalismo na América Latina. É pesquisadora do Observatório das Extremas-Direitas Latino-Americanas (OEDLA) e do Laboratório de Pensamento Político (PEPOL), além de integrar o conselho editorial da revista Cadernos Cemarx.
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