O Estado não pode mais errar em eventos climáticos extremos

Sobrevoo, assistência e resgate de pessoas ilhadas em Bom Retiro do Sul (RS). Foto: Marinha do Brasil/RS

Mariana Belmont

Em 2024, teremos eleições municipais. Logo ali. Tenho visto pouca gente falando sobre isso em rodas de conversas, em discussões públicas ou em organizações das quais me aproximo. Não deveria ser assim, é nossa tarefa olhar para as cidades com responsabilidade. Eleger gestores comprometidos com a agenda ambiental é prioritário, porque as pessoas estão, de fato, morrendo.

Na noite de 6 de setembro, o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB), afirmou em entrevista ao programa Em Pauta, da GloboNews, que os modelos matemáticos de previsão do tempo de institutos meteorológicos não indicavam o volume de chuva que atingiu o estado nos últimos dias.

Mas o governador foi desmentido horas depois por uma nota oficial, na qual a MetSul contestou suas declarações sobre o volume de chuvas. Ele e os prefeitos de várias cidades atingidas já tinham as informações e a gravidade do que avizinhava já era conhecida muitos dias antes.

A formação simultânea de um ciclone extratropical e de uma frente fria, que se intensificaram pelo fenômeno do El Niño, muito mais severo neste ano, chegaram ao Rio Grande do Sul. Foi o quarto evento do tipo desde junho, e o mais letal até agora. Como previam os meteorologistas.

Por que os prefeitos não tinham plano de evacuação? Por que o estado afetado prefere contar mortos?

O Relatório Síntese do IPCC (AR6) revela que a humanidade está em uma crise climática, um recado claro e direto. Cabe às populações compreender e assumir a responsabilidade de escolher governantes, uma vez que é urgente ter lideranças e gestores de fato comprometidas com a redução objetiva e cotidiana das mudanças climáticas, por meio de ações de Estado e também de estímulo e suporte a uma cultura científica, econômica e social na direção de cuidar da vida das pessoas nas cidades.

Todas as instâncias do Estado, nas esferas nacional, estadual e municipal, assim como os setores da cadeia produtiva e o conjunto da sociedade civil, são responsáveis pela redução da crise climática, pelo cuidado ambiental, pela redução das desigualdades e pela segurança socioambiental.

Estamos vivendo no Brasil desigualdades sociais e territoriais decorrentes dos impactos e efeitos do aquecimento do planeta em 1,1ºC. Precisamos urgentemente de políticas públicas que contenham medidas efetivas de adaptação para responder aos efeitos dos eventos climáticos extremos sobre a vida das populações das cidades, da floresta e do campo. As áreas de risco estão mapeadas e cartografadas pelo poder público municipal e é de seu conhecimento que nessas regiões vivem majoritariamente pessoas negras, mulheres, crianças e pobres, vulneráveis aos desastres.

No domingo (10), o vice-presidente, Geraldo Alckmin, anunciou que o governo federal destinará R$741 milhões em recursos para as regiões afetadas pelas chuvas provocadas pela passagem de um ciclone extratropical no Rio Grande do Sul. Na noite de terça-feira (12), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou a concessão de empréstimo de R$1 bilhão do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para auxiliar na recuperação da economia de cidades do Rio Grande do Sul.  Lula também prometeu a liberação de R$600 milhões do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) para atender 354 mil trabalhadores.

Tudo muito importante, mas qual a urgência para planos de prevenção nos estados e municípios? O problema se apresenta escancarado todas as semanas para o Brasil, não é um caso isolado. O planeta está aquecendo, o planeta não está bem.

Dias atrás, em um debate durante o II Encontro Brasileiro de Divulgadores de Ciência, em São Paulo, refletimos muito sobre como devemos nos comunicar para dizer que o mundo está acabando e muitos dos nossos governantes, especialmente nos estados e municípios, ainda negam a ciência e preferem contar corpos no dia seguinte.

Sou a favor da narrativa catastrofista, ela pode nos salvar. Pode salvar milhares de pessoas nas periferias de cidades sem infraestrutura, sem recursos. É urgente assustar para que a gente não erre mais. Os gestores não podem normalizar seus erros e negar que já sabiam que poderia acontecer. As mudanças climáticas são uma realidade, basta olhar para as pessoas mortas soterradas, é real demais.

Quantas pessoas ainda vão morrer nas cidades brasileiras para que seja levado a sério um Plano Nacional de Adaptação efetivo e que ele seja usado? Outros jornalistas e especialistas fazem essa pergunta todos os dias. Foram mais de seis anos de negacionismo e abandono, com a política do deixar morrer instalada no país, por isso também não temos mais tempo.

Não se pode errar, o erro mata pessoas. O erro destrói histórias, leva conversas na porta de casa, leva comunidades inteiras. Vamos precisar falar mais sobre direitos humanos e mudanças climáticas. Gritar, porque as pessoas estão morrendo e vão morrer mais daqui a alguns dias, em outra cidade.

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Mariana Belmont

Mariana Belmont é jornalista, nascida em Parelheiros (extremo sul da cidade de São Paulo), trabalha com articulação e comunicação para políticas públicas. Atuou em cargos no governo sobre questões ambientais e de habitação na Prefeitura da cidade de São Paulo. Trabalhou como coordenadora de comunicação e articulação do Mosaico Bocaina de Áreas Protegidas pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Foi Superintendente de Programas e Diretora de Clima e Cidade no Instituto de Referência Negra Peregum. Foi colunista do UOL e agora escreve mensalmente para a Gênero e Número. Também é ativista, parte de movimentos ambientalistas e periféricos. Recentemente foi editora convidada da Revista "Diálogos Socioambientais: Racismo Ambiental" da Universidade Federal do ABCD. É organizadora do livro “Racismo Ambiental e Emergências Climáticas no Brasil” (Oralituras, 2023). Atualmente é Assessora sobre Clima e Racismo Ambiental de Geledés - Instituto da Mulher Negra.

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