Editorial: Março também é das mulheres trans

“E não posso eu ser uma mulher?”. Entrevistada pela Gênero e Número em 2021, a pedagoga e professora Letícia Nascimento abre o livro “Transfeminismos” (Editora Jandaíra) com a adaptação da pergunta feita Sojourner Truth sobre mulheres negras, que escancara também as dificuldades no reconhecimento de mulheres trans e travestis.

Em março, mês das mulheres, a GN terá um conteúdo especial dedicado aos direitos, desigualdades e potências das mulheres trans e travestis. Esta decisão é um posicionamento da GN de que a luta contra a desigualdade de gênero também passa pelo combate à transfobia.

Ministro de Direitos Humanos, Silvio Almeida beija a mao de Keila Simpson, presidenta da Antra (Associaçao Nacional de Travestis e Transexuais) em evento da Semana da Visibilidade Trans, em 2023
Ministro de Direitos Humanos, Silvio Almeida beija a mão de Keila Simpson, presidenta da Antra/Foto: MDH

A população trans tem uma expectativa de vida de 35 anos no Brasil, país que mais mata trans e travestis no mundo, e onde estes assassinatos cresceram 75% em dez anos [entre 2011 e 2021]. Além disso, o segmento sofre com subnotificação dos casos de transfobia e não tem saúde reprodutiva garantida pelo SUS.

O combate à transfobia está no nosso DNA. Nosso primeiro conteúdo, em 2016, ano de fundação da GN, tratava de Olimpíada e esportes, e já trazia conteúdos sobre mulheres trans. Nosso teaser de apresentação foi gravado na Casa Nem, um centro de acolhimento para pessoas LGBTQIA+ em situação de vulnerabilidade social no Rio de Janeiro.

Em 2017, o “Diálogos Gênero e Número”, nosso primeiro evento, discutia a ausência de dados com recorte trans e debatia a definição precisa da cisnormatividade, bem como a necessidade de nomeá-la para combatê-la. “Não fomos nós que nos nomeamos como trans. Fomos nomeadas assim pelas pessoas cis. Só que as pessoas cis esqueceram de se nomear também”, contou a  pesquisadora Jaqueline Gomes de Jesus.

Mas esse posicionamento tem consequências. Em 2022, após publicarmos no nosso instagram dados sobre perfil das candidaturas LGBTQIA+, em parceria com o Vote LGBT+, recebemos uma enxurrada de ataques e críticas por utilizarmos a identidade de gênero das candidaturas (cis e trans).

O gesto do ministro de Direitos Humanos, Silvio Almeida, de beijar as mãos de Keila Simpson, presidenta da Antra, no início do governo Lula, traz um horizonte de reconhecimento e legitimação do Estado em um cenário de terra arrasada, em que mesmo setores do campo progressista insistem em estigmatizar, dividir e excluir mulheres com base na sua genitália e na sua fisiologia, usando os mesmos métodos tão difundidos pela extrema-direita.

Há anos lidamos com críticas e ataques por tratarmos da população trans na nossa cobertura, mas isso não nos vai fazer parar! Muito pelo contrário. Ataques e estigmatizações só reforçam a nossa luta sintetizada no conteúdo especial deste 8 de março dedicado a elas, mulheres.

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Vitória Régia da Silva

É jornalista, escritora e cineasta. Graduada em Comunicação Social com habilitação em jornalismo pela UFRJ, mora há oito anos no Rio de Janeiro. Faz parte da diretoria executiva e é editora-assistante multiplataforma da Gênero e Número, além de editora-chefe da Revista Capitolina. Integra a Gênero e Número desde 2017, e sua busca pela construção de uma comunicação que tenha como base as diversidades de gênero, raça e sexualidade é transversal a todas as atividades que desenvolve em rede e profissionalmente

Maria Martha Bruno

Jornalista multimídia, com experiência na cobertura de política e cultura, integra a equipe da Gênero e Número desde 2018. Durante três anos, foi produtora da NBC News, onde trabalhou majoritariamente para o principal noticiário da emissora, o “NBC Nightly News”. Entre 2016 e 2020, colaborou com a Al Jazeera English, como produtora de TV. Foi repórter e editora da Rádio CBN e correspondente do UOL em Buenos Aires. Jornalista pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, é mestre em Comunicação e Cultura pela mesma instituição, e atualmente cursa o programa de Doutorado em Comunicação na Texas A&M University, nos EUA.

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