Da Marcha ao Bem Viver: quando os dados encontram a memória e a luta

O que os dados revelam sobre uma década da Marcha das Mulheres Negras.

Design de capa: Meyrele Torres | Fotos: Eline Luz e Isabel Looteens

Vitória Régia da Silva

O ano de 2026 reúne marcos importantes para a agenda dos direitos das mulheres no Brasil. O país chega aos 20 anos da Lei Maria da Penha. A Gênero e Número celebra seus dez anos de atuação. E, em um novo ciclo eleitoral, voltamos a discutir quem ocupa os espaços de poder e quais agendas serão priorizadas nos próximos anos. São três marcos distintos, mas atravessados por uma mesma pergunta: como produzir mudanças concretas na vida das mulheres e enfrentar as desigualdades de raça e gênero que estruturam o país?

A Gênero e Número nasceu da convicção de que dados não são neutros. Produzir, analisar e comunicar evidências sobre gênero, raça e sexualidade sempre fez parte do nosso DNA. Mas também aprendemos, ao longo dessa década, que números sozinhos não contam histórias. Eles precisam dialogar com as experiências, os territórios, as memórias e as vozes de quem vive essas desigualdades cotidianamente.

Foi justamente desse encontro entre evidências e narrativas que nasceu o estudo Da Marcha ao Bem Viver: uma década de avanços, desafios e disputas pelos direitos das mulheres negras no Brasil, realizado pela Gênero e Número em parceria com a Oxfam Brasil, o Observatório da Branquitude e o movimento da Marcha das Mulheres Negras. O estudo parte das reivindicações apresentadas na Carta da Marcha de 2015, que orientaram tanto as escolhas metodológicas quanto a definição dos temas analisados, para investigar o que mudou e o que permanece igual dez anos depois.

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Mais do que celebrar uma data, queríamos produzir um legado. O estudo reúne parte importante do acúmulo que construímos ao longo desses dez anos no uso de dados com perspectiva interseccional, articulando estatísticas oficiais, pesquisa acadêmica e a produção intelectual e política das mulheres negras para compreender como diferentes direitos evoluíram ao longo da última década.

Mas sabemos que um estudo, por mais robusto que seja, não transforma sozinho o debate público. Por isso, decidimos levar seus principais achados para além das páginas do relatório e transformá-los em uma série especial de reportagens. Ao longo dos próximos meses, vamos aprofundar discussões sobre representação política e acesso ao poder, violência e acesso à justiça, saúde e justiça reprodutiva, trabalho e direito à educação. 

O eixo sobre direito à cidade e justiça climática não integra esta nova série, porque já foi tema do sumário executivo Mulheres negras e indígenas na linha de frente da justiça climática, publicado em 2025, acompanhado de reportagens especiais que anteciparam parte das reflexões agora reunidas no estudo.

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As evidências revelam um país de avanços e permanências. Mais mulheres negras chegaram ao ensino superior, impulsionadas pelas políticas de ação afirmativa, mas continuam sub-representadas nas carreiras de maior prestígio.  A presença de mulheres negras na política institucional cresceu, mas elas seguem sendo o grupo com menor taxa de sucesso eleitoral. A mortalidade materna continua atingindo desproporcionalmente mulheres negras, praticamente sem alterações na última década. E a sobrecarga do trabalho de cuidado segue afastando milhares de mulheres negras do mercado formal. Em quase todos os temas analisados, os avanços existem, mas também existe uma impressionante capacidade das desigualdades de se reorganizarem.

Esperamos que esta série cumpra um papel complementar ao estudo. Se o relatório oferece um panorama amplo e sistemático, as reportagens mergulham nas histórias, nas disputas e nas experiências que ajudam a compreender o significado desses dados. Porque produzir evidências também é disputar narrativas, fortalecer a incidência política e preservar a memória das lutas das mulheres negras.

Ao celebrar dez anos de Gênero e Número, reafirmamos o compromisso que orienta nosso trabalho desde o início: produzir conhecimento rigoroso, acessível e comprometido com a transformação social. Que esta série de reportagens fortaleça o debate público, inspire novas perguntas e contribua para que, nos próximos dez anos, possamos olhar para esses mesmos indicadores e encontrar um país mais justo. Afinal, a Marcha segue em movimento, e os dados ajudam a mostrar por quê.

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Vitória Régia da Silva

Vitória Régia da Silva é jornalista formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pós-graduanda em Diversidade e Impacto Social pela PUC-Rio. É diretora executiva da Gênero e Número e vice-presidente da Associação de Jornalismo Digital (Ajor). Atua há quase uma década na produção de jornalismo de dados, pesquisas e projetos de comunicação voltados às agendas de gênero, raça, direitos humanos e justiça social. Lidera iniciativas que articulam investigação jornalística, produção de evidências e incidência em políticas públicas. Seu trabalho foi reconhecido com o Prêmio ANPOCS de Jornalismo Científico, duas edições do Prêmio Cláudio Weber Abramo de Jornalismo de Dados e uma indicação como finalista do Prêmio Direitos Humanos de Jornalismo.

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