Sem folhas não há vida: Nkisis, Orixás, Voduns e Caboclos

Foto de homem negro de costas, vestido com roupas brancas típicas de lideranças de de religiões afrobrasileiras, coloca uma oferenda de legumes e frutas dentro de uma gamela de madeira, ao lado da Pedra de Xangô, em Salvador.
Foto: Mônica Silveira. Reprodução @pedra.de.xango

Uma dor intensa no ombro fez eu me atrasar aqui com o texto. Peço logo desculpas. Mas os dias na Bahia me trouxeram de novo para o centro. A dor foi embora, o pouco sol de inverno baiano me tomou, a cultura, a natureza e a beleza de estar com quem se gosta me fizeram melhorar. Então escrevo da Bahia.

Já sentiu a força da natureza? É impressionante mesmo. Não só a floresta, mas tudo. “Saber a hora de parar é para homem sábio”, me lembrou o Criolo tocando na rua, perto da praia da Barra.

Cheguei no terreiro do Tata Mutá Imê, sacerdote do candomblé bakongo, nação angola, do Nzó Mutà Lombô ye Kaiongo e a Casa dos Olhos de Tempo, região de Cajazeiras XI, uma área no Miolo de Salvador. Tata me fala de um desmatamento que está acontecendo na frente do seu terreiro, para construção de algo. A estrada é um lamaçal só, uma bagunça. Com certeza, máquinas e barulhos vão tirar a paz e a tranquilidade daquele pedaço da Mata Atlântica baiana.

Não existe religião sem natureza. “Candomblé é uma religião que protege a natureza. Sem ela, sem a água, sem a mata e sem os animais a gente não sobrevive”, disse o Tata em 2011, em uma entrevista no Programa do Jô. A natureza é tudo para o Candomblé. É da natureza que a gente retira as folhas sagradas e a energia. Se não tiver, não tem como ser. Faz tudo parte.

Tata me fala: “Não tem o que eu preciso para fazer esse trabalho, não acho no mercado, na Feira São Joaquim. O cara ficou de me avisar quando chegar, mas aí é tudo muito caro. Estão desmatando tudo, não se acha mais. E, se acha, é muito caro. Vou plantar aqui, mas é muito difícil”. Desmatamento acelerando a extinção de religiões, tradições e modos de cultuar crenças.

Reflorestar áreas do terreiro ou próximas a ele é uma prática comum das comunidades, seja quando possuem terras ou usando espaços públicos ou através da aquisição com produtores, para tentar recuperar a biodiversidade de plantas quase extintas.

A manutenção dos hábitos religiosos depende de água limpa, de diversas espécies de plantas e alimentos. A ligação com a natureza tem o papel importante de estimular processos educativos e práticas de atividades comunitárias, que ajudam a preservar e recuperar territórios e os espaços que ocupam, como o plantio de espécies de plantas que são utilizadas nos rituais.

A memória mais bonita da minha infância é ir ao terreiro aos sábados. Todos lá de casa bem vestidos e juntos na rua do meu bairro, indo até a casa da Maria do Carmo, que morava em um sítio enorme, em uma casa bonita. Dona Maria era uma mulher negra de olhos verdes que te olhava firme. A gente ia sempre lá nas festas, muitas crianças,  muito mato, era uma festa de santo dentro da floresta, dentro da Mata Atlântica. A natureza era o centro.

O que parece certo é que quanto mais nos distanciamos da natureza, do quintal de casa e da paisagem verde, com as cidades crescendo sem planejamento e com a industrialização, mais atingimos de forma cruel o planeta que alimenta o faminto e sacia o sedento. Perde a história, perde a vida e perdemos tudo.

Foi forte isso no diálogo que houve no 2º Encontro de Mulheres Quilombolas, que aconteceu no final de junho, em Brasília. A força da natureza, mulheres juntas dando passos firmes na organização comunitária, ancestral e popular para defender a natureza. Que fazem parte daquela vida toda, da história que caminha com elas e com tantos povos negros que ocupam territórios sagrados.

Obrigada Tata, por me lembrar do que precisamos. Volto com a força da natureza e com uma missão ainda mais clara sobre o que já entrego para o mundo nas pesquisas, na luta contra a destruição ambiental e na defesa dos direitos humanos.

É com a natureza que nos conectamos com o sagrado, que é cura. Cada folha que se extingue leva consigo uma informação única de diversidade, vida e ancestralidade.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da GN

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Mariana Belmont

Mariana Belmont é jornalista, nascida em Parelheiros (extremo sul da cidade de São Paulo), trabalha com articulação e comunicação para políticas públicas. Atuou em cargos no governo sobre questões ambientais e de habitação na Prefeitura da cidade de São Paulo. Trabalhou como coordenadora de comunicação e articulação do Mosaico Bocaina de Áreas Protegidas pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Foi Superintendente de Programas e Diretora de Clima e Cidade no Instituto de Referência Negra Peregum. Foi colunista do UOL e agora escreve mensalmente para a Gênero e Número. Também é ativista, parte de movimentos ambientalistas e periféricos. Recentemente foi editora convidada da Revista "Diálogos Socioambientais: Racismo Ambiental" da Universidade Federal do ABCD. É organizadora do livro “Racismo Ambiental e Emergências Climáticas no Brasil” (Oralituras, 2023). Atualmente é Assessora sobre Clima e Racismo Ambiental de Geledés - Instituto da Mulher Negra.

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