Fernanda K. Martins
De 2017 a 2023, colecionei histórias, confidências, perguntas e silêncios em rodas de conversa atravessadas por raça, gênero e desejo. No centro de tudo, uma constatação: o amor entre pessoas pretas pode ser abrigo — mas ainda pesa demais nos ombros das mulheres quando o cuidado não se sustenta além da praça.
Nesse período, vivi o que eu descreveria como uma espécie de aventura. Depois de anos como militante do movimento feminista e de um breve flerte com o movimento negro, entrei no doutorado em Ciências Sociais na Unicamp com uma pulga atrás da orelha – e um desejo intenso de entender um processo do qual, por um lado, me sentia parte constituinte e, por outro, apenas observadora. Após acompanhar a criação dos primeiros grupos feministas nas universidades e ver a explosão de temas feministas na mídia, comecei a notar mudanças na forma como a violência em relações afetivo-sexuais era discutida.
Nesses anos de pesquisa, fui convidada para rodas de conversa que ocorriam na cidade de São Paulo — cada uma voltada a grupos atravessados por diferentes interseccionalidades. Certa vez, mediei um grupo de conversa sobre relações abusivas entre pessoas LGBTQIAPN+; em outra, estive em um espaço sobre o mesmo tema, mas reservado para mulheres negras. Muitas outras rodas aconteceram, principalmente de 2017 até o início da pandemia, em 2020.
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Apesar das especificidades, havia algo comum a todas: um esforço coletivo para entender o que tornava uma relação abusiva — e, ao contrário, o que definiria uma relação saudável. Essas perguntas acionavam diferentes respostas: algumas se voltavam para autoajuda; outras buscavam feministas negras como bell hooks; e havia quem mergulhava em psicanálise, ou tentava nomear qual intimidade política queria construir.
Nesse percurso, ouvi muitas histórias. E, mesmo ficcionalizadas para proteger quem as contou, várias delas me lançavam de volta a contradições conhecidas. A narrativa sobre relações abusivas repetia, em parte, o que o feminismo mainstream já havia colocado em circulação décadas antes: homens num lugar quase essencial de agressores, mulheres de vítimas. Nas rodas, havia uma espécie de atualização, brancos como possíveis agressores, negros como possíveis vítimas. Diante desses quase essencialismos, o que muda quando falamos de uma relação entre dois corpos lidos socialmente como dissidentes?
Em muitas rodas, a hipótese era a mesma: quem sabe um amor entre iguais – afrocentrado ou entre mulheres, por exemplo – fosse um caminho para sofrer menos. Amar quem compartilha raça, gênero, classe e dor. Viver um afeto que seja também cuidado político e coletivo. Mas essa expectativa nem sempre se confirmava.
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Débora*, com a voz trêmula, contou em uma roda como demorou a perceber que vivia uma relação abusiva. O mais difícil, disse, foi entender onde terminava o trauma da ex-companheira — vítima de violência sexual na adolescência — e onde começava o abuso que se repetia: indiferença, mentiras, traições, acusações, silêncios que a adoeciam em enxaquecas, gripes incuráveis, cortes na própria pele.
Mesmo ferida, Débora perguntava: como negar cuidado a quem também foi vítima dessa sociedade?
Ainda que não tenha citado o pertencimento racial de sua companheira, Érika*, surgiam burburinhos: talvez o amor afrocentrado fosse um abrigo, um tipo de resposta. Bianca*, por sua vez, contou em uma dessas rodas como acreditou nisso quando decidiu se relacionar com Antônio*. Depois de relações com homens brancos, escolheu amar um homem negro como forma de amar também a si mesma. O primeiro post dos dois tinha uma legenda quase manifesto: “beije sua preta em praça pública.” Mas o gesto público não segurou o cuidado em casa.
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Após um período separados, quando voltaram, Antônio omitiu que havia se contaminado com uma IST. Para Bianca, a questão não era ele ter estado com outra pessoa – mas ter deixado seu corpo vulnerável sem dizer nada. Sentia-se invadida pela falta de cuidado e de ética do seu parceiro. Não é uma acusação a todos os homens negros, ela dizia. Mas é um lembrete:
O racismo pode nos empurrar para dentro da raça — mas aqui dentro mora o patriarcado. E é também nele que a intimidade se faz ou se rasga.
As palavras de Bianca me lembravam conversas com outros militantes e intelectuais negros. Dois deles, Matheus* e Ricardo*, questionavam como o feminismo – mesmo o feminismo negro – serviria de fato à causa negra. Para eles, o centro deveria ser o cuidado com a raça, a formação de famílias negras. E Ricardo, especialmente, falava sobre o desejo de exercer uma paternidade negra: sonhava em ser pai e voltar para casa sem ter medo de ser assassinado no caminho. Marcela*, intelectual negra, me perguntava: por que as mulheres negras recebem mais atenção que os homens negros? Não há espaço para nossos irmãos de raça?
As falas de Débora, Bianca, Matheus, Ricardo, Marcela – todas vinham de preocupações que me soavam legítimas. Mas havia perguntas que cortavam fundo: quem gera e cuida das crianças e famílias negras? Quem escuta o que um homem negro tem a dizer? O que, no feminismo negro, pode distanciar as mulheres negras da prioridade racial defendida por homens negros? Há espaço para só um ou outro ser ouvido? O que haveria de distinto na paternidade exercida por um homem negro?
Como um casal de mulheres divide o trabalho doméstico e de cuidados
Por vezes, essa defesa ignorava que, na prática, são as pretas que carregam a obrigação de gestar, cuidar e sustentar a ideia de família. Inclusive quando surgiam críticas ao fato de que, mesmo depois de uma história marcada por esterilizações forçadas, são mulheres negras que hoje defendem o direito de decidir se querem ou não ser mães.
Débora, mesmo machucada, continuava se sentindo responsável por cuidar de quem não cuidava de volta. Bianca buscava solidez em um amor negro, mas não a encontrava ao dividir esse ideal com parceiros homens. Marcela, que se perguntava sobre a voz dos homens negros, mais tarde contaria sobre exclusões em espaços de trabalho feitas justamente por homens negros e por brancos em geral.
No fundo, o peso segue voltando para os mesmos ombros: os das mulheres negras.
Em livro, Bruna Pereira analisa violências (sexuais e afetivas) invisíveis contra mulheres negras
Nas discussões sobre o que é uma relação saudável ou abusiva, repete-se uma história antiga:
Somos nós, pretas, que tensionamos certezas fáceis, desmontamos essencialismos e costuramos camadas mais complexas para o que o mundo precisa entender.
Muitas vezes, fazemos isso a partir do feminismo negro.
Uma mulher me disse, numa roda: não basta se relacionar com uma pessoa negra mirando só o presente e o futuro — é preciso olhar para o passado e reconhecer a vergonha que colocou uns no topo e outros na base.
Depois desses anos ouvindo histórias e tentando contá-las sem repetir violências, continuo acreditando: não é o ressentimento que faz nascer um amor mais justo – é a coragem de mirar para dentro e para trás para, quem sabe, inventar outro caminho. Se os feminismos nos ensinaram que o pessoal é político, talvez seja hora de lembrar que a intimidade também é — e que, para nós, política também se faz na intimidade.
Essa equação precisa mudar de lado: que em 2025, amar uma preta seja mais que manifesto, seja compromisso vivo, sobretudo, quando ninguém estiver olhando.
*Nomes fictícios usados para preservar a intimidade dos entrevistados.