Fabiana Pinto
Compreender a democracia brasileira exige olhar além das votações em plenário e dos discursos oficiais. Nos gabinetes do Congresso, assessores parlamentares são responsáveis por elaborar projetos, dialogar com a sociedade civil e organizar as prioridades dos mandatos. Apesar desse papel central, a presença de pessoas negras em posições de assessoria parlamentar segue rara e pouco registrada. Foi para iluminar esse bastidor que a pesquisa Trajetória de Assessores Negros no Congresso Nacional se dedicou a mapear experiências, barreiras e estratégias que marcam essas trajetórias.
A pesquisa desloca o foco dos parlamentares para suas equipes. É nas assessorias que se produzem diagnósticos, se desenham estratégias e se formula grande parte do trabalho legislativo. São espaços decisivos, mas invisibilizados, cuja composição revela como as desigualdades também se reproduzem no interior do Congresso.
Um dos achados mais contundentes da pesquisa é que a simples presença de pessoas negras nesses cargos não garante influência política ou poder de agenda. A nomeação não garante legitimidade. Como disse uma entrevistada: “Mulher preta no Congresso é horrível, principalmente por ser jovem também. Acho que a gente acaba sendo um pouco descredibilizada em alguns momentos.”
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Esse depoimento revela o quanto a credibilidade segue associada a padrões de gênero, raça e idade. Corpos brancos, masculinos e mais velhos ainda são vistos como naturais no exercício da autoridade. Já a presença de mulheres negras, sobretudo jovens, é frequentemente questionada ou invisibilizada dentro do Congresso.
Apesar disso, encontramos experiências de influência substantiva. Em áreas como a comunicação parlamentar, profissionais relataram que sua atuação impacta diretamente a forma como os mandatos se apresentam: “Meu papel é conseguir colocar a imagem de pessoas pretas ali para as pessoas se identificarem.” Pequenas disputas simbólicas, mas capazes de reconfigurar a linguagem política e a própria forma de representação.
Barreiras persistentes de gênero
As barreiras à permanência são muitas, algumas explícitas e outras sutis. Entre elas estão o silenciamento em reuniões, o esvaziamento de funções, as desigualdades salariais e a sobrecarga do cuidado. Os dados escancaram essa assimetria.
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Entre as mulheres negras entrevistadas, 41,4% estão na classe D (renda de 2 a 4 salários mínimos) e 44,8% na classe C (4 a 10 salários). Nenhuma mulher negra figura na classe A, de rendimentos mais altos. Já os homens negros aparecem em todas as faixas de renda, inclusive nas superiores.
A questão do cuidado também é reveladora. Enquanto 28 mulheres relataram responsabilidades familiares, apenas 15 homens disseram o mesmo. Entre eles, é maior o número dos que declararam não possuir qualquer rede de cuidado sob sua responsabilidade. Isso significa que a sobrecarga cotidiana, invisível e não remunerada, segue pesando desproporcionalmente sobre mulheres negras, limitando suas possibilidades de ascensão profissional.
Talvez o aspecto mais profundo da pesquisa seja o acesso simbólico. Para muitas pessoas negras, a carreira de assessoria sequer aparece como possibilidade. Um entrevistado, ao falar de uma assessora parlamentar negra que atua com uma parlamentar de partido progressista, relatou: “Ela é uma mulher negra que viveu a insegurança da deputada branca dela. A deputada branca se sentiu ameaçada com a competência e invisibilizou ela dentro do trabalho.”
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O episódio mostra como o racismo opera inclusive em espaços progressistas, transformando a presença da mulher negra em ameaça à ordem tácita de poder.
Entrar no Congresso, portanto, é também romper um ciclo de não pertencimento e silenciamento histórico. Mais do que mapear desigualdades, a pesquisa busca deslocar o olhar para quem sustenta o cotidiano da política e, muitas vezes, não é reconhecido como parte legítima desse processo.
Caminhos para a permanência no Congresso
No lançamento da pesquisa, realizado no início de setembro na Câmara dos Deputados, compartilhei que o Movimento Mulheres Negras Decidem foi fundado com o objetivo de contribuir para a ampliação da participação de mulheres negras na política institucional, por meio da formação, da produção de dados e do reposicionamento de pautas na agenda pública. Para nós, transformar a política significa também transformar o perfil de quem atua nos bastidores do Congresso.
Afirmei ali algo que esse estudo reforça: reconhecer trajetórias, valorizar contribuições e apontar caminhos para ascensão e permanência é fundamental para que pessoas negras, especialmente mulheres negras, se vejam e sejam reconhecidas nesses espaços.
Porque não se trata apenas de quantas pessoas negras estão lá, mas de quantas conseguem se reconhecer como legítimas e permanecer sem serem silenciadas.
Mulheres negras frente à crise climática
Estiveram presentes na mesa de debate do lançamento da pesquisa a deputada federal Gisela Simona; Andreia Lopes, que co-coordenou o estudo comigo; as pesquisadoras Synthia Maia e Milena Souza; o diretor da Legisla Brasil, Fernando Moura; a professora Andrea Lopes, pesquisadora de políticas de ação afirmativa da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO); Leonardo Queiroz, assessor parlamentar do Senado Federal; e Ingrid Sampaio, coordenadora de Advocacy do Instituto de Referência Negra Peregum.
Na ocasião, cada participante trouxe contribuições sobre o estudo e pudemos debater, com uma sala lotada de assessores parlamentares, chefes de gabinete e pesquisadores, os caminhos para construir bastidores mais plurais no Congresso.
A pesquisa é um convite à colaboração de diversos atores. Ao lançá-la, esperamos que os achados, e em especial as recomendações contidas no estudo, inspirem partidos, mandatos, sociedade civil e as próprias Casas Legislativas a fortalecer políticas internas que pavimentem um caminho para que a política institucional brasileira deixe de ser privilégio de poucos e se torne, de fato, plural e antirracista. Em um ano pré-eleitoral, esse diagnóstico ganha ainda mais peso.
A renovação democrática não depende apenas de novos eleitos, mas também da transformação de suas equipes, garantindo condições reais para que profissionais negros e negras possam exercer plenamente suas funções.
A política identitária no Brasil veste black tie
A pesquisa é um convite à colaboração e à responsabilidade compartilhada para a transformação dos bastidores da política. Entre as recomendações apresentadas para as Casas Legislativas, indicamos a necessidade de criação de ouvidorias autônomas e protetivas, a exemplo do modelo da Assembleia Legislativa do Estado de Pernambuco. Ressaltamos também a importância de transformar iniciativas pontuais em políticas permanentes, mapear e institucionalizar boas práticas de diversidade e implementar cotas progressivas em cargos estratégicos nos gabinetes, acompanhadas de programas de formação e mentoria.
Aos partidos políticos, recomendamos a instituição de conselhos de diversidade com poder real de decisão, a adoção de cotas mínimas de raça e gênero em suas direções partidárias, a estruturação de programas de recrutamento diverso de militantes e pessoas para cargos estratégicos no partido e a publicação de relatórios anuais de diversidade com metas de responsabilização.
Já para os mandatos parlamentares, indicamos o dever de realizar mapeamentos periódicos de suas equipes, criar processos transparentes de progressão e remuneração, estruturar espaços de escuta qualificada e incorporar a perspectiva racial na formulação legislativa.
Nem todo close é voto – mas todo orgulho é político
Nessa equação, a sociedade civil também tem papel central: construir bancos de experiências de equidade, oferecer assessoria técnica e jurídica a partidos e mandatos, apoiar o fortalecimento de redes de profissionais negros e internacionalizar o debate em diálogo com experiências de outros países.
Todas essas recomendações apontam para o mesmo sentido: romper com a lógica histórica de exclusão e afirmar que diversidade e antirracismo não são concessões, mas fundamentos da democracia.
Para acessar a pesquisa, faça o download no site da Legisla Brasil. Para assistir ao debate de lançamento da nossa pesquisa no Congresso Nacional na íntegra, acesse a transmissão completa no site da Câmara dos Deputados.