O desabafo da ambientalista com síndrome de impostora

Imagem: Montagem com foto da autora (arquivo pessoal) e imagem de satélite da Área de Proteção Ambiental Capivari-Monos, em São Paulo, localizada no distrito em que a autora cresceu (Google Maps)

Mariana Belmont

Essa semana, me lembrei do meu controle de raiva algumas vezes. Então esse texto, a coluna de junho, vai ser uma boa mistura (peço desculpas a minha editora Bruna!) de autoanálise e trabalho. Essa coisa de ser mulher e trabalhar com articulação política é das mais horríveis e deliciosas que já aprendi, mas não tenho saudade de ser jornalista precarizada em repartição pública, que me desculpem minhas colegas. 

Estou em Bonn, na Alemanha, às margens do rio Reno. Coisa boa, silenciosa, sabe? Agora são 21h de sábado, 21 de junho, e vejo do quarto do hotel um sol bizarro, e meu corpo completamente fora de órbita nesse caos de fuso horário.

Estou aqui há seis dias. Cheguei para participar pela segunda vez da Conferência de Bonn, que chamamos das prévias da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, não só da COP30, de todas as COPs. Então, a galera chega aqui seis meses antes para desenhar documentos de forma mais qualificada, conversar mais, encontrar outros países. São menos pessoas, menos greenwashing aparente e mais conversas e espera para ver se textos avançam ou não.

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Estamos aqui para pressionar e articular pela inclusão da população negra em textos de negociação, porque pasmem: não existe texto de negociação da agenda de clima que cite a população afrodescendente.

Chocados? Pois é. E ainda assim a pauta não é consenso entre os defensores de direitos humanos, então é bastante trabalho, muita raiva, muito café caro e ruim, além da comida ruim da ONU (desculpa aos cozinheiros, mas não dá!).

Eu sou absolutamente apaixonada pelo que eu faço, cara. E tenho pensado ainda mais sobre isso, diariamente, nos últimos meses. Todo dia, me sinto uma fraude. Às vezes, fico esperando a aprovação de terceiro e preciso me concentrar em voltar para o meu eixo e pegar no freio da autopunição. Veja, não sei se outra colega de profissão já escreveu algo assim, um colega homem com certeza nunca (vou arriscar por hoje a escrever na coluna a palavra nunca, só por hoje!),  mas eu quis escrever. Aquela imensa vulnerabilidade.

Trabalho com a agenda ambiental desde que nasci, essa é a verdade. Nascida e criada na zona sul de São Paulo (repetindo isso aqui), dentro de duas áreas de proteção que ajudei a preservar e trabalhei. Militante desde o dia um, depois emendei faculdade de jornalismo, militância e trabalho em unidades de conservação. Pensa que coisa maravilhosa, cresci assim, gente. Mergulhando profundo nas cachoeiras e andando pelas trilhas imensas do que resta da Mata Atlântica.

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Mas é muito perverso ver de perto a agenda sobre mudanças climáticas. Como o liberalismo e o neoliberalismo tomam conta da agenda, da política e dos espaços. E como o trabalho que deveria ser mais óbvio (de garantir direitos humanos em legislações e acordos) é cada vez mais restrito. Mesmo por uma classe política que se proclama progressista. Mas o que, afinal, significa essa palavra em 2025?

Os espaços de negociação da ONU dão ansiedade, vontade de chorar, a língua te humilha, as pessoas sem querer te humilham.

Os espaços de participação social vão sendo privatizados, limitados a quem tem patente alta ou conhece alguém. Ou defende o petróleo e a mineração em terra indígena.

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O agronegócio está por todos os lugares, em cargos altos. É triste, essa é a real.

Talvez o texto seja um lamento mesmo. Afinal, a Conferência de Bonn demorou dois dias para ter uma agenda de negociação, poucos textos saíram, e eu me sinto absurdamente cansada, desmobilizada e sem vontade de sorrir. 

Quando esse texto sair, talvez já estejam acabando as negociações e eu esteja minimamente feliz com poucos resultados positivos nas agendas de gênero, adaptação às mudanças climáticas, transição justa e financiamento (ninguém fica feliz com essa há 30 anos).

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Mas, por hoje, acho importante a gente segurar os dois pés no chão e não esquecer de onde a gente veio, porque estamos aqui, porque estudamos tanto, trabalhamos tantas horas por dia e seguramos com as duas mãos a educação emocional, porque não tem chance.

Tenho poucos lugares para onde voltar, mas eu tenho certeza absoluta de que o lugar que me criou e me fez ambientalista me dá a chance de mudar, mesmo sem conseguir tirar uma foto de blogueira até agora, porque me acho péssima.

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Mariana Belmont

Mariana Belmont é jornalista, nascida em Parelheiros (extremo sul da cidade de São Paulo), trabalha com articulação e comunicação para políticas públicas. Atuou em cargos no governo sobre questões ambientais e de habitação na Prefeitura da cidade de São Paulo. Trabalhou como coordenadora de comunicação e articulação do Mosaico Bocaina de Áreas Protegidas pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Foi Superintendente de Programas e Diretora de Clima e Cidade no Instituto de Referência Negra Peregum. Foi colunista do UOL e agora escreve mensalmente para a Gênero e Número. Também é ativista, parte de movimentos ambientalistas e periféricos. Recentemente foi editora convidada da Revista "Diálogos Socioambientais: Racismo Ambiental" da Universidade Federal do ABCD. É organizadora do livro “Racismo Ambiental e Emergências Climáticas no Brasil” (Oralituras, 2023). Atualmente é Assessora sobre Clima e Racismo Ambiental de Geledés - Instituto da Mulher Negra.

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