Mariana Belmont
Eu conheço o Emicida há muito tempo, assim como vários brasileiros. Vou sempre me emocionar falando sobre ele. Resgatei na memória e percebi que já escrevi várias coisas sobre o seu trabalho. Faço isso para registrar a emoção que me toma diante da sua formulação poética e artística, mas sobretudo do ser humano imenso que é Leandro Roque. Estou ouvindo Emicida Racional VL 2 – Mesmas Cores & Mesmos Valores, no repeat. Um manuscrito que, em camadas bonitas e muito inteligentes, nos apresenta história, generosidade, luto, dor, tristeza e retorno.
Ouvi o disco encolhida na cama ao acordar, às 6h do dia 11 de dezembro. Eu estava ansiosa, porque ele é um dos meus caras preferidos na arte neste mundo. As faixas foram passando, e eu presa ainda na primeira. Ouvi o disco duas vezes. Um arranque de sentimentos, coração apertado, choro alto. Uma esperança de novos tempos, recomeços, mas trazendo pela mão a história ao pé do ouvido.
Na rua, sentada em um café, ouvi a primeira faixa mais algumas vezes, tentando imaginar as imagens enquanto ouvia Dona Jacira conversar com Emicida, seu filho, daquele jeito dela que só quem ouviu e viu sabe, o transbordo de amor, graça e cuidado, de quem gosta muito da vida. O fim, naquele choro dolorido, de quem tinha um ser humano poderoso na jornada, uma mãe escritora, pensadora e jardineira.
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A aparição da mãe, que morreu em julho deste ano, não é só lembrança: é chão, é bússola, é ancestralidade pulsando. A dor do fim e o poder da memória se tornam uma espécie de oração cotidiana. A obra pode ser vista como um espaço onde eles continuam conversando.
Não sei, não sei mesmo o que outras pessoas sentiram. Na mesma hora, ao acordar, mandei para o Tony, meu amigo da vida, que divide comigo esse arrebatamento de admiração por Leandro. Depois, chegou uma mensagem do Tony me pedindo para contar o que eu achei. Ainda não consigo dizer completamente. Eu sei que, no café mesmo, escrevi isso aqui no bloco de notas.
A homenagem aos Racionais foi compasso, foi ponto de partida talvez, mas o centro é outro: é sobre um Emicida inteirinho de coração. Eu consegui ouvir a alma do Emicida daqui, alto, generoso e tímido. Um cara encarando sua tristeza com a sua arte, encarando as dores de tantos rolês que mexeram com a vida, com a parceria, consigo mesmo. Não consigo imaginar, mesmo perdendo e me perdendo tanto; as dores são complexas e nos movimentam de formas tão diferentes, mesmo com os olhos e o coração molhados.
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Falei em um áudio confuso para o Tony: “Amigo, não acho que essa obra seja sobre música, sabe? É uma obra de arte de muitos modelos e jeitos, uma coisa grande demais, para além do que a música consegue nos apresentar, mesmo que ela seja grande”. Obrigada pela composição, obrigada por isso tudo, Amaro Freitas, juro.
Esse som dos pés que tocam o chão e caminham, talvez terra, talvez grama. Aquele bonito caminho, a trilha por dentro da nossa Mata Atlântica, ali onde encontramos nossa depressão, nossa tristeza profunda, a solidão, as risadas da memória, os textos que escrevemos e formulamos. Cada som é uma folha virada, cada pausa é um respirar.
O som dos passos, a textura orgânica, os silêncios, as conversas, tudo isso cria uma experiência sensorial que aproxima o ouvinte do próprio chão.
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“Queres uma bandeja de manjuba?”
Aquela conversa com a mãe, as dúvidas dela, as falas de uma mãe pensadora do nosso tempo, que nos ajudou. Que, sentada com Maria Vilani, outra mestra, nos apresentava sua escrita e as palavras que formulava como abraço. Essa era Dona Jacira, a imensidão da generosidade. O encontro de fé e alma nesse mundo complexo e que fica disperso demais para quem deveríamos nos guiar.
Me emocionei lembrando da Negona, do Sarau da Cooperifa. Que tinha o cuidado nas mãos, que usava as palavras as broncas na frente do Zé Batidão para nos apresentar uma vida de afeto e família. Tanta gente que faz a tristeza passar entre nossa pele, nosso coração, nossa cabeça. Cheia de mulheres história.
Ei, Emicida, obrigada.
Ei, Dona Jacira, obrigada.
Esse disco é um processo bonito de contorno dentro dele e dentro de nós. Uma provocação sobre essa tristeza e essa profundidade que a gente tenta fechar os olhos e seguir vivendo sem sentir, pelo meio do mato que está doendo à beça, que dói demais a gente perder quem nos fez história.
Memória e generosidade.
Escrevi textos difíceis esse ano, desafiei o tempo e a projeção de tempos melhores para os direitos humanos e o meio ambiente, avanços – e não avançamos. E olhar esse quintal da Dona Jacira daqui, ouvindo seus ensinamentos de como cuidar das ervas daninhas e como fortalecer a terra nos inspira e nos provoca. Em frente, buscando o tempo da colheita das nossas dores e nossas lutas.
O ano está acabando, e escrevo o último texto de 2025 com esse atravessamento de amor, memória, cuidado e emoções. Que bonito, justamente no tempo que se espera atenção e mudanças. Eu agradeço tanto.