A democracia, mesmo ferida, ainda é o único caminho capaz de enfrentar a desigualdade

Design de capa: Carlos Carneiro | Montagem com fotos de Paulo Pinto/Agência Brasil

Resgatei minha memória do gosto pela política, dos comícios, dos shows nos bairros pobres para capitanear votos, camiseta, chapéu. Mas tudo muito pouco. Depois, o metalúrgico eleito, eu sentada na ponta da cama com meus primos e toda família, meus padrinhos comemorando, chorando. Talvez nossa realidade ali, no extremo sul da cidade de São Paulo, uma periferia rural tão distante do centro, me tenha feito acreditar também que a política seria meio, caminho ou possibilidade. Talvez eu ainda acredite nisso. 

A palavra “contradição” tem me atravessado de forma forte nos últimos tempos. Venho de um território forjado na luta coletiva por meio da importância ambiental para todas as culturas no espaço-tempo. Nasci em Parelheiros – na verdade, nasci no bairro de Colônia, que apesar do nome péssimo, é formado majoritariamente de famílias negras e periféricas no extremo sul da cidade de São Paulo. Esse movimento das lutas dos últimos anos nos colocou em contradições, entre o pragmatismo da conjuntura e o futuro com coerência e utopias, na política institucional e na política dos movimentos sociais, na defesa incondicional da democracia inconclusa, mas sem arredar o pé do que acreditamos, da nossa centralidade enquanto indivíduos e movimentos na luta por direitos. No nosso caso, pela luta dos direitos plenos e inegociáveis da vida da população negra, das mulheres e toda população vulnerabilizada por políticas públicas que, muitas vezes, não foram feitas para garantir direitos humanos.

Essa semana terminei de ler Imaginações pós-capitalistas, que parte de um diagnóstico simples, mas incômodo: 

Hoje, é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo.

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Os organizadores, Fabio Luis Barbosa dos Santos, José Paulo Guedes Pinto e Thais Pavez, mostram que essa dificuldade não é natural, mas cultural: moldada pela indústria cultural, que só consegue conceber um pós-capitalismo por meio de catástrofes (guerras, pandemias, colapsos climáticos) e, mesmo assim, projeta nesse futuro os mesmos vícios de uma sociedade competitiva e egoísta, como se a natureza humana fosse imutável. O livro parte de oficinas com jovens estudantes da Unifesp e da UFABC, e os autores desenvolveram uma metodologia que cruza pensamento crítico e exercício imaginativo, perguntando não apenas “o que é possível mudar?”, mas “o que parece impossível, e por quê?”. 

O texto sustenta que a escassez, o trabalho compulsório e a própria necessidade do dinheiro são construções sociais — não leis naturais —, e que a experiência do cuidado e do afeto já mostra, no cotidiano, uma lógica de reciprocidade não mercantil que poderia se expandir para a economia como um todo. 

Mais do que propor um modelo pronto, o livro defende a imaginação coletiva como prática política em si: 

Pensar junto produz ideias que ninguém alcançaria sozinho, e o próprio ato de imaginar outro mundo já é um primeiro passo para desnaturalizar o capitalismo e ampliar os horizontes do que a política pode ser.

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Ufa! Tenho ficado feliz de ouvir conversas sobre futuro e sonhos, afinal, a conjuntura atual nos distancia dessa perspectiva. Precisamos fazer votos pragmáticos em outubro, precisamos temer o presente, não temos tempo para pensar muito adiante. E os sonhos vão se perdendo, os exercícios de novos imaginários vão deixando de ser importantes.

Já estive em campanhas, coordenando, apoiando, com tarefas grandes e menores. Esse ano, observo mais reservada muitos homens com suas análises de conjuntura e muitas certezas sobre uma democracia tão frágil e inconclusa.

Tenho revisitado sempre que possível uma fala de Sueli Carneiro, durante a mesa de abertura do 17º Colóquio Internacional de Direitos Humanos realizado pela Conectas em São Paulo, em novembro de 2024, e acho que ela nos ajuda em tempos tão duros, em que precisamos nos movimentar pelo futuro. 

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“[…] diante deste momento tão dramático, é preciso começar de novo, resgatando sonhos e utopias. Lembrar como lutamos em outros tempos sombrios. Lembrar que já vencemos outros tempos sombrios para repor a fé e a esperança em nossas lutas. Temos que voltar à disputa de corações e mentes. Temos que reeducar. Temos que reeducar para e pelos direitos humanos. Temos que repor os valores civilizatórios que se agregam em torno dos direitos humanos. Temos quatro gerações de direitos humanos com as quais confrontar tudo o que está aí. Temos um conjunto substantivo de noções, princípios e valores que orientam as lutas progressistas. Liberdade, igualdade, diversidade, solidariedade e participação são noções com as quais qualificamos a democracia substantiva capaz de concretizar sonhos emancipatórios. É preciso lutar pela laicidade do Estado, pelas liberdades democráticas, pelo devido processo legal, pelo Estado democrático de Direito, e isso significa lutar pelos direitos humanos de todas, todos e todes. Já derrotamos antes as ideologias discricionárias, reacionárias e fascistas.”

É preciso lutar. 

Poderia, hoje, listar uma porção de iniciativas para que tenhamos mais candidaturas negras, especialmente de mulheres negras e indígenas. Vou fazer isso nos próximos textos, mas abro a conversa aqui sobre eleições nos trazendo para resgatar sonhos, para construirmos vínculos sociais, trabalhar incansavelmente para construir maiorias políticas, disputar ideias, enfrentar desigualdades materiais e recolocar o clima e a tecnologia no centro das discussões políticas. 

O autoritarismo que está batendo à porta nos promete ordem sem justiça e poder sem amanhã – pode ser daqui a pouco. A democracia, mesmo ferida, ainda é o único caminho capaz de enfrentar a desigualdade, o racismo, o machismo, as violências e os desastres climáticos sem abrir mão da própria ideia de humanidade.

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Mariana Belmont

Mariana Belmont é jornalista, nascida em Parelheiros (extremo sul da cidade de São Paulo), trabalha com articulação e comunicação para políticas públicas. Atuou em cargos no governo sobre questões ambientais e de habitação na Prefeitura da cidade de São Paulo. Trabalhou como coordenadora de comunicação e articulação do Mosaico Bocaina de Áreas Protegidas pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Foi Superintendente de Programas e Diretora de Clima e Cidade no Instituto de Referência Negra Peregum. Foi colunista do UOL e agora escreve mensalmente para a Gênero e Número. Também é ativista, parte de movimentos ambientalistas e periféricos. Recentemente foi editora convidada da Revista "Diálogos Socioambientais: Racismo Ambiental" da Universidade Federal do ABCD. É organizadora do livro “Racismo Ambiental e Emergências Climáticas no Brasil” (Oralituras, 2023). Atualmente é Assessora sobre Clima e Racismo Ambiental de Geledés - Instituto da Mulher Negra.

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