close

Em livro, Alessandra Devulsky revela como o colorismo atua como um braço do racismo para hierarquizar e segregar pessoas negras

"Não existe uma resposta simples e direta ou um identificador de raça" | Foto: Divulgação

Para a advogada e professora, a luta antirracista passa por destruir as hierarquizações do colorismo dentro da própria comunidade negra e o critério de superioridade branca para poder falar de fato de igualdade racial

Por Vitória Régia da Silva*

O debate sobre colorismo tem crescido nos últimos anos, seja pelo questionamento de quem pode se dizer negro durante o programa do Big Brother Brasil 21 ou no caso da atriz Fabiana Cozza, que foi convidada a interpretar a lendária Dona Ivone Lara, mas teve que recusar devido à forte pressão de movimentos negros. Essa pauta tem trazido à tona as nuances do racismo e as diferenças entre negros de pele clara e retintos. Afinal, o que ou quem define quem é negro?

O novo livro “Colorismo” (Editora Jandaíra), escrito pela advogada e professora Alessandra Devulsky, lançado no fim de março, busca responder a essa pergunta. De acordo com a obra, o colorismo é um dos braços do racismo. É um sistema sofisticado de hierarquias sociais, oriundo da implantação do projeto colonial português baseado na ideia de superioridade branca, que tem como objetivo opor pessoas da mesma comunidade, umas contra as outras por conta de suas diferenças. 

[+] Leia também: Bruna Pereira analisa violências (sexuais e afetivas) invisíveis contra mulheres negras

Natural de Mato Grosso, a escritora vive em Montreal, no Canadá. É professora na Universidade do Quebec, no programa de direito e sociedade da Faculdade de Direito, é diretora jurídica do Instituto Luiz Gama e diretora-geral da Corporation développement communautaire de Côtes-des-Neiges, em Montréal. A obra foi a nona publicação da Coleção Femininos Plurais, coordenada por Djamila Ribeiro, que busca levar ao grande público questões importantes relacionadas ao feminismo de forma didática e acessível. 

Em entrevista à Gênero e Número, Devulsky trata do impacto do colorismo na população brasileira,  como afeta de forma diferente homens e mulheres e qual o papel de pessoas negras de pele clara no país: “Em um país altamente miscigenado, o colorismo organiza quase metade da população distribuindo a sociedade com um gradiente de cores e com essa mentalidade de superioridade branca”, destaca.

Confira a entrevista: 

No livro, você define o colorismo como um sistema de hierarquização social oriundo do projeto colonial. De onde vem o termo colorismo e como ele se adequa ao contexto brasileiro?

Cada projeto colonial é um projeto que atende às certas necessidades econômicas e geopolíticas. Nos Estados Unidos, temos a regra da “uma gota”, que significa que se a pessoa tiver um ancestral identificado como negro, ela será necessariamente negra. E isso se dá por conta de um processo colonial e de abolição da escravidão que criou a segregação racial. Para essa sociedade, essa regra era muito importante para seu projeto colonial, o que não acontece no Brasil. Uma das diferenças do sul e do norte é que se criaram outros mecanismos para proteger os espaços de poder político e econômico para brancos. 

Quando falamos de relações inter-raciais, envolvendo mulheres negras, falamos necessariamente de mulheres em situação de vulnerabilidade, seja durante a escravidão ou logo após a abolição. A mestiçagem é fruto de um projeto de violência, quando não de violência absoluta durante a escravidão, mas de violência cultural

No Brasil, temos um processo de colonização que se dá de uma forma diferente, que acontece por ondas. O projeto de colonização visava muito mais estabelecer e ocupar os espaços do Brasil do que proteger com normas e leis qual o espaço determinado para brancos e negros. A misigenação nasce a partir da subjulgação completa da mulher, ela não começa com o homem negro, mas com a mulher negra, porque o homem negro não tinha acesso à mulher branca, mas o homem branco  tinha todo acesso à mulher negra. O corpo da mulher negra era visto como uma propriedade do senhor de escravos. O processo de miscigenação é muito mais alargado, por conta dessa situação, do que nos Estados Unidos, por exemplo. Lá tinham leis que proibiam o casamento inter-racial até a década de 50. 

Essa hierarquia racial, no Brasil, acontecia por meio do ensejo da cultura. Os relacionamentos inter-raciais eram permitidos, mas as condições dessas relações é que precisam ser questionadas. Quando falamos de relações inter-raciais, envolvendo mulheres negras, falamos necessariamente de mulheres em situação de vulnerabilidade, seja durante a escravidão ou logo após a abolição, as relações não eram igualitárias. A mestiçagem é fruto de um projeto de violência, quando não de violência absoluta durante a escravidão, mas de violência cultural. Falar sobre isso no Brasil é muito difícil, sobretudo para quem tem alguma origem de mestiçagem. É falar sobre sua própria história, compreender e aceitar que a nossa história  está relacionada com esse processo de violência. O Brasil está sentado em cima de uma grande ferida que não conseguimos curar, porque se quer admitirmos que ela existe. Por isso, ainda é muito difícil falar sobre colorismo. 

[+] Leia também: 2020: o ano da pandemia e seu impacto nas mulheres, pessoas negras e LGBT+

Nos últimos anos, tem se questionado com ainda mais força a definição de pardo, que junto às pessoas pretas forma o grupo de pessoas negras no Brasil. Qual o papel do pardo na sociedade brasileira? Como esse diálogo do colorismo pode ser feito junto às populações indígenas? 

Esse é um grande ponto cego na discussão do colorismo. O fato é que a gente invisibiliza a população indígena na composição racial brasileira, o que está muito relacionado ao preconceito anti-indigena que nós temos. Existe um elemento que precisa ser considerado, o genocídio indígena foi tão eficaz que as comunidades indígenas estão majoritariamente em aldeias e reservas, o que faz com que nossa comunicação com a população indigena seja muito bloqueada nesse sentido.

O brasileiro que é negro de pele clara na maior parte dos casos tem ancestralidade indígena também, mas aí entra a questão de como fazer sua identificação racial. Ele acaba inviabilizando sua ascendência indígena. A sofisticação do processo de mestiçagem e do colorismo é que a identificação racial se faz não exclusivamente pela composição da melanina e do fenótipo, mas se dá também pelos elementos culturais A identidade racial é uma identidade política e cultural. O  nosso distanciamento da cultura indígena implica que as pessoas miscigenadas com ascendência indígena acabam não se identificando como indígenas e sim como negros de pele clara.  Existe inclusive um questionamento ético, de que como se identificar e evocar uma ascendência a que não teve acesso.

Em relação ao negro, existe essa identificação e pertencimento. A minha dificuldade com o termo pardo é essa desconexão com a realidade e com o que a sociedade implica nos termos de identificação. Não existe injúria racial relacionado a pardo no Brasil, sempre é usado adjetivos pejorativos relacionados à identidade negra, indígena e asiática, por exemplo. 

[+] Leia também: “O negro é um cidadão invisível. Quando ele aparece, a violência aparece também”

Quem ou o que define quem é negro? 

É muito complicado criar critérios fixos para algo que é complexo. Não existe uma resposta simples e direta ou um identificador de raça. É preciso entender a história de vida dessa pessoa. Se uma pessoa que sempre foi lida como branca e em um momento da vida fica mais sensibilizada com a sua ascendência negra, mas tem fenótipos brancos, e quer se identificar como negra, não vai passar. No Brasil, sabemos exatamente quem é negro e quem não é. Por isso, quando alguém frauda o sistema de cotas, não é só uma pessoa que faz essa avaliação, mas uma banca faz essa análise para evitar injustiças e diferenças regionais. É complexo. 

Meu irmão, por exemplo, é socialmente lido como branco. Ele jamais passou por nenhuma circunstância racionalizante da qual que passei. A grande questão é: se estamos diante de uma fraude, estamos diante de um crime, no direito administrativo temos uma banca de avaliação, que tem critérios  para decidir isso. No nosso seio familiar e no espaço público, a sociedade faz e muito bem a identificação se uma pessoa é negra ou não.  

Durante o exercício de escrita do livro, por exemplo, entrevistando mulheres negras, eu me lembro de uma entrevista com uma mulher filha de pai negro e mãe branca que dizia que sempre se declarou branca. Conforme a conversa foi seguindo, ela ia contando uma série de situações racistas que ela não percebia. Ela não deixava de se identificar socialmente como negra de pele clara, não porque ela nunca sofreu racismo, mas porque para ela era uma condição que não gostaria de se encaixar por conta do racismo e do que ela já viveu.  É um assunto extremamente delicado e não existe fórmula de Bhaskara [fórmula usada para resolver equações de segundo grau] para isso, o que nos dá indícios desse pertencimento é a vivência da pessoa. E no Brasil essa leitura é sempre feita pelo outro. 

Você frisa, no livro, como o colorismo atinge de forma diferente homens e mulheres. Como isso acontece?

Durante a pesquisa, dava para perceber essa diferença nas entrevistas. Foi a partir de um estudo antropológico na África, no século 18, que eu entendi que já existiam relatos da pigmentação da pele, a pigmentocracia, como uma ideia que distinguia homens e mulheres. Porque as mulheres com pele mais clara eram mais facilmente associadas às qualidades de doçura, candura, paciência, maternidade, tudo que está associado ao feminino. E a pele mais escura á vitalidade, força e virilidade. Existem relatos dessas descrições mesmo antes desse estudo; no século 14, na África do Norte, já havia poemas com essas associações. E essa ideia foi muito usada pelos processos de colonização, em que a pele mais escura era entendida como uma capacidade inata aos trabalhos manuais e à escravização. 

No Brasil, relacionamos a pele mais clara ao fato de que essa pessoa tem um grau de miscigenação que a leva a estar mais próxima às qualidades da branquitude, como a racionalidade, intelecto e beleza. Já o que é ligado ao manual, bárbaro e selvagem fica no pólo ligado à africanidade. Cria-se  uma escala, que é o que chamamos de  tempestade perfeita. Em um país altamente miscigenado, o colorismo organiza quase metade da população distribuindo a sociedade com um gradiente de cores e com essa mentalidade de superioridade branca. 

Falar de miscigenação é antecipar o fato de que o elemento indígena, negro ou asiático é o elemento adverso, é o ponto fora da curva, o elemento dissonante daquilo que é a regra da beleza, intelecto e competência. 

[+] Leia também: Mulheres negras são alvos de violência política em ano eleitoral e buscam soluções para ataques cada vez mais sofisticados

No livro, você fala que no Brasil o colorismo estipula o quanto é possível ser negro gozando de alguma segurança, mas no caso de negros de pele clara esse “passe” pode ser perdido com muita facilidade porque a linha sutil que divide os espaços de trânsito social podem ser facilmente rompidas. Quando falamos das pessoas negras de pele clara, que segurança e acessos são esses?

Existem dois eixos de análise. Esse acesso não está relacionado ao privilégio, porque ele é restrito a quem na sociedade é considerado branco. As facilidades de trânsito social são dadas por conta da proximidade ou distanciamento do que é entendido como africanidade ou europeidade. No caso da mulher, é uma facilidade que vacila, que não só pode ser  perdida, mas ser usada como arma contra ela. O fato de uma mulher ser considerada negra de pele clara vai dar a ela uma certa facilidade de desempenhar certas funções que estão relacionadas à capacidade intelectual, enquanto para mulheres de pele mais escura essa interdição é muito maior, por conta da associação da pele negra ao trabalho manual.  Quando essa mulher acessa esses espaços de intelectualidade, existe um outro lado da moeda, que é a hipersexualização. O fato de acessar certos espaços não retira de você certas etiquetas. Ainda que tenha acesso, a hispersexualização e a eterna etiqueta da “negra, contudo bonita”, “negra exótica”, “negra miscigenada”.

O termo miscigenação é um termo problemático, porque não falamos de miscigenação entre duas pessoas brancas. Uma pessoa branca da França que se casa com uma pessoa branca da Alemanha e tem um filho, ninguém vai dizer que o filho é miscigenado. Porque ser branco é a norma, é a regra. Falar de miscigenação é antecipar o fato de que o elemento indígena, negro ou asiático é o elemento adverso, é o ponto fora da curva, o elemento dissonante daquilo que é a regra da beleza, intelecto e competência. O próprio termo tem como pressuposto que eu tenho uma norma e uma dissonância, quando sabemos que em termos raciais não temos diferença nenhuma. 

Você trata como é perigoso tratar o racismo como uma questão de distribuição de renda e como devemos analisar sempre por uma perspectiva interseccional.  Como fazer essa análise do colorismo levando em conta questões de gênero, sexualidade, classe e regionalismos? 

Um exemplo desse impacto interseccional é pensar nas mortes de pessoas trans no Brasil. Quando cruzamos com o elemento racial, percebemos que pessoas transexuais negras é que vão vivenciar as condições mais precarizadas, inclusive do trabalho sexual. O elemento racial se sobrepõe à questão da transexualidade. Isso é muito importante de se perceber quando falamos do debate de gênero e sexualidade. 

Existe um outro elemento importante que é o de classe, porque precisamos entender como a sociedade  economicamente se organiza para racializar essas pessoas. Por isso, menciono a teoria econômica do David Harvey, um economista heterodoxo que dizia que uma das raízes do capitalismo é a desvalorização do trabalhador. E não há mecanismo de maior desvalorização do sujeito do que fazer sua interpelação de acordo com seu pertencimento racial. A justificativa racializante para dar piores condições de trabalho, menores salários e maior dificuldade de promoção na carreira. Dessa forma que vemos a junção dos elementos. 

Nada adianta criar espaços para negros se, nesses espaços, continuar o mesmo gradiente de cores de acordo com o arquétipo de superioridade branca. É preciso destruir o critério de superioridade branca para poder falar de fato de igualdade racial. 

[+] Leia também: Quatro mulheres negras à frente de pesquisas sobre a covid-19

Muitas pessoas temem o debate do colorismo imaginando que ele traga ainda mais segregação entre a população negra. No livro, você trata da importância desse debate para unificar a população.  Como a discussão do colorismo pode unificar a comunidade negra?

Não há possibilidade de luta antirracista eficaz se passarmos a usar o combate antirracista para promover uma inserção mais rápida de negros de pele clara e deixar para o fim da fila negros de pele escura. Primeiro que a fila não precisa existir. Segundo, existe lugar para todo mundo. E terceiro que, na luta antirracista, o mote é  destruir esss hierarquias raciais. A  nossa luta é uma luta de transformação da sociedade. Ninguém vai abdicar dos seus privilégios por bondade, existe uma luta por espaço e existem pessoas que ocupam espaços que deveriam estar abertos a pessoas negras e estão interditados a séculos. Essa abertura não vai se dar de forma amigável. É  importante destacar isso porque estamos falando de interesse econômico.

Dentro do aspecto da luta antirracista, o objetivo é demostrar cientificamente, historicamente e socialmente o falseamento dos arquetipos raciais, que está ligado à ideia de superioridade branca. Se não destruirmos a ideia de superioridade branca, não conseguiremos combater o racismo. Por isso, não consigo conceber uma luta antirracista que também não busque  destruir as hierarquizações do colorismo dentro da própria comunidade negra. Nada adianta criar espaços para negros se, nesses espaços, continuar o mesmo gradiente de cores de acordo com o arquétipo de superioridade branca. É preciso destruir o critério de superioridade branca para poder falar de fato de igualdade racial. 

*Vitória Régia da Silva é repórter da Gênero e Número

  

Assine nossa newsletter. É grátis!

Aguarde...
close-image