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Mulheres negras são alvos de violência política em ano eleitoral e buscam soluções para ataques cada vez mais sofisticados

Talíria (na foto) é novamente ameaçada e situação abre debate sobre vulnerabilidade de mulheres negras na política | Foto: Arquivo pessoal

Novas ameaças contra a deputada federal Talíria Petrone (PSOL/RJ) abrem caminho para discussão sobre formas mais “modernas” de ataques a mulheres negras na política; período de pandemia foi marcado por invasões para desestabilizar eventos onlines

Por Lola Ferreira*

Antes de ter sua trajetória política interrompida em 14 de março de 2018, a vereadora do Rio Marielle Franco tinha uma preocupação: a segurança de sua amiga Talíria Petrone, vereadora na vizinha Niterói, que recebia ameaças desde as eleições que lançaram o nome de ambas na arena política, em 2016. Hoje, Talíria é deputada federal pelo PSOL com o voto de 107.317 cidadãos fluminenses e ainda convive com intimidações. As mais recentes foram descobertas no último mês, durante sua licença-maternidade, e mobilizaram novamente a Polícia Legislativa, que passou a fazer proteção da deputada e sua família. Ameaças como as que atingem Talíria, o assassinato emblemático de Marielle e outros episódios que serão apresentados nesta reportagem não deixam dúvidas: a violência política no Brasil hoje tem gênero e cor.

No contexto de uma pandemia que restringe a circulação de pessoas, as atividades públicas de Talíria já estariam suspensas ou limitadas. Ainda assim, o Disque-Denúncia recebeu um plano que atenta contra a deputada, o que obrigou a necessidade de uma escolta e passos ainda mais calculados. A investigação ainda não terminou, mas a deputada já está protegida, enquanto buscam mais detalhes sobre quem e como pretende afetá-la.

Marielle e Talíria foram eleitas em 2016. De lá até sua execução, Marielle se preocupava com a segurança da amiga e colega de partido | Foto: Arquivo pessoal
Marielle e Talíria foram eleitas em 2016. De lá até sua execução, Marielle se preocupava com a segurança da amiga e colega de partido | Foto: Arquivo pessoal

Nos últimos anos, o contexto mudou: se as ameaças contra Talíria interceptadas pela Polícia Federal em 2019 foram feitas na “deep web” (“internet profunda”, em tradução livre), sem muitas informações, as descobertas em 2020 chamam atenção pela riqueza de detalhes. Se antes era incipiente, agora, o plano é mais robusto, inclusive com datas.

A escalada da violência resvala em outras figuras políticas, também mulheres e negras. Na mesma Niterói que lançou Talíria, Benny Briolly é pré-candidata pelo PSOL à Câmara Municipal. Antes de construir sua própria trajetória na política partidária, Benny já era um nome forte da militância feminista, negra e transgênero na cidade. Também trabalhou no mandato da deputada, atuando no Rio de Janeiro.

“As ameaças à Talíria têm um peso que se reflete muito em mim. Estou seguindo protocolos de segurança, mas é isso. Eu já passei por muita coisa”, conta a pré-candidata. E realmente foram inúmeros os episódios de violência: tentativa de agressão na rua, ataques coordenados no maior shopping da cidade e cusparada por desconhecidos identificados como apoiadores do presidente da República, Jair Bolsonaro.

Benny constrói sua campanha focando em ampliar acesso à cidade para mulheres, negros e LGBT+ | Foto: Arquivo pessoal
Benny constrói sua campanha focada em ampliar acesso à cidade para mulheres, negros e LGBT+ | Foto: Arquivo pessoal

Todos estes ataques, contextualiza Benny, acontecem em um cenário de avanço do ódio contra grupos como os que ela representa, na mesma proporção em que aumenta a disputa pelo projeto político dominante.

Quando uma mulher pobre, preta e da favela chega para romper processos históricos dolorosos, isso se coloca como uma ameaça real a quem domina a política. Quando você ameaça o sistema, o seu corpo vira um corpo a ser combatido.

— Benny Briolly, pré-candidata a vereadora em Niterói.

Variedade de ameaças

Renata Souza, deputada estadual no Rio e pré-candidata à prefeitura da capital fluminense pelo PSOL, partilha do mesmo pensamento de sua colega de partido: “Somos ameaças a um poder estabelecido, a uma lógica que utiliza como método o medo, o ódio. Tentar inviabilizar nosso crescimento político é uma tentativa de exclusão política das mulheres negras”.

A pré-candidata conta que desde a sua eleição, em 2018, convive com toda uma variedade de ameaças e intimidações na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), onde é uma das quatro mulheres pretas eleitas.

“Várias vezes eu fui interrompida dentro do parlamento, e muitas vezes a violência foi física: dos homens — principalmente os bolsonaristas, que são efetivamente os mais violentos nesse sentido — colocarem o corpo na minha direção quando eu estava falando no microfone. Isso está gravado e é uma clara tentativa de intimidação. A violência de gênero política é pública. Todo mundo vê, porque são práticas diárias”, conta Renata.

Renata Souza tem trajetória de embates contra bolsonaristas na Alerj | Foto: Arquivo pessoal
Renata Souza tem trajetória de embates contra bolsonaristas na Alerj | Foto: Arquivo pessoal

E a quantidade de intimidações só aumenta: ela já foi chamada de “bruxa”, como em embates infantis, e associada por colegas de Alerj a facções criminosas, por ser nascida em uma favela: “É algo que eu sinto frequentemente, uma tentativa de criminalização”.

A deputada já teve seu endereço divulgado em redes sociais e orienta sua mãe a não acompanhar suas postagens, para evitar ver a quantidade de xingamentos que recebe.

As redes sociais também são um antro de ódio contra Benny. Ela diz que recebe diariamente dezenas de xingamentos, atacando desde a sua identidade de gênero até sua cor e posicionamento político. A pré-candidata não tem esperança de que os ataques cessem com o avanço da campanha. Pelo contrário: “A tendência é aumentar. Meu projeto de campanha prevê uma reflexão sobre o acesso a uma cidade que nos pertença, e isso incomoda”.

Nova forma de intimidação e desestabilização

E com o deslocamento restrito, por conta da pandemia, a internet é o lugar onde tudo irá acontecer na campanha de 2020. Os tradicionais eventos de lançamento de pré-campanha, que em geral acontecem nas sedes dos partidos, deram lugar às salas de Zoom ou Google Meet. Mas estar dentro de casa não é garantia de segurança: essas lives estão sendo atacadas por grupos contrários às ideias progressistas, o que denuncia uma nova forma de intimidação e desestabilização emocional.

Tamires Sampaio teve live de anúncio da pré-candidatura interrompida por invasores | Foto: Arquivo pessoal
Tamires Sampaio teve live de anúncio da pré-candidatura interrompida por invasores | Foto: Arquivo pessoal

Tamires Sampaio, pré-candidata a vereadora em São Paulo pelo PT, passou por um episódio deste no último sábado (23). Junto com sua equipe, organizou por semanas um evento de lançamento, com convidados aliados às pautas que defende: pessoas jovens, negras e LGBT+.

No momento em que a fala ficou reservada a um homem trans, um grupo de ao menos cinco pessoas “roubou” o controle da sala e expôs imagens de filmes pornográficos, desenho animado e outras coisas aleatórias. O evento teve de ser interrompido e um novo link, dessa vez restrito, foi criado.

É muito louco como com o passar do tempo a gente consegue pensar em formas de proteção mas, ao mesmo tempo, eles reinventam as formas de tentar impedir nossa organização e posicionamento político.

— Tamires Sampaio, pré-candidata a vereadora em São Paulo pelo PT.

O mesmo aconteceu com Renata Souza no lançamento de sua pré-candidatura à prefeitura do Rio. Hackers invadiram a sala, interromperam as falas e atrapalharam quem acompanhava. “É o resultado de uma sociedade que não aprendeu a ver mulher construindo política, muito menos as negras e com uma trajetória de vida pobre”, opina.

Esses episódios configuram uma modernização da violência de gênero na política, como aponta Joana Varon, diretora executiva da Coding Rights. Pesquisadora do uso da tecnologia e direitos humanos, ela ressalta que mulheres são as principais vítimas de ataques online. “Não é à toa que a legislação contra violência online tem nome de mulher: Lei Lola, Lei Carolina Dieckmann.”

A forma de conduzir esses ataques coordenados surge a partir das práticas chans, os fóruns anônimos da deep web onde a misoginia é regra. Para Varon, a extrema-direita se apropriou desse “modo de fazer” e agora o utiliza nos ataques políticos, com intimidação.

Proteção online

Algumas dicas para não se tornar alvo desses ataques são: pré-configurar a sala para que somente uma pessoa consiga definir anfitriões, compartilhar tela e expulsar pessoas; desabilitar o microfone de todos e impedir a reabilitação, só abrindo no momento das falas previstas; criar sala de espera e divulgar o link em ambientes controlados.

Caso o ataque aconteça ainda assim, o recomendado é que alguém documente, com gravações e capturas de tela. Em posse desses registros, Varon recomenda o registro em uma delegacia de crimes virtuais.

“Não precisa recuar, mas entender onde pisa. Quando a gente está no offline, sabemos se estamos falando para um auditório ou uma salinha de reunião, e moldamos um pouco nosso discurso de acordo com a exposição. E isso vale pro online: saber onde você está e com quem faz toda a diferença”, diz. Para eventos de transmissão, há sites que só são acessados pelas pessoas fundamentais ao trabalho. Se for uma plenária aberta, utilizar aplicativos como o Zoom e observar as dicas acima.

No caso de Tamires Sampaio, ela tentou rastrear os IPs dos invasores, mas sem sucesso. Para a pré-candidata, estes ataques tentam – e conseguem – desestabilizar as mulheres negras. “Essa violência emocional é muito pesada. Tem uma parcela da sociedade que não suporta essas mudanças, e esses ataques fazem parte disso: agora como não podem atacar fisicamente, fazem de tudo para desestabilizar a gente”, avalia.

Não sou uma super-heroína, sou de carne e osso e não tenho peitos de aço. Tenho que tomar cuidados, e tomo.

— Renata Souza, deputada estadual no Rio e pré-candidata à prefeitura da capital fluminense

Marielle Franco foi lembrada por todas as entrevistadas desta reportagem. O episódio de sua execução foi o ápice da violência política de gênero e raça, mas não impediu que outras mulheres negras viessem depois dela. Pelo contrário. Discurso também comum a todas é a importância de se lembrar os motivos de construir uma trajetória política.

“A cada ameaça eu lembro porque estou neste lugar. Eu estou fazendo para que outras não tenham medo. Não sou uma super-heroína, sou de carne e osso e não tenho peitos de aço. Tenho que tomar cuidados, e tomo. Mas efetivamente eu preciso lembrar todo dia do sentido de estar aqui, e é importante porque nós, mulheres negras, fazemos diferença na política”, diz Renata Souza.

*Lola Ferreira é repórter da Gênero e Número.