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Cresce o número de trabalhadores negros no setor cultural, mas acesso à cultura ainda é restrito

Criadores do Perifacon durante o evento realizado em São Paulo, no ano passado |Foto: Divulgação

Entre 2014 e 2018, houve aumento de 8% na quantidade de trabalhadores pretos e pardos na cultura, enquanto o número de brancos diminuiu em 7%; desde 2017,  mulheres são a maioria no setor

Por Vitória Régia da Silva e Flávia Bozza Martins*

Ano passado, um grupo de sete jovens negros das periferias de São Paulo se uniram para criar a Perifacon, a primeira Comic Con do Brasil com foco em favelas. Também direcionado à diversidade, o evento aconteceu na Fábrica de Cultura do Capão Redondo, periferia da Zona Sul, e recebeu mais de 4 mil pessoas. O sucesso fez com que a iniciativa se formalizasse, ainda em 2019, como uma produtora cultural. 

“Trabalhar com cultura no nosso país é algo relacionado ao privilégio de classe e raça. Por isso, é muito difícil trabalhar no setor sendo uma pessoa negra e periférica. Temos que criar nossos espaços”, conta Andreza Delgado, uma das criadoras do Perifacon à Gênero e Número. “A produtora tem um trabalho importante de empregar e democratizar o acesso à cultura. Buscamos colocar em evidência nossa produção utilizando os equipamentos culturais da nossa região.”

No período de 2014 a 2018, o número de trabalhadores de cor ou raça preta ou parda aumentou em 183 mil, um crescimento de 8% na participação no setor. Já a participação de trabalhadores brancos foi reduzida em 217 mil, queda de 7%, segundo dados do Sistema de Informações e Indicadores Culturais de 2019, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Ainda assim, brancos são a maioria dos ocupados no setor: em 2018, eram 52,6%, enquanto pretos ou pardos eram 45,7%.

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Para Leonardo Athias, pesquisador do IBGE, existem duas explicações possíveis para o crescimento no número de trabalhadores negros ocupados no setor da cultura. “No período, o setor cultural cresceu no Norte e no Nordeste, regiões com maior presença de pessoas pretas e pardas. Também houve mudanças nas atividades, com o crescimento de ocupados informais”. Em todas as regiões foi registrado aumento da população preta ou parda no mercado de trabalho do setor cultural. 

No período analisado, a Região Sudeste apresentou a maior proporção de pessoas ocupadas nas atividades relacionadas à cultura, seguida da Região Sul e Centro-Oeste. No entanto, apenas no Nordeste (4,4%, em 2014, e 4,8%, em 2018) e no Norte (4,4% e 4,5%, respectivamente) houve crescimento na proporção de ocupados neste segmento. 

Entre os estados, São Paulo (7,1%), Rio de Janeiro (6,8%) e Ceará (6,4%) apresentaram o maior percentual de pessoas trabalhando no setor cultural em 2018. Já Rondônia (3,2%), Amapá (3,4%) e Acre (3,5%) apresentaram as menores taxas.

Durante o período de 2014 a 2018, os trabalhadores negros também aumentaram a participação frente aos trabalhadores brancos no mercado de trabalho em geral, alcançando o percentual de 53,7% em 2018, enquanto os trabalhadores brancos eram 45,2% da população ocupada. Mas o inverso acontece com o setor cultural, onde os brancos ainda são maioria. 

Segundo o pesquisador do IBGE, a concentração regional e educação são fatores que explicam essa diferença. “O setor cultural é mais forte no Sudeste, região que tem uma proporção baixa de pessoas pretas e pardas. Além disso, as atividades do setor são ocupações que exigem um maior nível de escolaridade, o que privilegia pessoas brancas”, pontua Athias. 

De acordo com o IBGE, os trabalhadores do setor cultural apresentavam um nível de instrução mais elevado que o observado entre os ocupados no mercado de trabalho em geral. Em 2018, 26,9% ou 1,4 milhão de trabalhadores do setor cultural possuíam nível superior completo, em contraste com 9,9% ou 18,4 milhões dos trabalhadores em geral.

Outro destaque durante o período foi o crescimento no número de mulheres trabalhando na cultura. Em 2014, havia maior participação do gênero masculino, com 2,7 milhões de homens (52,4%) em relação a 2,5 milhões de mulheres (47,6%). Porém, desde 2017, mulheres são maioria e representam 50,5%, segundo os números mais recentes do IBGE.

“Existe no imaginário popular a ideia de que pessoas negras não devem ocupar esses lugares e não existe incentivo para isso. No meu trabalho, há essa diferença no número de pessoas negras e brancas, mas tenho visto que esse cenário está mudando. O mercado literário é muito feminino, mas quem ocupa os lugares de poder, como diretores e presidente, ainda são homens. O mercado literário tem muita mulher trabalhando, mas quem toma decisões ainda são os homens”, destaca Ana Rosa, analista de mídias sociais e social media de uma maiores editoras de livros do país.

Delgado concorda: “Para mim, sempre foi nítido que quem toca a cultura no Brasil são as mulheres, principalmente nos bairros periféricos. Desde que comecei a participar desses espaços culturais, sempre vi muita mulher, principalmente em coletivos culturais e em formas de organização mais informais”.

Crescimento de trabalhadores por conta própria e na informalidade

Cosme Fellipsen durante o Rolé dos Favelados no Morro da Previdência em dezembro de 2019 | Fotos: Antonio Porto Equi/Divulgação
Cosme Fellipsen durante o Rolé dos Favelados no Morro da Previdência em dezembro de 2019 | Fotos: Antonio Porto Equi/Divulgação

De 2014 para 2018, a participação dos trabalhadores com carteira assinada na população ocupada reduziu no Brasil e o setor cultural acompanhou esse movimento. Houve um crescimento no número de trabalhadores por conta própria (como microempreendedores individuais, MEIs) no setor, com aumento percentual de 32,5% para 44%. Desde 2016, eles passaram a ser maioria neste segmento. Já o número de ocupados com carteira assinada na cultura caiu 45% para 34,6%.

A informalidade em geral também cresceu no período no setor cultural. Em 2014, 2 milhões de trabalhadores culturais (38,3%) estavam na informalidade, enquanto em 2018 esse percentual subiu para 2,4 milhões de trabalhadores (45,2%). Segundo o IBGE, a ocupação informal é representada por trabalhadores sem carteira de trabalho assinada, trabalhadores por conta própria e empregadores que não contribuem para a Previdência Social. 

Cosme Fellipsen, guia turístico e idealizador do Rolé dos Favelados no Rio de Janeiro, está entre os 2,4 milhões de trabalhadores informais. Em 2016, formou-se como guia de turismo e no mesmo ano idealizou o Rolé. Utilizando sua experiência com o teatro, uniu sua performance aos guiamentos para criar o que ele chama de “aula a céu aberto” para contar a história de territórios como o Morro da Providência, Complexo do Alemão, Morro Dona Marta e Vila Autódromo, todos na cidade do Rio de Janeiro, e o Bairro da Paz, em Salvador (BA). “O trabalho está atrelado à movimentação cultural e econômica da favela. Na Providência, através do Rolé, conseguimos reanimar uma roda de samba que acontece uma vez por mês. Sempre que acontece a roda, antes faço o Rolé para trazer o público para conhecer a história da favela e contextualizar o território”, conta Fellipsen.

Falta de acesso à cultura

Apesar do crescimento de trabalhadores negros no setor cultural, o acesso à cultura ainda é restrito para pessoas negras. Segundo o relatório, 44% dos pretos e pardos vivem em cidades sem cinemas, contra 34% da população branca. Enquanto 37% dos pretos e pardos moram em municípios sem museus, 25% dos brancos enfrentam a mesma restrição.

A diferença de acesso da população preta e parda a equipamentos culturais também está relacionada com o retrato das regiões do país. No Sul e Sudeste, há maior concentração de bens culturais. No Norte e Nordeste do país, onde a maioria da população é preta e parda, o número é reduzido.

“Por uma questão financeira e de acesso, a população negra tem dificuldade de ir a peças de teatro, por exemplo. Além do mais, quando finalmente conseguem, eles não se veem representados nesses espaços. Os lugares de protagonismo da cultura ainda são brancos”, pontua Cosme Fellipsen. 

Para Ana Rosa, esses dados evidenciam como a cultura ainda é reservada para a elite do país. “No caso da literatura, a questão é como as pessoas entendem o valor do livro na nossa sociedade. Isso faz com que existam pesos diferentes para determinado tipo de produto. E se a gente não tem uma sociedade que valoriza a cultura e a educação, é claro que o livro vai ter um valor simbólico e importância baixos. O mesmo ocorre com outros produtos culturais”, diz a analista de mídias digitais. Para tentar mudar este cenário, também participa de iniciativas como o Clã das Pretas, grupo digital que reúne blogueiras literárias negras para  valorizar a literatura afrocentrada (com foco em ficção escrito por mulheres) e aproximar pessoas negras. 

*Vitória Régia da Silva é repórter e Flávia Bozza Martins é analista de dados da Gênero e Número