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Por que mulheres tentam mais e homens são as principais vítimas de suicídio?

Violência autoprovocada, que inclui automutilação e tentativa de suicídio, é mais comum entre mulheres, porém homens, principalmente negros, são os que mais se matam, de acordo com Ministério da Saúde

Por Lola Ferreira*

Desde 2015, a campanha Setembro Amarelo, de conscientização pela prevenção do suicídio, sempre teve impacto simbólico: do Cristo Redentor ao Congresso Nacional, monumentos são iluminados de amarelo para lembrar da importância de falar sobre o suicídio. Mas os dados mostram que também é necessário falar sobre a trajetória das pessoas suicidas e de outros fatores associados à violência autoprovocada.

Números do Ministério da Saúde mostram que entre 2011 e 2018, em todo o Brasil, foram 339.730 registros de violência autoprovocada, ou seja, ideação suicida, automutilações, tentativas de suicídio e suicídio. No período, mulheres foram 67% das vítimas destes casos registrados no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan). 

Desde 2011, o aumento do registro dos casos foi gradual, mas deu um salto a partir de 2016. Naquele ano, o Ministério da Saúde assinou a portaria 204/2016, que define o prazo máximo de 24 horas para as secretarias municipais de saúde serem notificadas compulsoriamente sobre casos de tentativas de suicídio. Com isso, o número de registros total saltou de 45.489‬ em 2016 para 68.190 no ano seguinte, um aumento de 49%. De 2017 para 2018, o aumento foi de 39%. Com mulheres sempre na dianteira dos dados.

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Em todos os anos de registro, a faixa etária que compreende jovens de 15 a 29 anos é a mais afetada. Em 2018, os jovens foram 47,32% das vítimas de episódios de violência autoprovocada e destes 44.990 casos, 39,9% deles foram tentativa de suicídio. Em todos os casos, mulheres também são maioria.  O estudo “Autolesão sem intenção suicida entre adolescentes” analisa a motivação de um grupo anterior a este, dos adolescentes entre 10 e 14 anos. Com lesões de leves (morder a própria boca) a graves (esfolar ou queimar a própria pele), as principais motivações são: aliviar sensações de vazio ou indiferença; parar sentimentos/sensações ruins e sentir alguma coisa, mesmo que seja dor.

Uma das autoras do estudo, Nadja Cristiane Lappann Botti, explica à Gênero e Número que o comportamento autolesivo não é sinônimo de comportamento suicida, e que nem sempre algum dos dois estará associado à depressão. “Alguns casos podem ter associação com quadros depressivos, mas não podemos pensar numa relação causa-efeito entre depressão e suicídio. O suicídio é entendido como uma morte evitável e a própria Organização Mundial de Saúde nos alerta que, se os países investissem mais em educação, serviços de saúde e apoio social, essas mortes poderiam ser evitadas”, avalia.

Botti é psicóloga, doutora em enfermagem psiquiátrica, membro-fundadora da Associação Brasileira de Estudos e Prevenção do Suicídio (ABEPS) e coordenadora do Teia Vita, o grupo de trabalho de valorização da vida e suicidologia da Universidade Federal de São João Del-Rei (UFSJ), em Minas Gerais. No ano passado, o Teia Vita lançou o e-book “Valorização da Vida na Adolescência: Ferramentas Vivenciais”, que tem como alguns dos objetivos principais favorecer a criação de rede de apoio e detecção precoce de comportamentos de risco e promover a saúde mental.


No suicídio, mais homens

Os casos efetivos de suicídio registrados no Sistema de Informações sobre Mortalidade apontam que os jovens de 15 a 29 anos ainda são 27% das vítimas entre 2011 e 2017. O SIM também mostra que as principais diferenças entre estes casos e os casos de violência autoprovocada são gênero e raça: homens, principalmente negros, se matam mais.

Em 2017, último ano com dados disponíveis, foram 10.218 suicídios de homens e 2.828 de mulheres. Entre os jovens de 15 a 29 anos, foram 2.649 e 733 casos, respectivamente. Botti destaca que o perfil comum do jovem que se suicida (homens, negros, com até 11 anos de estudo e sem cônjuge) demanda atenção: “São elementos associados a determinado tipo de urbanização, acompanhado de exclusão social nas distribuições de recursos e de oportunidades”, aponta.

O estudo “O gênero no comportamento suicida: Uma leitura epidemiológica dos dados do Distrito Federal”, da Universidade de Brasília (UnB), analisa, a partir de dados da unidade federativa, que seguem os dados nacionais, a diferença de predominância de gêneros entre violência autoprovocada e suicídio. O texto avalia que todas as fases de um comportamento suicida já são marcadas pelo gênero, e destaca o meio utilizado como fator principal para entender essa disparidade.

Os dados do Sinan apontam que apesar da forma mais comum de violência autoprovocada entre os jovens de 15 a 29 anos ser o envenenamento, em ambos os gêneros, os outros meios utilizados pelos homens nas tentativas de suicídio são os mais letais. O enforcamento foi a escolha em 13% dos casos e as armas de fogo em 4,2% para eles. Entre as mulheres, os índices são de 4,7% e 0,7%, respectivamente.  

Nos registros apenas de suicídio para a mesma faixa etária, homens e mulheres têm com o enforcamento como principal meio: 70,3% no caso deles e 53,8% no caso delas. O envenenamento vem em seguida, duas vezes mais comum entre as mulheres (28%) do que entre os homens (11,9%). Suicídios com arma de fogo ocorreram em 8,7% dos casos de homens e 4,6% nos casos de mulheres. 

O estudo da Universidade de Brasília destaca um fator importante na diferença entre gêneros nos registros de violência autoprovocada: homens “falam menos” sobre seus problemas de saúde, o que também pode interferir no registro de casos e contribuir para a disparidade.

Prevenção ao suicídio como carro-chefe

Assunto de destaque nas falas da ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, a prevenção ao suicídio ganhou uma política nacional exclusiva no início deste ano. A lei 13.819/2019 institui a Política Nacional de Prevenção da Automutilação e do Suicídio, com objetivo de “promover a saúde mental”, “prevenir a violência autoprovocada”, “garantir o acesso à atenção psicossocial”, entre outros pontos. O texto ainda discorre sobre a necessidade da notificação compulsória de casos de violência autoprovocada, comunicação ao conselho tutelar quando tratar-se de adolescentes e, ainda, treinamento dos profissionais de saúde.

No mesmo mês, Damares lançou a campanha “Acolha a Vida”. De acordo com o ministério, o objetivo é introduzir “o assunto perante a sociedade, tendo como pano de fundo o fortalecimento dos vínculos familiares na construção de uma sociedade que dialogue sobre as temáticas que obedeçam à transversalidade do tema”. Desde então, a ministra tem feito visitas a estados brasileiros de Norte a Sul, para divulgar a campanha e falar sobre o tema, mas à parte da campanha e do desejo de colocar a prevenção ao suicídio no meio do debate, ainda não há consistência no projeto do Governo Bolsonaro sobre violência autoprovocada e suicídio.

Governos anteriores já haviam feito movimentos semelhantes em prol da prevenção ao suicídio. A portaria 1876/2006 “institui as diretrizes nacionais para prevenção do suicídio”, a nível federal, estadual e municipal. Entre os objetivos, o documento pretendia “desenvolver estratégias de promoção de qualidade de vida” e “identificar a prevalência dos determinantes e condicionantes do suicídio e tentativas”. Também em 2006, o Ministério da Saúde editou um manual dirigido a profissionais das equipes de saúde mental

A portaria 3088/2011 instituiu a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) para pessoas com sofrimento ou transtorno mental no Sistema Único de Saúde (SUS). Em 2014, a portaria 1271 já havia tornado as tentativas de suicídio e o suicídio agravos de notificação compulsória em todo o território nacional, mas sem a especificação do prazo de 24 horas, que seria determinada dois anos depois.

O Governo Dilma também apoiou o CVV na criação da campanha Setembro Amarelo e criou a agenda de Ações Estratégicas para a Vigilância e Prevenção do Suicídio e Promoção da Saúde no Brasil 2017-2020. No Governo Temer, a portaria 3491/2017 instituiu o comitê gestor para criar um Plano Nacional de Prevenção do Suicídio no Brasil. No mesmo ano, a portaria 3491/2017 define o direcionamento de recursos financeiros para desenvolver programas de prevenção ao suicídio em seis estados brasileiros.

Nadja Botti aponta algumas formas para que a intenção de reduzir os índices e prevenir o suicídio alcance a maior parcela da população. “Precisamos de políticas públicas efetivas intersetoriais. O Brasil assinou um compromisso junto à OMS, em 2013, para estabelecer sua estratégia nacional e não cumpriu até o momento”, destaca.

O compromisso citado por Botti é o Plano de Ação Integral de Saúde Mental da OMS 2013-2020 e se firma em quatro objetivos principais: fortalecer políticas eficazes na saúde mental; no âmbito comunitário, oferecer serviços de assistência social e saúde mental completos e integrados; implementar estratégias de promoção e prevenção no campo da saúde mental; e fortalecer os sistemas de informações e dados sobre o tema.

“Precisamos entender que o gesto suicida pertence à vida e é um comportamento social que pode ser evitado na medida em que forem apresentadas alternativas ao sofrimento sentido como insuportável, intolerável e interminável. Há várias medidas que são eficazes, em termos de política pública”, afirma. E destaca algumas: “limitar o acesso aos meios para o suicídio; aumentar o acesso ao sistema de saúde; disponibilizar mais serviços de ajuda/apoio emocional para pessoas vulneráveis e sobreviventes, bem como suporte comunitário e tratamento”.

*Lola Ferreira é jornalista e colaboradora da Gênero e Número.

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