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A revolução dos ‘fãs-bots’

Fãs – de carne e osso – se organizam por meio de Twitter, Facebook e Whatsapp e promovem mutirões de curtidas, votos e plays para colocar seus ídolos no topo de rankings internet afora; para pesquisadora, ‘automatização’ evidente na mobilização dos fãs também está presente em outros fenômenos contemporâneos, como as interações cotidianas nas redes sociais

Por Marcela Xavier*

As métricas de sucesso musical mudaram bastante nos últimos anos – os números de discos vendidos e de execuções nas rádios deram lugar aos plays em plataformas de vídeo e música e ao engajamento de fãs em redes sociais. As artistas que compartilham o topo das paradas musicais no Brasil em 2017 também têm em comum um exército de admiradores que se dedica com fervor a manter sua popularidade em alta. Como os robôs digitais espalhados pelas redes sociais, os “fãs-bots” se organizam para bombar o conteúdo das ídolas, inflar seus números em rankings de música e garantir prêmios em votações populares várias pela web.

A canção mais ouvida no YouTube em 2017 no Brasil foi “Sua Cara”, que juntou duas divas recentes da música pop brasileira: Anitta e Pabllo Vittar (com o grupo de música eletrônica Major Lazer). Anitta aparece também no quinto lugar do ranking da plataforma de vídeos com “Loka”, parceria com as “feminejas” Simone e Simaria. As três são as únicas mulheres no top 10 do YouTube e do Spotify, com as mesmas duas canções.

Há evidências de que parte significativa do mais de um bilhão de plays dessas canções contabilizados no ano passado se devam a fãs dedicados e orquestrados empregando métodos como troca de IP (número que identifica o dispositivo na rede) e extensões no navegador que garantem o “auto-refresh” (atualização automática da página) a intervalos programados. Na Central Anitta, site de fãs dedicado à cantora carioca, uma página traz tutoriais que ensinam justamente esses dois métodos.

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A página propunha destacar a canção “Paradinha” nos rankings gringos de rádios, YouTube e Spotify. Agora, a Central Anitta está promovendo uma promoção para aumentar o desempenho do single “Machika”, lançado oficialmente no dia 19 de janeiro. A cada meta atingida, “kits exclusivos” de Anitta e de J Balvin, seu parceiro na canção, seriam sorteados para os fãs que comprovassem que contribuíram para colocar a artista no topo dos rankings do Spotify Brasil, Spotify Mundial, iTunes Brasil e atingir 15 milhões de visualizações no Youtube em 24 horas. Até o fim de janeiro, a única meta que ainda não havia sido atingida era colocar o hit em primeiro lugar no Spotify Mundial.

Segundo Lucas Porto, que tem 20 anos e é o fundador e administrador do site Central Anitta, ações como maratonas de streaming em IPs mascarados são “um tipo de divulgação comum no meio pop. Fansites de Lady Gaga, Fifth Harmony, Camila Cabello, entre outras, utilizam o mesmo método”. Ele disse à Gênero e Número que a ideia não é necessariamente colocar Anitta no topo, mas sim gerar visibilidade para a artista nestes rankings.

A Gênero e Número entrou em contato com Spotify e YouTube sobre o tema. O primeiro não respondeu até o fechamento desta reportagem. Já o segundo indicou uma página que afirma que uma visualização legítima é “uma exibição pretendida de um vídeo, em que a finalidade principal é assistir ao vídeo. Isso significa que um ser humano real deseja ver um vídeo, escolhe um para assistir e, então, age de acordo com essa escolha”.  Ao listar as estratégias que não são permitidas pelo YouTube para conquistar visualizações, não há nenhuma menção a trocas de IP e extensões de auto-refresh, métodos sugeridos pela Central Anitta.

Mutirão de votos

A mobilização de fãs para fomentar a popularidade de seus ídolos não é nova, como comenta Adriana Amaral, pós-doutora em Comunicação Social, especialista em cultura digital e redes sociais e professora na Unisinos. A internet e o amplo acesso e popularidade das redes sociais, porém, potencializam esse fenômeno. “A movimentação dos fãs está mais sistematizada e automatizada”, disse à Gênero e Número.

Segundo a pesquisadora, com a disseminação do letramento midiático os fãs aprendem a lidar e gerenciar as tecnologias e usá-las em prol de seus ídolos. Amaral citou um estudo que fez em 2012 com fãs do Restart, a banda teen dos jeans coloridos finada em 2015. “Crianças de 10 a 15 anos estavam sabendo fazer uma divulgação melhor do que uma assessoria de imprensa”, afirma. “Várias pessoas comentaram, ao longo de estudos que eu venho fazendo, que o contato com os fandoms [comunidades ativas de fãs] foi essencial para a pessoa vir a escolher uma profissão como publicidade, jornalismo ou relações públicas, profissões ligadas à comunicação.”

Além dos rankings das plataformas de streaming, um concurso tem movimentado os fandoms brasileiros mais expressivos nas redes sociais nesse início de 2018. O Coca-Cola FanFeat é uma campanha de marketing da marca de refrigerantes protagonizada por Anitta, Luan Santana, Ludmilla, Pabllo Vittar, Projota, Simone e Simaria, Solange Almeida, Thiaguinho e Valesca Popozuda. Eles são submetidos aos votos dos fãs, que só podem votar se apresentarem uma foto de uma embalagem da bebida. À Gênero e Número, a Coca-Cola afirmou ter escolhido estes artistas com o objetivo de “ter o cenário da música brasileira bem representado e um alto poder de engajamento na campanha”. Os três nomes mais votados até o dia 5 de março gravarão um videoclipe que, segundo a empresa, será o “hit do ano”.

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Em páginas e grupos do Facebook que reúnem fãs dos artistas há posts frequentes encorajando a participação e os votos para manterem os ídolos no top 3 do concurso. No Twitter, há mutirões com hashtags, além da organização que também acontece por meio de grupos no Whatsapp. Os fãs mais engajados parecem ser justamente aqueles dos artistas que estão em destaque no concurso: Simone e Simaria, Luan Santana, Anitta e Pabllo Vittar. Essa dedicação não é exatamente espontânea – os artistas têm feito posts frequentes incentivando os fãs a votar no site da Coca-Cola.

Rogério Andrade, um dos moderadores do grupo Anitta®, que conta com quase 130 mil membros, tem 25 anos e cria conteúdo para diferentes sites dedicados à cantora. “Anitta é um exemplo de artista, tanto no palco quanto fora dele. Ela é a mesma pessoa profissionalmente e pessoalmente. Ajuda as pessoas, ajuda os fãs. Para mim, a Anitta significa amor. Eu nunca tinha sido fã de outro artista assim”, disse à Gênero e Número.

No grupo moderado por ele e outros fãs da cantora, os membros têm comentado que, ao esgotar seus 10 votos diários, abriram contas no site do concurso utilizando dados pessoais de familiares – inclusive CPF – para votar mais vezes. Muitos compartilham fotos de embalagens do produto para que outros possam votar sem que precisem comprar mais refrigerante.

Outra votação online que tem movimentado os fãs nesse grupo é o Troféu Internet 2017, da rede de televisão SBT. Anitta está concorrendo nas categorias de melhor cantora e melhor música, com “Paradinha”. O Troféu permite apenas um voto por email, mas fãs descobriram que não é preciso usar um endereço de email válido e compartilharam essa informação nos comentários de um dos tópicos convidando os membros do grupo a votar. Um dos administradores também postou o endereço de um site que gera números válidos de CPF, antes de entender que o uso do Cadastro de Pessoa Física era opcional no site da emissora.

A Coca-Cola não quis comentar práticas como uso de CPF de terceiros e fotos repetidas de latinhas na participação dos fãs no concurso, mas disse à Gênero e Número que o engajamento tem superado as expectativas da empresa, “o que é ótimo!”. “O relacionamento dos fãs com os artistas vem mudando ao longo dos anos e, de fato, hoje, os fãs tem um enorme poder de interferir na carreira de seus ídolos. É realmente incrível o poder dos fãs”.

Já a assessoria do SBT afirmou que “a emissora nunca teve problema na votação do Troféu Internet devido à sua tecnologia de informação. Nunca existiu CPF duplicado.”

Adriana Amaral afirma que, além da dedicação aos artistas, outra característica dos fandoms é a competição por que ídolo é “melhor” ou faz mais sucesso. Ela cita as disputas entre fãs de Beatles e Rolling Stones nos anos 1960, Oasis e Blur nos 1990 e até as brasileiras Emilinha Borba e Marlene nos anos 1940. “Essa questão da competição acaba refletindo nesses casos específicos e os jovens conseguem se inserir nela”, afirma, destacando que é um aspecto também fomentado pela própria indústria e pela imprensa musical – e agora por uma marca de refrigerante.

“Fandom do ano”

pelo menos 40 contas “Charts” no Twitter dedicadas à divulgação de rankings de música e vendas de artistas brasileiros e estrangeiros. Os fãs ficam de olho nos números de iTunes, Spotify, YouTube, iHeart Radio e Billboard, entre outras medições. Para Lavínia Gomes, que tem 16 anos e acompanha e interage com as contas que divulgam os números do cantor Luan Santana, esse tipo de divulgação, feita pelos próprios fãs, é uma forma de estar mais perto de seu ídolo. “Os números são importantes para a carreira dos artistas. É uma maneira de encher o coração de alegria ao ver que todo esforço de pedir música na rádio, ouvir nas plataformas digitais, assistir no YouTube, comprar o [CD] físico, indicar, votar e tudo o mais, dá certo. É bom ver os números e constatar o sucesso”, disse ela à Gênero e Número.

A pesquisadora Fernanda Bruno, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e especialista em tecnologia, subjetividade e cibercultura, acredita que o fenômeno dos fãs-bots está ligado também à cultura da performance contemporânea, “que toma a performance como medida do sucesso” e que a reduz a resultados numericamente quantificáveis.

“O desempenho profissional, que a gente pode chamar de performance, ou a qualidade de uma obra, de um trabalho artístico ou profissional, pode ser visto, analisado e avaliado segundo critérios muito diferentes daquele da obtenção de resultados”, disse Bruno à Gênero e Número. “Uma característica contemporânea é essa redução da performance à obtenção de resultados quantificados. Há nesse empenho dos fãs uma participação ativa nessa cultura. É sempre bom lembrar que esse modelo [de performance quantificada] é recente e depende de uma reordenação do capitalismo, de certa vitória de modelos neoliberais de trabalho, de sucesso, de realização”, ressalva a professora.

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Embora não apareça entre os artistas mais ouvidos no YouTube e no Spotify em 2017, Luan Santana teve a canção mais executada nas rádios brasileiras no ano passado, segundo o levantamento da empresa Crowley Broadcast Analysis. Recentemente seus fãs levaram o troféu GShow de Fandom do Ano, para “a galerinha que fez barulho nas redes sociais mostrando todo amor pelo ídolo”, segundo a descrição do prêmio – eleito por votação popular, ou seja, pelos próprios fãs.

Os sites de admiradores do cantor Projeto Luan Santana e Modéstia Santana trazem páginas com orientações sobre a ação da Coca-Cola e como votar. O Troféu Internet do SBT também está na mira dos fãs do popstar sertanejo. A tática aqui são parcerias com outros grupos de fãs, como os de Ivete Sangalo – porque não há uma concorrência direta. Ela não participa do concurso FanFeat e no Troféu Internet concorre em uma categoria diferente. A parceria tem até nome: Luvete.

As sertanejas Simone e Simaria têm se revezado com Luan Santana no primeiro lugar no concurso da Coca-Cola. A dupla faz parte da nova onda que vem reinventando o gênero, trazendo referências do pop e do funk e com uma estética muito mais próxima da família Kardashian do que de Chitãozinho e Xororó.

Segundo análise da Fanpage Karma, uma ferramenta de monitoramento de páginas no Facebook, as feminejas tiveram um crescimento vertiginoso no engajamento de seus fãs na rede social em 2017: o número de reações, comentários, curtidas e compartilhamentos na página de Simone e Simaria cresceu 530% entre janeiro e dezembro do ano passado. A taxa de crescimento da página de Pabllo Vittar foi de 226%, Luan Santana, 138%, e Anitta, 104%.

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Fãs e tecnologia se renovam

Fernanda Bruno observa que o fenômeno dos fãs-bots se aproxima de um “fantasma” que atravessa as relações entre humanos e máquinas e que habita o imaginário coletivo: “o de nós, humanos, nos assemelharmos cada vez mais às máquinas que criamos”.

“A gente vê esse comportamento ‘bot’ nesses fãs, mas também no fenômeno da multiplicação das notícias falsas, que é exatamente a gente reproduzindo e replicando notícias sem parar para pensar, para ler na íntegra; a gente recebe e compartilha de forma automatizada. Ou quando curtimos ou compartilhamos automatizadamente uma série de posts em nossas redes sociais”, ilustra a professora. “Me parece pertinente falar de uma automatização do comportamento desses fãs, mas ao mesmo tempo é interessante perceber que embora isso esteja muito evidente nesse tipo de mobilização, isso também está presente em diversos hábitos nossos cotidianos”, ressalva.

Já Adriana Amaral propõe a hipótese de que quem agita os fandoms e organiza os mutirões de streaming e de votos são adolescentes e jovens adultos, que têm mais tempo livre para investir nesse tipo de atividade. “À medida em que o tempo vai passando, as pessoas vão tendo mais atividades que ocupam o cotidiano e não permitem tanta dedicação aos ídolos. A chegada da vida adulta e demandas como as da faculdade e do trabalho fazem com que essa devoção se dissipe”, acredita.

A pesquisadora também aposta na renovação dos fandoms e das maneiras de se dedicar aos ídolos. Cada vez mais os fãs irão encontrar diferentes canais e ferramentas por meio das quais se expressarem, principalmente com o desenvolvimento exponencial das tecnologias da informação, diz ela. “Os fãs têm uma enorme capacidade de mobilização”, ressalta Amaral. “Há um grande investimento afetivo e emocional em relação aos ídolos, que por sua vez têm uma capacidade de representação muito forte, e os meios midiáticos permitem que essa relação seja expressa. Com as possibilidades infinitas proporcionadas pela internet, o coletivo vai rapidamente, e de formas cada vez mais criativas, se apropriando desses meios.”

*Marcela Xavier é jornalista e colaboradora da Gênero e Número.