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Religiões de matriz africana lançam plataforma eleitoral para candidatos do axé

Coletivo Irmãos da Fé Unidos pela Democracia na III Reunião do Projeto Político Estratégico na Casa do Caboclo Ubirajara. Foto: Divulgação

Coletivo Irmãos da Fé Unidos pela Democracia quer unificar e fortalecer candidaturas do axé do Estado para as eleições deste ano

Por Vitória Régia da Silva*

É possível unificar as candidaturas de representantes de religiões de matriz africana? Foi com esse objetivo que adeptos deste segmento religioso mobilizaram uma plenária do povo de axé para apresentar propostas e demandas da comunidade e lançar uma plataforma geral para os candidatos de axé. O evento aconteceu no último domingo (22/07), na Casa do Caboclo Ubirajara, no bairro de Olaria, zona norte do Rio de Janeiro.

O coletivo Irmãos da Fé Unidos pela Democracia, que está à frente da iniciativa,  é composto por representantes de Terreiros de Umbanda e Candomblé do Estado do Rio e busca estimular e conectar as candidaturas do axé para as eleições deste ano. “O aumento dos casos de intolerância religiosa e o avanço do projeto de poder de um determinado segmento religioso, contrário aos povos de matriz africana, fez com que nós começássemos a discutir políticas em grupos, para defender a democracia e o Estado de Direito. Esse foi o momento em que conseguimos agrupar representantes que já faziam debates em outros espaços com o propósito de lutar pelos direitos dos discriminados, além de uma sociedade igualitária”, explicou à Gênero e Número Arthur D’Iroko – que recebe esse nome por ser filho do orixá Iroko – do Axé Oloroke Pantanal e um dos integrantes do coletivo.

A plataforma é destinada aos candidatos de axé do Estado e compreende questões gerais da sociedade e questões específicas de comunidades de matrizes afro-ameríndias brasileiras. É também resultado de 14 reuniões do coletivo e do debate ao longo de cinco fóruns com mais de 60 terreiros do Estado nos quais as propostas foram decididas na busca pela construção do consenso.

“Chega de sermos excluídos das decisões políticas” disse Adileia de Iansã, da Casa do Cabloco Ubirajara, durante a plenária. “Não podemos mais desprezar a ação parlamentar como um aspecto de poder na sociedade e por isso é hora de se mobilizar”, afirmou.

O grupo Irmãos da Fé Unidos pela Democracia lançou um programa mínimo em que estabelece as demandas e lutas dos religiosos de matriz africana. O programa é dividido em oito pontos: educação, segurança alimentar, meio ambiente, cultura, comunicação, justiça e segurança pública, violência religiosa e saúde.  Entre as prioridades estabelecidas estão a defesa do Estado laico, o combate ao racismo, à intolerância religiosa e à discriminação contra pessoas LGBT+, o controle das concessões de rádios e TVs, a defesa da agricultura familiar e da reforma agrária e o combate às reformas trabalhista e previdenciária. A proposta é que os candidatos que se comprometam com esse programa mínimo tenham apoio do segmento religioso.

Segundo representantes do coletivo, a defesa do Estado laico foi o ponto que norteou as discussões, porque sua garantia está intimamente ligada à promoção da liberdade religiosa. “Quando defendemos o Estado laico, não estamos disputando ou querendo o mesmo poder e a influência de outras religiões, mas queremos garantir e proteger nossos direitos que em uma sociedade democrática devem ser assegurados a todas as religiões”, disse Tânia Jandira de Yemanjá, do terreiro Aldeia do Caboclo Arari. “Não existe democracia enquanto existir intolerância, racismo ou perseguição contra pessoas LGBT+ e qualquer candidato deve se atentar a isso.”