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Histórias

Transfobia ainda é obstáculo para o acesso de pessoas trans ao mercado formal de trabalho

Foto: Casa Nem, Rio | Miguel Pinheiro
Iniciativas nas esferas pública e privada, como a Rede Monalisa e o Transcidadania, tentam reverter o cenário de exclusão criando pontes com empresas e oferecendo capacitação profissional

Por Vitória Régia da Silva*

Não há vagas para pessoas trans. Desde que Natasha Roxy, 26 anos, passou a se reconhecer como uma mulher trans negra ela envia seu currículo para as empresas usando o nome social. Nunca foi chamada. Um dia ela resolveu fazer um teste e enviou o mesmo currículo, desta vez com seu nome de registro. As empresas começaram a entrar em contato.

O caso evidencia a transfobia e a dificuldade que ela impõe à inserção de pessoas trans no mercado de trabalho. “Quase todos os meus trabalhos de carteira assinada são de telemarketing. Nunca me foram dadas muitas oportunidades”, afirma. Foi em busca de oportunidades que 525 pessoas, a maioria da região Sudeste, se cadastraram na Rede Monalisa, uma plataforma online para conectar potenciais candidatos e candidatas trans e travestis a vagas de trabalho.

Depois de seis meses em funcionamento, a rede conseguiu cadastrar apenas 11 empresas aliadas e empregar 5 pessoas. A adesão de empresas é o maior problema enfrentado pela iniciativa, segundo sua fundadora, a cientista social Mayara Menezes. “Apesar das inúmeras vantagens, o empresariado ainda é fechado ao apoio da causa trans, por preconceito e também incompreensão", afirma.

Para pessoas trans, conseguir um emprego formal é uma via crucis que começa antes mesmo da entrada no mercado de trabalho, na etapa de qualificação profissional. Natasha conta que, por ser trans, a família a pressionava mais para trabalhar, sair de casa e se sustentar na adolescência. Sua carreira profissional se resume ao trabalho com telemarketing e com direitos humanos no Programa Rio Sem Homofobia. “Eu tentei me profissionalizar várias vezes durante o Ensino Médio, mas sempre cercada de cobrança e pouco incentivo da família”, afirma.

Depois de um curso de fotografia na Ação Comunitária do Brasil, na Maré, elase apaixonou pela arte, e hoje busca apoio de programas e cursos gratuitos, como a Rede Monalisa, para se profissionalizar. Desempregada, ela mantém um canal no Youtube onde fala sobre a vivência de ser uma mulher trans negra. "O nível de capacitação profissional das pessoas trans e travestis é um desafio. Muitas têm baixa escolaridade e são pessoas que tiveram que sair muito cedo de casa, apoiando-se no trabalho informal e na prostituição. A Monalisa pretende reverter esse risco através de parcerias para capacitação profissional”, explica Mayara.

Os obstáculos para acessar o mercado formal ficam expressos em números no levantamento feito pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) junto às diversas regionais da entidade. Os dados apontam que 90% das pessoas trans recorrem à prostituição em algum momento da vida. Segundo o Relatório da violência homofóbica no Brasil, publicado pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH) em 2016, a transfobia faz com que esse grupo “acabe tendo como única opção de sobrevivência a prostituição de rua, o que os torna mais vulneráveis aos vários tipos de violência, inclusive a sexual”.

Além da Rede Monalisa, o  Fórum de Empresas e Direitos LGBTs  também reúne empregadores que respeitam os direitos humanos de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais. Criado em março de 2013, conta com a adesão de 37 grandes empresas.

“É um número pequeno, mas o Fórum quer isso mesmo, por entender que a mudança no ambiente empresarial, essa quebra dos círculos viciosos de exclusão e a influência na sociedade por meio da voz de suas lideranças e criação de referências com boas práticas, se consegue com consistência, e não necessariamente com quantidade”, afirma Reinaldo Bulgarelli, secretário executivo do Fórum e sócio-diretor da Txai Consultoria e Educação.

O Fórum possui "10 Compromissos com Indicativos de Ação", documento que serve de diretriz para as empresas signatárias. Nele, o respeito aos direitos das pessoas trans aparece como uma ação prioritária, e em muitos casos gera certa resistência das empresas. “Há empresas que se recusam a assinar a Carta de Adesão ao Fórum por conta do tratamento que demos ao tema da identidade de gênero”, conta Reinaldo. Por outro lado, já é possível ver o resultado de ações afirmativas nas empresas. “Uma delas está utilizando o programa do Jovem Aprendiz para incluir jovens trans, investir em seu desenvolvimento e enfrentar os preconceitos no ambiente de trabalho, na sociedade e na própria família.”

Natasha Roxy, 26 anos, na Casa Nem
Natasha Roxy, 26 anos, na Casa Nem

Política pública para inclusão

Outra iniciativa pioneira na inclusão e capacitação de pessoas trans é o Transcidadania, implementado em janeiro de 2015 pela Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania (SMDHC) da Prefeitura de São Paulo, ainda na gestão de Fernando Haddad. O programa se destina a promover cidadania e oportunidades para mulheres e homens transexuais e travestis em situação de vulnerabilidade social.

Até o final de 2016, o Transcidadania contabilizou 221 beneficiários, a maioria mulheres transexuais e travestis negras, entre 30 e 49 anos, e oriundas da região Nordeste ou de outros municípios do Sudeste do país. Quando entram para o programa, 85% dos beneficiários não têm ensino fundamental completo (até a 8a série).  

Um dos indicadores do sucesso do programa é exatamente o aumento no nível de escolaridade de seus participantes. Em 2016, 173 deles concluíram o ensino fundamental. A formação veio acompanhada de uma bolsa de estudo de R$ 924, condicionada à execução de atividades relacionadas ao programa. A iniciativa virou modelo e ganhou destaque nacional e internacional como política pública bem-sucedida.

Com a gestão Dória, o Programa está passando por uma reestruturação. Até o final de 2016, funcionava somente no Centro de Cidadania Arouche, onde cada usuário tinha um prontuário e era acompanhado por uma equipe de referência composta por uma psicóloga, uma pedagoga e um assistente social. A preocupação atual entre beneficiários e ex-integrantes do programa é que haja um desmonte dessa equipe técnica. Em abril deste ano, Symmy Larrat deixou a coordenação do programa. Simmy foi procurada pela equipe da Gênero e Número para comentar seu afastamento, mas não respondeu até o fechamento da matéria.

O atual assessor da Coordenação LGBT, Ricardo Olímpio, garante que nos Centros de Cidadania LGBT os serviços continuarão os mesmos. “Identificamos uma necessidade de estarmos mais próximos das beneficiárias, então iniciamos um processo de descentralização. O programa estará disponível em todos os Centros de Cidadania LGBT, facilitando o acesso ao serviço”, explica.  Os Centros de Cidadania LGBT são equipamentos da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania, geridos pela Coordenação de Políticas para LGBT e hoje funcionam em convênio com uma entidade da sociedade civil, a KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço.

Qualificação não garante trabalho

Buscar mais oportunidades de qualificação em ações como as desenvolvidas pelo Transcidadania ou pela Rede Monalisa é um caminho para muitas trans e travestis. Mas nem sempre garante a porta de entrada ao emprego.

Haluxx Maranhão, 36 anos, homem trans indígena nascido em Santarém, veio ao Rio com 4 anos e hoje é ativista do movimento trans e indígena. Como a sua transição de identidade de gênero veio tarde, com 32 anos, ele teve a oportunidade de se profissionalizar em diversas áreas. “Fiz três cursos técnicos. E tive o privilégio de escolher ou não fazer uma faculdade, mas outras pessoas trans não têm esse direito garantido”, conta.  

Seu sonho agora é investir em um microempreendimento focado em bebidas. “Eu sempre trabalhei muito, já fui artesão, enfermeiro, músico especialista em percussão árabe, bartender etc, mas quero me dedicar agora ao meu negócio. Mas é sempre difícil”.

Desempregado há 6 meses, Hallux conta que sofreu diversos episódios de transfobia no mercado de trabalho, mesmo tendo formação. “Na minha trajetória, eu tive acesso a boas escolas, bons cursos e bons empregos. Somente depois que me reconheci como homem trans e ativista da causa trans o acesso ao mercado diminuiu e tive muita dificuldade em fazer as pessoas respeitarem minha identidade de gênero”, desabafa.

Haluxx Maranhão, 36 anos, homem trans
Haluxx Maranhão, 36 anos, homem trans

Para ampliar oportunidades, é preciso combater o preconceito e criar pontes, como propõe a cartilha Promoção dos direitos das pessoas LGBTs no mundo do trabalho, da Organização Internacional do Trabalho: "não se trata apenas do acesso ao emprego e a estabilidade no mesmo, mas do direito a um ambiente inclusivo onde todos possam desenvolver plenamente seu potencial, sem barreiras ou entraves à carreira, com tratamento respeitoso, equidade e liberdade para se expressar sem constrangimentos ou violências".  

Com a sua experiência à frente do Fórum de Empresas e Direitos LGBTs, Reinaldo vê a exclusão das trans no mercado de trabalho como parte de um círculo vicioso que nem sempre está ligado à formação. "Mesmo as pessoas trans de classes sociais mais altas, com mais recursos e alta escolaridade, enfrentam a discriminação. A desculpa de que falta escolaridade não se sustenta diante do preconceito", afirma o consultor.

Vitória Régia da Silva é jornalista e colaboradora da Gênero e Número.