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Pior para mulheres: falta de perspectiva na economia aumenta medo do desemprego entre trabalhadoras

Mulheres, mais que os homens, têm medo de serem afetadas pelo desemprego nos próximos meses | Foto: Tony Winston/Agência Brasília

Taxa de desocupação e subutilização da força de trabalho são maiores entre elas, bem como desalento em relação à situação financeira, segundo dados do IBGE e do Ibope

Por Flávia Bozza Martins e Lola Ferreira*

As mulheres são as que mais temem o desemprego. São elas também as mais insatisfeitas com o momento econômico atual e, na mesma esteira, duvidam mais do que os homens de que haverá uma mudança significativa do cenário nos próximos meses. Os dados são da última pesquisa Ibope/CNI que mede o Índice Nacional de Expectativa do Consumidor (INEC), referente ao mês de abril, e podem ser facilmente explicados pelo cenário negativo da economia. No primeiro trimestre deste ano, o Produto Interno Bruto (PIB) do país caiu pela primeira vez desde 2016 e registrou retração de 0,2%. No mesmo período, o número total de desempregados atingiu 13,4 milhões.

Mulheres têm muito mais receio dos efeitos do desemprego em suas vidas do que homens: 45% das entrevistadas disseram ter “muito medo” de serem afetadas, contra 39% dos homens. Os brasileiros sem medo algum de serem afetados são 33%, enquanto as brasileiras mais otimistas são apenas 23% do total. A disparidade entre gêneros é reflexo do atual momento econômico e social que o Brasil atravessa. Esta é a opinião da economista Ana Cláudia Arruda Laprovitera, presidente do Conselho Regional de Economia de Pernambuco, autarquia federal que fiscaliza os profissionais do setor.

“Há um grande temor em relação à perda dos direitos sociais conquistados ao longo dos últimos anos. Eles têm sido questionados em função do atual momento no país, e do acirramento e retomada do conservadorismo em todas as esferas de poder, em especial no mercado de trabalho”, avalia Laprovitera.

É exatamente por conta desse conservadorismo que Luciana Centurion, de 36 anos, acredita que não voltará ao mercado de trabalho formal brevemente. Mãe de duas filhas, com dois e cinco anos de idade, ela sempre trabalhou em lojas de roupas, mas foi demitida após o fim da última licença-maternidade e, desde então, não consegue nenhum trabalho com carteira assinada. Mesmo procurando, ela não acredita que a situação irá mudar tão cedo: “Pelo contrário, nós estamos regredindo. As mulheres com filhos, então, são vistas como problemas”, opinou.

O grau de satisfação em relação à vida financeira também foi medido pela pesquisa do Ibope. As insatisfeitas com “a vida que levam hoje” são 26% do total de mulheres, enquanto os homens com a mesma opinião são 20%. A pesquisa também pede que os entrevistados avaliem sua situação financeira atual e a comparem com três meses antes: diante desta pergunta, a maioria dos homens foi mais otimista (28%) do que a maioria das mulheres, que foi mais pessimista (29%).

Subutilização e precarização

De acordo com a última PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) Contínua Trimestral, do IBGE, há muito mais mulheres que homens na mesma situação que Centurion. A taxa composta de subutilização da força de trabalho é de 29,7% entre elas e de 21% entre os homens. Esta taxa leva em consideração as pessoas que estão desempregadas, as pessoas que trabalham menos horas semanais do que gostariam e também aquelas que gostariam de trabalhar, mas não têm condição naquele momento. É o caso de Centurion: “Não consigo um emprego com uma carga horária que se adapte à maternidade. Cuido praticamente sozinha das meninas”, pontua.

Virene Matesco, doutora em Economia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e professora da Fundação Getúlio Vargas (FGV), avalia que, tendo em vista a carga histórica de trabalho doméstico maior para as mulheres, é absolutamente comum que em um momento negativo para a economia do país elas sintam primeiro e com maior intensidade.

“Mulheres têm uma responsabilidade social ampliada no que se refere às questões dos filhos. Elas ficam realmente com toda a carga da família. Em relação ao desemprego, se tiver um homem e uma mulher ocupando a mesma vaga e a empresa tiver que decidir, ela decide mandar a mulher embora, por causa daqueles argumentos de que a mulher falta, engravida, sai do trabalho quando o filho fica doente… Por isso, nós consideramos e tememos mais a possibilidade de ficar desempregada”, analisa Matesco.

Para as mulheres que não conseguem ter a carteira assinada, o emprego informal é o caminho, já que não pode faltar comida na mesa e os boletos precisam ser pagos. Por isso, os “bicos” são a opção para a maioria. Para Luciana Centurion, mãe de duas filhas, trabalhar informalmente foi a saída para conseguir uma fonte de renda e vencer a depressão que surgiu após a demissão: “No começo eu me sentia bastante inútil, fracassada. Hoje eu já aceito um pouco mais, então busco outros meios [de renda]”, afirma Centurion.

Matesco avalia que, em um cenário de instabilidade econômica, a precarização bate mais rápido à porta: “O brasileiro tem que se virar. Você perdeu o emprego, e precisa de renda. Mas quem não sonha com emprego formal, carteira assinada e seus direitos assegurados? [Não ter] isso também acentua a insegurança [econômica]”.

A professora acredita que os primeiros meses de governo Bolsonaro não foram felizes nesse sentido, e que a insegurança de mulheres e homens em relação à economia se justifica.

“O sistema econômico é um organismo vivo e interligado. A economia é uma ciência social, lida com o humano, com os indivíduos e com a sociedade. Já vamos para o sexto mês [de governo] e não estamos vendo nada de efetivo. De um lado, o empresário posterga as decisões de investimento e nós, consumidores, postergamos nossa decisão de compra. Tudo isso acentua a desaceleração da economia”, avalia a professora.

*Flávia Bozza Martins é analista de dados e Lola Ferreira é jornalista da Gênero e Número.

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