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Histórias

O que pensam as feministas sobre a participação dos homens no movimento?

Maioria das manifestantes no ato de 8 de março de 2017 no Rio de Janeiro concorda com a regulamentação da prostituição e com a participação dos homens na luta feminista, indica estudo

Por Carolina de Assis*

Uma pesquisa realizada no ato do último 8 de março, Dia Internacional das Mulheres, no Rio de Janeiro, indica que a maioria das manifestantes concorda com a participação dos homens na luta feminista. A maior parte delas também apoia a regulamentação da prostituição e considera que a causa das mulheres negras deve ser prioridade no movimento.

A Gênero e Número teve acesso em primeira mão aos resultados do estudo coordenado pelas pesquisadoras Verônica Toste (UFRJ), Felipe Borba (UNIRIO) e Débora Thomé (UFF). Foram entrevistadas 153 mulheres que participaram da marcha, que reuniu 15 mil pessoas, de acordo com a organização. A pesquisa completa será apresentada pela primeira vez em outubro, no 49º encontro anual da Anpocs (Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais).

O trabalho ajuda a entender quem são as manifestantes que têm tomado as ruas do país nos últimos anos ao apresentar a opinião das entrevistadas sobre temas que geram controvérsia dentro do próprio movimento feminista.

Segundo o estudo, a maioria das mulheres que formaram o 8M no Rio em 2017 tem entre 15 e 34 anos (61,5%), está na universidade ou já passou por ela (65,4%), tem renda de até cinco salários mínimos (50,9%), participa de manifestações de rua (80,4%), palestras e rodas de conversa feministas (64,7%), se identifica politicamente com a esquerda (85,5%) e é solteira (67,3%) e heterossexual (66%). Brancas e negras tiveram uma participação equivalente na manifestação. As negras somaram 43,1% (24,8% se disseram pretas e 18,3% se disseram pardas), pouco menos do que as 44,4% que se disseram brancas.

Entre as causas mais citadas como principal reivindicação dentro do feminismo estão o combate ao feminicídio, à violência contra as mulheres e/ou violência doméstica (34%), a equiparação salarial e de oportunidades entre mulheres e homens e a igualdade de gênero no trabalho (28,1%) e a descriminalização do aborto e a defesa dos direitos reprodutivos das mulheres (26,8%).

Marcadores sociais como cor, renda, escolaridade e orientação sexual não indicaram diferenças de opinião entre as entrevistadas. No entanto, foi constatada uma lacuna pronunciada entre as opiniões de diferentes gerações de feministas, mais especificamente entre aquelas com 15 a 24 anos e o grupo acima de 45 anos de idade.

“Ficamos muito surpresos quando abrimos os dados da pergunta sobre a participação dos homens na luta feminista e vimos um grau muito alto de aceitação”, disse a pesquisadora Verônica Toste. “Isso contraria as impressões que a gente forma vendo o debate travado no Facebook, por exemplo. Desdobrando esses dados por idade, quem mais se opõe à participação dos homens no feminismo são as mais jovens, que são justamente as mais vocalizadas na internet.”

No dado geral, a maioria concordou (65,4%) ou concordou em parte (24,2%) que os homens devem participar das lutas feministas. Aquelas entre 15 e 24 anos tiveram a menor taxa de concordância (29,7%) e a maior de discordância (9,7%) de todas as faixas etárias. Entre as mulheres acima de 45 anos, nenhuma discordou: 88,9% concordaram, 8,3% concordaram em parte e 2,8% não concordaram nem discordaram.

Para a historiadora e pesquisadora Nataraj Trinta, essa diferença se dá pelos momentos diversos destas mulheres dentro do feminismo. “Quando as pessoas começam uma proposta, elas tendem a ser mais radicais no início. Há mais energia para discutir coisas que talvez já não sejam pautas de discussão, para afirmar ou negar o outro, é um processo ainda muito ligado a uma construção identitária. À medida que as pessoas vão tendo mais experiência, elas vão vendo quais são as possibilidades de alianças e as dificuldades e disputas dentro dos coletivos identitários”, acredita.

Maysa Carvalhal, que é da Marcha Mundial de Mulheres e participou da organização do 8M carioca, acredita que entre as jovens feministas que se orientam pelo Facebook e pautam apenas questões identitárias “há posturas muito mais sectárias” do que entre as mais velhas. “Os homens não devem protagonizar a luta, mas sendo os homens aqueles que personificam o machismo, o patriarcado, temos que formar essa consciência neles para que possamos seguir juntos. A gente não pode andar sozinha, estar esclarecida e do lado um homem que não faz ideia do que a gente está falando. A nossa direção é a unidade, é uma questão de perceber que a luta não se faz sozinha. A luta é um conjunto.”

Ponto recorrente de polêmica entre as feministas, a regulamentação da prostituição também foi aprovada pela maioria e indicou divergência geracional. No geral, mais da metade das manifestantes disse concordar (58,2%) e 17% disseram concordar em parte que a profissão de prostituta deve ser regulamentada no Brasil; 7,8% disseram discordar e 2% discordaram em parte dessa afirmação. Novamente, as mais jovens tiveram o índice mais baixo de concordância (45,2%) e o mais alto de discordância (12,9%), e as mais velhas foram as que mais concordaram (72,2%) e menos discordaram (2,8%).

Outro ponto que teve alta concordância geral foi que a causa das mulheres negras deve ser prioridade no movimento feminista: 75,2% das entrevistadas concordaram e 17,6% concordaram em parte. Também aqui houve uma adesão muito maior das mais velhas a essa afirmação: 91,7% das entrevistadas com mais de 45 anos concordaram, 5,6% concordaram em parte e nenhuma discordou. Aquelas com 15 a 24 anos tiveram a menor taxa de concordância (58,1%), mas a maior discordância ficou entre as mulheres com 35 a 45 anos (8,7%).

Para Carvalhal, as feministas de gerações anteriores puderam presenciar a ascensão do movimento negro e as lutas das mulheres negras tanto nos círculos de ativismo racial como nos coletivos feministas. “Essas mulheres acima de 45 anos foram forjadas neste outro contexto e têm uma bagagem muito diferente, com o debate do feminismo em outros moldes, mais no âmbito estrutural, com pautas de lutas mais propositivas. Elas tiveram uma formação que consegue compreender melhor o patriarcado e como o racismo e o capitalismo estão unidos nesse nó”, acredita.

Segundo a pesquisa, o grande catalisador da mobilização destas mulheres são as redes sociais, apontadas por 73,9% delas como a principal fonte de informação sobre o feminismo. 79,9% ficaram sabendo sobre a manifestação do 8M pelas redes, e mais da metade disse praticar seu ativismo também on-line (56,2%).

Apesar de terem se informado sobre o ato principalmente pelas redes (43,3%) , as mulheres acima de 45 anos foram as únicas a apontar também o movimento sindical como fonte de informação (17%). Para Trinta, isso é sintomático das mudanças recentes no ativismo feminista brasileiro, que já foi muito ligado ao sindicalismo e a partidos de esquerda e nos últimos anos passou a se articular majoritariamente nas universidades.

“Muito da base dos movimentos sociais eram sindicatos. Isso caiu enormemente a partir da década de 1990, com a flexibilidade trabalhista e o contexto neoliberal. Começou a se criar uma ojeriza à ideia do sindicato, das categorias reunidas. A gente não tem mais tanto essa união de categorias, mas a gente tem uma união identitária, que se liga mais às relações individuais, e as grandes bases de encontro dessas relações identitárias são as universidades, as escolas, os centros de conhecimento”, disse a historiadora.

Trinta também acredita que as redes sociais contribuem para essa união identitária, já que as pessoas “entram em contato umas com as outras e se conectam a partir do que são individualmente e de suas experiências”. “Elas também são redes de solidariedade, e a própria Marcha das Vadias foi construída a partir de pessoas que se encontraram pelas redes sociais”, ilustra.

Toste ressalta que as conclusões do estudo se aplicam ao conjunto de mulheres que participou da manifestação carioca do dia 8 de março, que se colocou também como um ato de oposição às reformas trabalhista e previdenciária de Michel Temer (PMDB-SP). “Queremos replicar o questionário em várias passeatas para ir delineando perfis diferentes”, diz ela, que pretende realizar a pesquisa em manifestações por todo o país e fazer um perfil geral da militância feminista de rua no Brasil.

Carolina de Assis é editora da Gênero e Número.