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Instituto Serrapilheira vai distribuir até R$ 12 milhões para fomento à diversidade na ciência

Karín Menéndes-Delmestre, da UFRJ, uma das contempladas pelas bolsa do Serrapilheira, amamenta a filha durante o anúncio|Foto: Diego Padilha

Investimento busca estimular mudança de perfil dentro das equipes de pesquisadores e chamar atenção para escassez de heterogeneidade

Por Vitória Régia da Silva*

Na contramão do clima de apreensão causado pelo contingenciamento das verbas da educação, o Instituto Serrapilheira anunciou investimento de até R$ 12 milhões em estímulo à diversidade na ciência, nesta sexta (17), no Rio de Janeiro. A iniciativa busca estimular a redução da desigualdade de gênero e de raça no setor, além de incentivar a formação de jovens pesquisadores e de uma ciência mais diversa.

“O investimento privado do Instituto não pretende substituir o público. Pelo contrário, o sistema científico brasileiro depende muito do investimento público. Não nos consideramos uma alternativa, mas um investimento complementar”, disse Hugo Aguilaniu, diretor do Serrapilheira, no anúncio sobre o lançamento da verba. O instituto nasceu em 2017, com o objetivo de financiar pesquisas e iniciativas de produção de conhecimento e divulgação científica.

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“A diversidade que apoiamos se refere principalmente à inclusão de pessoas negras em todas as áreas de conhecimento, e das mulheres, que têm pouca representatividade na maioria das áreas de pesquisa”, destaca Cristina Caldas, diretora de pesquisa científica do Instituto. Ao longo de sua carreira, mulheres passam por uma série de obstáculos, sobretudo se negras, como já mostramos em diversas reportagens na Gênero e Número. Até 2018, 53% dos líderes de grupos de pesquisa eram homens, e apenas 15% das cientistas do CNPq eram negras; as brancas representavam 32%. O investimento do Serrapilheira também é voltado aos portadores de deficiência física, pessoas de classes sociais menos favorecidas e minorias étnicas e raciais, como indígenas e quilombolas. 

Cristina Caldas, diretora de pesquisa científica do Instituto| Foto: Diego Padilha
Cristina Caldas, diretora de pesquisa científica do Instituto| Foto: Diego Padilha

Doze cientistas estão aptos a receber R$ 1 milhão cada, após um processo seletivo com quase 2 mil inscritos. Do financiamento total a cada pesquisador, R$ 700 mil serão concedidos de forma incondicional e os R$ 300 mil restantes estão condicionados a integração e formação de profissionais de grupos sub-representados em suas equipes de pesquisa. A adesão a esse mecanismo é voluntária, por isso os pesquisadores podem optar por receber ou não esse valor.  

Segundo Caldas, a ideia de condicionar 30% do investimento a ações de fomento à diversidade teve como objetivo sensibilizar os participantes e estimulá-los a buscar equipes mais diversas.  

“Um aporte deste valor em um momento em que o financiamento público na ciência é muito reduzido é quase um sinal de sobrevivência para os próximos anos e garantia de que continuaremos fazendo a pesquisa que foi iniciada”, disse à Gênero e Número Ayla Sant’Ana, pesquisadora do Instituto Nacional de Tecnologia do Rio de Janeiro e uma das contempladas pela bolsa.

Ela destaca que a discussão sobre o estímulo à diversidade fez com que os pesquisadores saíssem de sua “zona de conforto” para refletir sobre questões que impactam diretamente a ciência. “Sempre soubemos que a desigualdade é um problema complexo no país. Mas o condicionamento de 30% da verba fez com que a gente olhasse para dentro do nosso ambiente e começasse a refletir”, afirmou Sant’Ana.

A pesquisadora, que tem como projeto as rotas biotecnológicas para a conversão da semente de açaí em energia e produtos, disse que pretende usar o recurso para estimular a  participação e formação de mulheres e indígenas da região amazônica com interesse na sua área de pesquisa. “Esse recurso vai me possibilitar a fazer algo que eu não conseguiria de nenhuma outra maneira”, avalia.

Ciência e maternidade

Outra pesquisadora contemplada pela bolsa foi a astrofísica Karín Menéndes-Delmestre, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e do Observatório do Valongo. Ela teve sua filha durante o processo de seleção dos bolsistas, que começou em 2017, e chegou a apresentar seu projeto final para avaliação com menina recém-nascida. Menéndes-Delmestre destaca a importância das ações de inclusão de cientistas mães, já que a maternidade impacta a produção científica e ascensão das mulheres na ciência.

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“Todo o  processo de seleção não foi influenciado apenas por minha gravidez, pois eu já era mãe de uma filha de dois anos. Eu sempre ouvi outras colegas dizerem que era preciso escolher entre carreira e família. Mas eu queria os dois”, afirmou Menéndes-Delmestre. O Serrapilheira oferece um apoio extra de R$ 10 mil às pesquisadoras que tiveram filhos durante o processo e, nas chamadas públicas, estendeu em até dois anos o prazo de conclusão de doutorado para as candidatas que são mães.

Menéndes-Delmestre ainda destaca que tanto a inclusão de pesquisadoras mães, como a de mais mulheres e pessoas negras na ciência precisam passar por políticas públicas: “Essa necessidade tem que vir de baixo, das pessoas, mas as grandes mudanças vêm de cima, de políticas estabelecidas. Uma vez que [essas pessoas] entram no sistema, elas conseguem mudar ainda mais a realidade”, conclui.

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*Vitória Régia da Silva é repórter da Gênero e Número

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