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Novos nomes: Conheça Tainá de Paula, pré-candidata a deputada estadual no Rio de Janeiro

Arquiteta e feminista, a carioca luta por melhor acesso à cidade para periféricos e garantia de direito das mães. Foto: Divulgação

A newsletter Política 2018 traz a cada edição quinzenal o perfil de uma mulher que disputará as eleições pela primeira vez em 2018

Por Lola Ferreira*

Criada em uma das favelas da Praça Seca, na zona oeste do Rio de Janeiro, a arquiteta e urbanista Tainá de Paula, 35, é pré-candidata pelo PCdoB a uma vaga na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Por viver as dificuldades de chegar às áreas mais centrais da cidade durante toda a vida, ela definiu como principal eixo do seu projeto de campanha o acesso à cidade e a mobilidade urbana.  

Membro da #partidA, movimento feminista que visa potencializar mulheres na política, Tainá decidiu pela candidatura após sentir a necessidade de um debate qualificado sobre as questões de mobilidade, mas também de gênero e raça. Para a pré-campanha, formou uma equipe “de múltiplas visões”, predominantemente formada por mulheres e pessoas negras, como forma de fomentar nos eleitores o sentimento de representação política. Ela acredita que a falta de envolvimento da população com a política é reflexo da ausência de Estado. “Não é que as pessoas estejam mais conservadoras ou estejam desacreditadas da política. O que acontece é que ela nunca viu de fato a participação dela ser valorizada”, diz. Conheça as propostas da pré-candidata em cinco pontos.

1. Acesso à cidade

Tainá é ativista feminista e das lutas urbanas antes de pensar em concorrer a um cargo eletivo. Mestre em Urbanismo pela UFRJ, pesquisou a requalificação de áreas subutilizadas da cidade e a ocupação desigual de territórios. Na Alerj, ela pretende garantir pautas relacionadas à mobilidade, habitação e “formas da gente se divertir, para além de existir na cidade”. Para ela, a relação da população pobre com a cidade precisa ser alterada.

Hoje Tainá é assessora técnica do Movimento de Trabalhadores Sem Terra do Rio de Janeiro e coordena o projeto Brasil Cidades. A pré-candidata acredita que a dificuldade de acesso da população à cultura, lazer e saúde se manifesta principalmente no sucateamento de equipamentos públicos em territórios periféricos e no transporte público precário.

“Nós temos a cidade negada, e isso é uma violência de longo prazo que não pode ser invisibilizada. O Poder Público e as políticas públicas em geral não dão conta dessa ausência. E a gente precisa, não só em projeto lei, mas uma nova política de orçamento público e uma nova política de gestão pública que torne a cidade esse corpo menos precário do que é hoje”, afirma.

2. Desenvolvimento sustentável

Tainá cita o alto índice de diagnósticos de tuberculose na favela da Rocinha, na zona sul do Rio, como reflexo da falta de políticas públicas relacionadas ao desenvolvimento sustentável. “As nossas cidades estão adoecendo as pessoas”, ela define. Para a arquiteta, um grande erro do Estado do Rio de Janeiro foi não ter observado metas para um melhor desenvolvimento, principalmente após os grandes eventos — Copa do Mundo e Olimpíadas — e ela pretende levantar a discussão durante a pré-campanha e no próximo ano.

“A tuberculose é um problema crônico, por conta dos problemas sérios de habitabilidade e urbanização. A gente entende que está muito longe de disponibilizar uma qualidade de vida para os moradores, não só das favelas mas pras cidades de um modo geral”, avalia. Para Tainá, “a gente come mal, não tem lugar para depositar o nosso lixo e não faz coleta seletiva”, o que reflete na saúde da população. “A gente precisa discutir isso de uma forma mais qualificada. Nossa pauta ambiental está completamente abandonada.”

3. Representação feminina

A pré-candidata acredita que a democracia só será plena quando a representatividade nos cargos eletivos for prioridade. Ela propõe um trabalho que vá além do que é feito no processo eleitoral para que a sociedade considere “normal” a eleição de mulheres.

“É fundamental estabelecer espaços em que possamos discutir com a sociedade a importância de mulheres na política. Existe a disputa do capital político, e acho que é esse capital político que deve ser disputado no senso comum e nas vivências das mulheres. Por que as mulheres não se sentem representadas por outras mulheres? Esse é um recado que não é dado apenas no momento da urna, nos 45 dias de campanha, então é um trabalho constante de diálogo que a gente tem que estabelecer”, opina.

Tainá é mãe de Aurora e pretende incluir políticas públicas para mães no seu mandato. Foto: Instagram
Tainá é mãe de Aurora e pretende incluir políticas públicas para mães no seu mandato. Foto: Instagram

4. Maternidade

Ser mãe de Aurora, 4, faz com que Tainá dê maior atenção às pautas fundamentais para outras mães no Estado do Rio de Janeiro. Ela propõe políticas políticas públicas que garantam creche e ocupação qualificada para as famílias comandadas por mulheres. “Existe um descompasso entre horário de creches e empregos formalmente estabelecidos, se ela trabalha oito horas por dia.”

Para Tainá, a garantia de renda tem que ser feita pensando nas mães que têm filhos recém-nascidos e também naquelas que têm um trabalho informal. “Como a gente estabelece formas de subsidiar pequenas empreendedoras, empreendedoras domésticas? A gente precisa pensar numa política pública estratégica para esse segmento [de mães]”, afirma.

5. Menores em conflito com a lei

A pré-candidata acredita que a política principal para evitar o envolvimento de menores com facções criminosas é a educação. “A gente precisa reforçar uma rede de educadores populares que consigam dar conta do tempo que a criança e jovem estão fora do espaço escolar, um período de lazer ou preenchimento com outras atividades”, explica.

Em relação aos jovens que já cumprem medidas socioeducativas, Tainá aponta a necessidade de melhor utilização dos equipamentos públicos para qualificá-los profissionalmente. “É preciso expandir a rede de possibilidades e pensar numa política estadual de reinserção desse jovem. Por que a gente não pensa em estagiários de turismo, por exemplo, nessa rede de menores em sistema semiaberto ou regime fechado?”, questiona.

Diante da escassez de recursos financeiros do Estado do Rio de Janeiro, ela afirma que no Legislativo pretende discutir o orçamento sem deixar de agir. “É importante a gente começar um pouco a costurar as políticas públicas, tendo em vista que a gente tem um estado falido e que a gente não tem muito dinheiro pra investir. E é fundamental a gente fazer uma rediscussão orçamentária.”

*Lola Ferreira é jornalista e colaboradora da Gênero e Número.