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Nos palcos e nos bastidores, mulheres sacodem a música brasileira

Cantoras brasileiras se destacaram nos palcos e nas listas de canções mais ouvidas no país em 2017, mas homens ainda são maioria nos espaços mais privilegiados do mercado musical brasileiro. Ainda assim, elas seguem abrindo caminhos para si mesmas e para outras profissionais da música

Por Nana Soares*

Elas são, hoje, as artistas mais populares do Brasil. Há décadas mostrando sua força no pop, as mulheres agora também estão na elite de estilos como sertanejo e funk, que há anos dominam as paradas no país. Se em 2013 havia apenas quatro brasileiras entre as 16 cantoras presentes na lista das 100 canções mais tocadas nas rádios do país, em 2017 todas as 19 cantoras no ranking são brasileiras, segundo o levantamento anual realizado pela Crowley Broadcast Analysis.

Algumas têm feito mais sucesso do que outras: Marília Mendonça, Maiara e Maraísa, Simone e Simaria e Anitta foram as intérpretes mais ouvidas no Brasil em 2017, nas rádios e em plataformas de streaming. Nestas últimas, elas chegam a bilhões de execuções, também por terem sido responsáveis por alguns dos maiores hits do país nos últimos anos.

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Mas embora suas letras ressaltem a força e a autonomia das mulheres, as carreiras das cantoras mais bem sucedidas na indústria musical brasileira no momento ainda estão, majoritariamente, nas mãos de homens. São eles os empresários e líderes das gravadoras e produtoras que investem em novas artistas, alçando-as ao sucesso e guiando seus passos. Muitas vezes, é só depois de cair nas graças de figuras-chave do show business que as artistas decolam.

O mundo muda a música

Nos palcos e em entrevistas, elas exaltam a força das mulheres e demonstram ter consciência do caminho que trilharam para obter reconhecimento no meio musical e junto a fãs. O boom das sertanejas tem sido tão marcante que ganhou até nome próprio: é o feminejo, que traz perspectivas de mulheres em suas letras.

Para a comunicadora Joanna Burigo, fundadora do site Casa da Mãe Joanna e mestre em Gênero, Mídia e Cultura pela Escola de Economia e Ciência Política de Londres (LSE, na sigla em inglês), o aumento da participação das mulheres no sertanejo é inegável, embora nomes como Sula Miranda e Paula Fernandes já se fizessem presentes há alguns anos. Entretanto, para Burigo, o recente estouro das patroas “não deixa de estar conectado com os movimentos recentes das mulheres por mais equidade, o que inclui representatividade para além do campo da política”, analisa.

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Maiara, que faz dupla com a irmã Maraísa, falou algo parecido em entrevista à revista Claudia em novembro de 2017. “ A arte é um reflexo da sociedade, e as mulheres já estavam ocupando todos os espaços. O sertanejo precisou entender isso”, afirmou.

Essa também é a opinião de Monique Dardenne, idealizadora da Women’s Music Event (WME), plataforma de promoção do trabalho das mulheres no mercado da música. Para ela, as mulheres estão tendo seu papel mais reconhecido nessa indústria, mas isso é menos por causa de uma mudança estrutural no universo da música e mais uma consequência de um momento de maior visibilidade ao trabalho das mulheres e da formação de redes de apoio e fomento.

“As maiores artistas estão no mundo das gravadoras, e quando falamos em gravadoras falamos de executivos. Mas não dá para analisar o mercado brasileiro a partir dessas artistas, o mercado é maior que isso e há muitas mulheres realizando muita coisa, especialmente de maneira independente”, acredita a fundadora da WME, no mercado há quase 15 anos.

Para conectar essas mulheres e ajudá-las a alcançar protagonismo, o site da plataforma conta com um banco de cerca de 500 profissionais divididas em 30 profissões do universo musical. “Vinte anos atrás seria um absurdo uma menina que quer ser engenheira de áudio, mas nos últimos dez e, especialmente, quatro anos, as mulheres vem aparecendo e as profissionais têm pipocado. Não é que antes elas não existissem, mas agora estão mais visíveis. É uma mudança em todas as áreas, não só na música”, acrescenta Dardenne.

Abrindo caminhos

As profissionais do ramo concordam que o atual momento é o mais aberto a elas. A percussionista Lan Lanh, que há mais de 30 anos toca, compõe, produz e dirige para grandes nomes da música nacional, perdeu as contas de quantas vezes teve seu trabalho colocado à prova por ser mulher e percussionista. “Além de ser mulher, venho de um Estado onde os homens dominam a percussão (Bahia). Quando eu era mais nova, as poucas mulheres que despontavam na música estudavam instrumentos como piano e violino. Sofri preconceito desde essa época e não me dava conta, achavam que eu estava no palco porque era bonitinha”, relembra ela. A saída foi estudar ainda mais para poder se sobressair. “Agora eu tenho 30 anos de carreira e muita credibilidade, estou na discografia de quase todos os nomes da MPB, mas ainda acho que a mulher tem que correr mais atrás, tem que trabalhar o dobro para conseguir ser reconhecida.”

Com tantos anos de estrada, Lan Lanh conta que são cada vez mais frequentes as profissionais que creditam a ela a vontade de estudar percussão, um bom sinal de que o mercado está aberto para mulheres ocuparem espaços outros que não só de intérpretes. Porém, segundo ela ainda são comuns desigualdades como menor remuneração para as mulheres no ramo. “Por isso acho que temos que continuar despertas e falando, fazendo o que queremos, sendo quem somos. Meu maior empoderamento é simplesmente fazer o que eu faço”, diz a musicista, que acredita ter ajudado a desbravar caminhos para as novas gerações. “Não é que as mulheres de agora não vão sofrer preconceito, mas já há uma estrada mais pavimentada.”

Lan Lanh tem mais de 30 anos de carreira como musicista e compositora. Foto: Renata Duarte
Lan Lanh tem 30 anos de carreira como musicista e compositora. Foto: Renata Duarte

Para criar a plataforma WME, o raciocínio de Monique Dardenne e Cláudia Assef foi parecido: mulheres em destaque dão abertura a outras. “Eu sempre trabalhei com mulheres, mas poucas eram artistas e muitas estavam no administrativo e no financeiro. Em um painel sobre o assunto, fiz uma retrospectiva de com quantas eu já havia trabalhado e percebi que no Boiler Room [webTV de música underground que ela trouxe ao Brasil], dos 60 artistas que eu convidei, só 3 eram mulheres”, recorda a produtora. Foi o embrião do Women’s Music Event, que começou com um grupo de Facebook e continuou na forma do portal. Para ela a luta não é só por representatividade entre as intérpretes, mas sim pelo “backstage da música”.

A mesma estrutura

O mercado da música pode estar mudando pelas franjas, agregando mais mulheres nos espaços de poder e em cargos mais tradicionalmente ocupados por homens, como a engenharia de áudio, mas o topo da indústria, de onde saem os maiores hits, ainda não é tão democrático. Nele ainda imperam as canetadas de poucos homens.

Das cantoras mais ouvidas no Brasil em 2017, apenas Anitta não está subordinada a um empresário homem e, na produção musical, somente Simaria assina boa parte das músicas que canta em parceria com sua irmã Simone. Fora isso, elas são acompanhadas pelos empresários, produtores, compositores e executivos das grandes gravadoras.

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Nas histórias das “feminejas”, por exemplo, alguns nomes se repetem: Workshow, AudioMix e Eduardo Pepato. As duas primeiras são produtoras sediadas em Goiânia e fundadas e presididas por Wander Oliveira e Marcos Araújo, respectivamente, e o terceiro é o produtor musical por trás dos principais hits sertanejos dos últimos três anos.

Marília Mendonça, a artista com mais execuções no YouTube e a cantora mais ouvida no Spotify em 2017, e Maiara e Maraísa, também no top 10 de artistas com mais plays nas duas plataformas, são crias da Workshow e de Pepato. Marília, que começou a compor aos 12 anos e aos 15 foi contratada pela empresa, passou cinco anos compondo para outros cantores até que a Workshow decidisse, enfim, apostar em sua carreira como cantora – muito embora ela já insistisse há algum tempo em se lançar com suas próprias músicas.

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A carreira da dupla Maiara e Maraísa também explicita vários pontos do funcionamento dessa indústria. As irmãs cantam desde os cinco anos, tendo gravado seus primeiros álbuns de maneira independente, mas o reconhecimento nacional veio quando elas já estavam trabalhando com nomes consolidados do mercado. O cantor sertanejo Jorge, da dupla com Mateus, foi o primeiro empresário das gêmeas, que as apresentou a Eduardo Pepato. “Ele me ligou e me chamou para conversar em Goiânia, então disse que elas eram duas meninas de quem ele gostava muito e a quem queria ajudar, mas o mercado ainda não aceitava mulheres”, contou Pepato à Gênero e Número.

Ele, que produziu os sucessos das feminejas que somam bilhões de execuções nas plataformas de streaming, acredita que a mudança aconteceu também porque as letras que elas cantavam há até poucos anos atrás não conversavam com o que o público, especialmente o feminino, queria ouvir. “Antes as letras mostravam uma mulher dependendo de um relacionamento e sofrendo muito se ele não dava certo. Quando elas começam a cantar que mesmo sem o amor elas vão continuar e lutar, causaram identificação. Abriu-se espaço para esse tipo de música”, disse.

Monique Dardenne, idealizadora da Women’s Music Event (WME). Foto: Melissa Haidar
Monique Dardenne, idealizadora da Women’s Music Event (WME). Foto: Melissa Haidar

A comunicadora Joanna Burigo acredita que não há uma contradição intrínseca no fato de as intérpretes mais bem-sucedidas do mercado musical brasileiro trabalharem majoritariamente com homens. Segundo ela, todas as indústrias são lideradas por uma maioria de homens, e não seria diferente em uma que movimenta tanto dinheiro.

“Imaginar que mulheres vão trabalhar de formas totalmente independentes de homens em qualquer indústria é uma fantasia. Exigir isso das cantoras é irreal”, aponta. “Não consigo entender porque algumas mulheres contratam abusadores notórios para dirigir seus clipes ou fotografar suas turnês [como fez Anitta no vídeo de ‘Vai, malandra’, dirigido pelo fotógrafo Terry Richardson, acusado de assédio e abuso sexual por pelo menos 15 modelos com quem trabalhou]. Mas daí a querer que elas trabalhem apenas com mulheres é não entender nem o mundo nem a indústria.”

Elas por elas

Embora ainda sejam poucas, existem algumas mulheres em posições importantes da indústria musical no Brasil. O festival Lollapalooza, um dos maiores do mundo, a Semana Internacional de Música, evento anual do mercado musical, e a Vevo Brasil, braço da gigante dos videoclipes online, são geridas, respectivamente, por Leca Guimarães, Fabiana Batistela e Fátima Pissarra.

Entre as intérpretes, a trajetória mais fora da curva é a de Anitta. A cantora é também sua própria empresária, marqueteira e produtora há três anos, quando rompeu com Kamilla Fialho, da K2L Empresariamento Artístico, com quem hoje trava uma disputa jurídica trabalhista. Anitta fundou a Rodamoinho Produtora, um movimento ainda raro entre as intérpretes de sucesso do país. Deu certo: a cantora tem produzido hit atrás de hit, com parcerias que vão do sertanejo ao reggaeton e à música eletrônica. Somente para cuidar de sua carreira internacional, ela fechou com a produtora norte-americana William Morris Endeavor em 2016, que gerencia carreiras de artistas como Drake e Rihanna.

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Monique Dardenne, da WME, vê com otimismo os passos da cantora, acreditando ser uma quebra de barreiras tradicionais da indústria. “A Anitta é uma exceção entre as grandes artistas e é um exemplo. Ela é uma mulher que mostra que pode sim gerir sua própria carreira e ter as rédeas de seu negócio”, define.

E para Anitta não basta se autoempresariar. A artista agora também gerencia as carreiras dos artistas Micael – ex-Rebelde, que atendia pela alcunha de Mika – e Clau – lançada como promessa do hip-hop -, cujos primeiros trabalhos sob a tutela da cantora saíram já no começo de 2018. Se fizerem sucesso, ajudarão a consolidar o império que a artista parece estar tentando construir nos últimos anos.

Não só Anitta, mas todas as mulheres que ganham proeminência em um meio ainda muito masculino começam a desenhar um outro cenário. Essa é a esperança da comunicadora Joanna Burigo. “Aprendi com a feminista estadunidense Florynce Kennedy que nosso ativismo pode ser ‘cupim’ – quer dizer, que podemos corroer as estruturas de dentro. Espero que essas mulheres que hackeiam espaços tradicionalmente masculinos usem seus talentos para mudar o jogo de dentro dele. E confio na inteligência e estratégia delas, pois penso que seja isso mesmo que elas estão fazendo.”

*Nana Soares é jornalista e colaboradora da Gênero e Número.