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Em tempos de coronavírus, mulheres negras assumem o protagonismo contra a violência de gênero

Racismo estrutural e estereótipos raciais exacerbam violência contra mulheres negras | Foto: Agência Brasil

Com a redução do apoio governamental, redes de apoio lideradas por organizações da sociedade civil ajudam mulheres expostas à agressão doméstica 

Por Macarena Aguilar e Bruna Pereira*

Nos primeiros dias do surto de coronavírus, mensagens anônimas foram deixadas em elevadores de edifícios residenciais, oferecendo ajuda e abrigo para mulheres confinadas com seus agressores. Alguns bilhetes incluíam ainda avisos para os agressores. “Você não pode se esconder atrás da COVID-19! Estamos de olho e chamaremos a polícia”, dizia uma das mensagens.

Nos bairros mais pobres do Rio de Janeiro, ativistas estão usando o WhatsApp para divulgar informações básicas sobre a evolução da pandemia e medidas de higiene para evitar a infecção. Por meio de mensagens de texto e de voz, memes chamativos e infográficos, elas compartilham dicas sobre o acesso ao auxílio financeiro emergencial e orientam sobre como obter ajuda em caso de violência doméstica.

“Desde criança, aprendemos a ajudar umas às outras, a ter em mente a prática comunitária, entendendo que a sobrevivência de outra mulher é a nossa própria sobrevivência”, diz Aline Maia Nascimento, do Observatório de Favelas, organização que coordena essa ação por mensagens de WhatsApp e que, graças a seus muitos anos de ativismo, pode atuar com rapidez na resposta a uma pandemia para a qual não estavam preparadas. 

Desde que Jair Bolsonaro assumiu o poder, em 2019, políticas sociais essenciais foram enfraquecidas, e os orçamentos para responder à violência contra as mulheres, drasticamente cortados. Desse modo, as ativistas estão fazendo o trabalho de instituições falhas ou desmanteladas.

“No momento, o que estamos fazendo é um paliativo, já que o Estado não está se manifestando”, afirma Nascimento.

Desde criança, aprendemos a ajudar umas às outras, a ter em mente a prática comunitária, entendendo que a sobrevivência de outra mulher é a nossa própria sobrevivência”, diz Aline Maia do Nascimento, do Observatório das Favelas

Em conjunto com as campanhas de informação comunitária, os coletivos ativistas estão distribuindo alimentos e outros itens básicos para as famílias que estão sem nenhuma renda durante a pandemia. Helena Silvestre, da Escola Feminista Abya Yala, coletivo de mulheres negras localizado em São Paulo, descreve como também identificou mulheres em risco de violência durante as entregas de alimentos.

“Encontramos todo tipo de situação: mulheres que precisam de ajuda ou que conhecem outras mulheres em perigo. Por meio desse primeiro contato e do vínculo que estabelecemos, podemos adaptar nossa resposta”, diz Silvestre, explicando que a ajuda pode incluir o simples compromisso de manter contato e dar apoio moral até a criação de códigos que as mulheres possam usar se forem ameaçadas e precisarem de ajuda.

As palavras-código podem ajudar mulheres a se comunicar com as ativistas mesmo que seus celulares estejam sendo monitorados por seus agressores. Graças a essas táticas, Silvestre diz que seu coletivo ajudou recentemente uma mulher e seu filho a deixarem uma situação de violência doméstica. Através de sua rede, elas rapidamente encontraram uma família disposta a abrigá-los e coletaram doações de alimentos e uma cama.

“Para algumas mulheres, saber que podem entrar em contato com alguém já é um grande alívio; já outras precisam de apoio psicológico mais especializado”, diz Silvestre. É por isso que sua organização também mobilizou psicólogas voluntárias que utilizam diversas plataformas on-line para se conectar com as mulheres mais necessitadas e apoiá-las durante os dias de confinamento.

Ativista negra desde os 13 anos e com muitas lutas ao longo da vida, Silvestre admite se sentir particularmente desafiada pela crise da covid-19 e pelo que está por vir. A única coisa que lhe dá esperança, diz, é “ver tantas mulheres, muitas vezes elas mesmas vulneráveis, trabalhando para ajudar outras mulheres”.

Uma “pandemia de sombra” global

À medida que a pandemia de coronavírus forçou um número sem precedentes de pessoas ao confinamento, a violência contra mulheres e meninas aumentou em âmbito internacional. Centrais telefônicas de apoio em todo o mundo registram um número recorde de ligações, e as Nações Unidas vêm alertando sobre uma crescente “pandemia silenciosa“, instando os governos a fazer mais para proteger as mulheres durante a crise.

Desde que as restrições referentes ao isolamento foram impostas por autoridades estaduais e municipais em todo o Brasil, na segunda metade de março, juízes especializados em violência de gênero estimam que tais casos dobraram. Mas as ativistas pelos direitos das mulheres acreditam que esses dados alarmantes são apenas uma fração do número real de casos, tendo em vista os inúmeros obstáculos enfrentados pelas mulheres que precisam de ajuda.

“Muitas não podem fazer ligações, sair de casa ou usar transporte público para chegar a um centro de ajuda simplesmente porque não têm dinheiro”, diz Nascimento. “E é ainda pior para as mulheres que vivem nas favelas, que são na sua maioria negras e que dependem de pequenas rendas que ganham diariamente, com as quais agora não podem mais contar.”

Mesmo em tempos “normais”, o Brasil é um dos países mais violentos do mundo para mulheres. Em 2018, quase 70% das mulheres mortas no país eram negras, segundo dados do Governo Federal. Nascimento culpa o racismo estrutural e os estereótipos raciais de gênero por exacerbarem essa violência, juntamente com a pobreza e a discriminação, que também afetam desproporcionalmente as mulheres negras.

As ativistas pelos direitos das mulheres também temem que a retórica do presidente Bolsonaro, comum em uma sociedade profundamente patriarcal e racista, não apenas façam o aumento da violência contra mulheres parecer normal como aumentem os riscos para as mulheres brasileiras.

Para combater o problema, a Odara – Instituto da Mulher Negra, organização localizada em Salvador (BA), está redobrando os esforços para mudar narrativas e pontos de vista sexistas. Valdecir Nascimento, da Odara, diz: “Precisamos direcionar mensagens firmes aos homens e chamá-los a agir em solidariedade às mulheres, o que acima de tudo significa tratá-las com respeito”.

Apesar de todas as incertezas que cercam o futuro do mundo pós-coronavírus, é evidente que esta crise já está aprofundando as desigualdades pré-existentes, e que as mulheres no Brasil e no mundo todo estão sendo fortemente impactadas. 

Precisamos direcionar mensagens firmes aos homens e chamá-los a agir em solidariedade às mulheres, o que acima de tudo significa tratá-las com respeito”, diz Valdecir Nascimento, da Odara – Instituto da Mulher Negra.

 

As respostas dos coletivos e organizações têm sido rápidas e criativas. Mas até quando a proteção das mulheres poderá depender da força e do poder das próprias mulheres?

Aline Nascimento insiste que, em última instância, “para resolver os problemas crônicos e profundamente enraizados que as mulheres negras enfrentam, são necessárias ações ousadas não apenas da sociedade civil, mas também do Estado”.

*do site openDemocracy

Esta é uma versão editada de um artigo publicado originalmente no site openDemocracy. 

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