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Em 53% das cidades brasileiras, nenhuma mulher negra ocupará a Câmara Municipal em 2021

Carol Dartora é a primeira vereadora negra de Curitiba |Foto: Divulgação

Mulheres negras foram eleitas pela primeira vez em quatro capitais, mas são apenas 6% do total de vereadores, segundo análise da Gênero e Número com dados do TSE

Por Flávia Bozza Martins e Vitória Régia da Silva*

O primeiro turno das eleições de 2020 trouxe vários ineditismos referentes à presença de mulheres negras nas capitais brasileiras, mas o desafio da paridade de gênero e raça continua. As mulheres negras, maior grupo demográfico do país (28%), segundo o IBGE, foram apenas 6% dos eleitos para vereança e prefeitura neste pleito, segundo análise da Gênero e Número, feita com dados dos Tribunal Superior Eleitoral (TSE) – ainda há 20 mulheres concorrendo à prefeitura no segundo turno, sendo apenas quatro negras, em 59 cidades. Em 2.952 municípios do país, nenhuma mulher negra foi eleita à Câmara Municipal. 

“O desafio ainda é grande (…) Acreditamos que as respostas são construídas coletivamente, especialmente pelo movimento de mulheres negras. É importante visibilizar ainda mais as mulheres negras nos espaços de política institucional, além de promover estratégias materiais para que cheguem lá, expandindo financiamento, recurso financeiro e tempo de campanha das mesmas”, destaca Diana Mendes, cofundadora e coordenadora do movimento Mulheres Negras Decidem. 

As mulheres negras foram 84.418 candidatas à vereança, mas só 3.634 acabaram eleitas, representando 6% nas novas câmaras municipais. No executivo, a sub-representação é ainda pior: de 856 candidaturas femininas negras, até agora foram eleitas 209 à prefeitura, o que significa que as mulheres negras são o grupo menor representado nas prefeituras brasileiras (4%). No segundo turno das eleições municipais, são quatro mulheres negras concorrendo a prefeitura (3,57%), enquanto são 13 (11,61%) das vices na disputa. 

Segundo Mendes, é necessário estar ao lado também das candidaturas que não conseguiram se eleger. “São lideranças importantes que continuam atuando e expandindo suas lutas. E no caso das nossas representantes eleitas, é essencial acompanharmos as ações e os mandatos para garantir a segurança delas (visto o aumento da violência política) e impulsionar ainda mais seus projetos.”

Apenas seis municípios, dos 5.570, terão mulheres negras ocupando mais de 50% dos cargos de vereança. São eles: Dom Aquino/MT (67%), Santa Cruz do Arari/PA (56%), Sucupira/TO (56%), Capitão de Campos/PI (56%), Porto/PI (56%) e Rodelas/BA (56%).

“O resultado das eleições reflete a importância do trabalho de liderança das mulheres negras em seus territórios e o crescimento do tema de representatividade na agenda pública. Em 2020, a questão racial ficou evidente no contexto nacional e internacional (casos nos EUA) e foi crucial para os resultado”, afirma Mendes. “Ainda que para o movimento de mulheres negras não haja novidade nenhuma na luta. Mulheres negras se candidatam desde sempre, não existe o mito de que não estamos lá porque não nos candidatamos. O fato é que foi possível realizar ações importantes de incidência com órgãos responsáveis sobre os recursos financeiros a campanhas de mulheres e negros, além de impulsionamento de redes e estratégias de financiamento coletivo”. 

“A nossa vitória é de um simbolismo enorme, porque representa a vitória de muitas mulheres negras que vêm lutando há muito tempo para terem suas vozes ouvidas e para serem representadas. Esse espaço não nos foi dado, ele é resultado de muita luta política.  Além disso, nossa vitória também é uma denúncia desse sistema político que não nos representa. O Espirito Santo é um estado composto majoritariamente por negros, representam 66% da população do Estado e na capital não é diferente. Nunca elegemos uma mulher negra em 32 anos de constituição democrática”, ressalta a vereadora eleita Camila Valadão (PSOL/ES) em entrevista à Gênero e Número. 

Com 5.625 votos, Camila Valadão foi a segunda vereadora mais bem votada de Vitória. Junto com Karla Coser (PT/ES), que se autodeclara parda enquanto Camila se autodeclara preta, ela vai será uma das duas mulheres a compor o novo plenário, formado por outros 13 homens. Em Vitória, as mulheres são 13% e negros 53% da Câmara Municipal. 

A vitória de Camila Valadão era bastante esperada, já que a vereadora recém-eleita também foi candidata à vereança em 2016. Apesar de ser a quinta mais votada na cidade, na época não foi eleita devido ao coeficiente eleitoral. “Foi como um grito entalado na garganta. Sou a primeira, mas seguramente não serei a última. Muitas outras virão, precisamos avançar em ter mais mulheres negras no espaço de poder. Em Vitória elegemos duas vereadoras, já é um avanço porque tínhamos apenas uma há décadas. Temos hoje duas, já é uma vitória, mas ainda muito pequena perto do que desejamos”, destaca Valadão. 

Desigualdade de gênero e raça nas eleições 2020

Enquanto homens brancos são 59% dos prefeitos eleitos, mulheres negras são apenas 4%; 20 mulheres estarão na disputa do Executivo no segundo turno

negra(o)s

branca(o)s

candidata(o)s

eleita(o)s

Câmaras

de vereadores

negra(o)s

branca(o)s

Candidata(o)s

Mulheres

6%

9%

17%

17%

38%

44%

34%

30%

homens

Eleita(o)s

Prefeituras

8%

4%

4%

8%

28%

31%

59%

55%

*Para esta análise só foram considerados negros e brancos

 

fonte tse

Desigualdade de gênero e raça nas eleições 2020

Enquanto homens brancos são 59% dos prefeitos eleitos, mulheres negras são apenas 4%; 20 mulheres estarão na disputa do Executivo no segundo turno

negra(o)s

branca(o)s

candidata(o)s

eleita(o)s

Câmaras

de vereadores

negra(o)s

branca(o)s

Candidata(o)s

Mulheres

6%

9%

17%

17%

38%

44%

34%

30%

homens

Eleita(o)s

Prefeituras

4%

8%

4%

8%

59%

28%

31%

55%

*Para esta análise só foram considerados negros e brancos

 

fonte tse

Apesar da desigualdade racial e de gênero ainda representar um desafio, este pleito trouxe importantes vitórias. Em seis capitais, as mulheres ficaram em primeiro lugar entre os vereadores eleitos. Duas delas são negras: Karen Santos (PSOL/RS) e Dani Portela (PSOL/PE). Em Porto Alegre, este pleito trouxe a eleição de quatro mulheres negras, Santos sendo uma delas, e de um homem negro (Mateus Gomes, do PSOL), que formam a inédita bancada negra na Câmara Municipal na cidade. 

Além disso, em pelo menos quatro capitais brasileiras, tivemos a eleição, pela primeira vez, de mulheres negras. Carol Dartora (PT/PR) foi a primeira mulher negra e a terceira mais votada de Curitiba, capital do Paraná. Camila Valadão (PSOL/ES) foi a primeira mulher negra eleita e a mulher mais votada da capital do Espírito Santo. Além delas, Edna Sampaio (PT/MT) foi a primeira mulher negra eleita em Cuiabá e Jô Oliveira (PCdoB/PB)  em Campina Grande. 

Em apenas 6, dos 5.570 municípios, mulheres negras serão maioria entre os vereadores

Dom Aquino (MT) será a cidade com a Câmara Municipal mais negra e feminina do país, com 67% de mulheres negras

Santa Cruz do Arari, PA

56%

Porto, PI

56%

Capitão de Campos, PI

56%

Rodelas, BA

56%

Sucupira, TO

56%

dom aquino, mt

67%

fonte Tribunal Superior Eleitoral

Em apenas 6, dos 5.570 municípios, mulheres negras serão maioria entre os vereadores

Dom Aquino (MT) será a cidade com a Câmara Municipal mais negra e feminina do país, com 67% de mulheres negras

Santa Cruz do Arari, PA

56%

Porto, PI

56%

Capitão de Campos, PI

56%

dom aquino, mt

67%

Rodelas, BA

56%

Sucupira, TO

56%

fonte TSE

Para Diana Mendes, a representatividade está além do fato de mulheres negras eleitas, é sobre mulheres negras fazerem parte da tomada de decisões e possibilitar implementações de projetos e políticas públicas de futuro para todos. “A taxa de elegibilidade de um homem branco no Brasil é cerca de 6x maior do que de uma mulher negra. Capitais como São Paulo, que não tinha nenhuma vereadora negra, têm um número agora que mais do que dobrou. Além de falarmos de vidas interseccionais, já que teremos vereadoras negras, trans, periféricas, entre outros. Poderemos construir espaços mais inclusivos por termos essa identidade, já que enfrentamos racismo, sexismo, ao lado muitas vezes da criminalização da pobreza, transfobia, lesbofobia e bifobia.”

Desafios

O sul do país também traz ineditismo. Carol Dartora (PT/PR) fez história ao se eleger como a primeira mulher negra de Curitiba. Professora de história da rede pública estadual, Dartora foi eleita vereadora com 8.874 votos. Ela foi a terceira candidata mais votada  na cidade por um dos 38 assentos do legislativo municipal. A Câmara será formada por sete mulheres (21%) e três pessoas negras (1%), sendo Dartora a única mulher negra. 

“É uma vitória muito grande, apesar de uma exclusão histórica. Curitiba é uma das capitais do sul do Brasil que mais declara ter pessoas negras, e essa exclusão não se limita ao espaço da Câmara. É uma cidade muito conservadora e extremamente racializada, que sofre com essa segregação do espaço urbano, que tem cor. Tem uma desigualdade gigantesca. Ter sido a vereadora mais votada da cidade foi muito significativo, acredito que foi o acúmulo deste debate que e alcançou mais pessoas para que tivéssemos essa resposta tão maravilhosa na urna”, conta Dartora à Gênero e Número.

Ser a primeira e única em espaços majoritariamente masculino e branco tem seus desafios. Segundo Valadão, seu mandato vai incomodar muito. “Porque os que lá estão foram reeleitos ou pertencem aos grupos políticos que se mantêm no espaço de poder de vitória. Vai ser um mandato incômodo porque uma mulher na política incomoda. Os nosso corpos incomodam, porque muito homens esperam que aquele não seja o nosso lugar. Além disso,  temos muitas propostas que confrontam a política conservadora que quer manter e perpetuar essas desigualdades”, disse. 

Para Dartora, os desafios não vão impedir de comemorar essa vitória. “Meu sentimento é muito coletivo, de um debate que vem sendo feito há muito tempo e que vem da necessidade de termos mais mulheres e mulheres negras. De superar a sub-representação dos espaços de decisão que são importantes porque são as políticas que tocam o cotidiano das nossas vidas. Fico feliz de representar tanta gente”, finaliza. 

Acesse a base de dados desta reportagem aqui

*Flávia Bozza Martins é analista de dados e Vitória Régia da Silva é repórter da Gênero e Número