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A maratona olímpica pela equidade de gênero

Foto: Flickr/The 1948 Olympics in 40 photographs

Na Rio-2016, mulheres já são quase metade dos atletas, mas ainda enfrentam obstáculos para sentar à mesa daqueles que decidem o futuro do esporte

Por Natália Mazotte

A maior competição esportiva do mundo nem bem começou e já bateu o primeiro recorde previsto: o número de mulheres. Elas representam 4.700 dos 10.444 atletas disputando 145 dos 306 eventos esportivos da Rio 2016. Isso equivale a 45,2% do total de participantes e 47,4% das provas, segundo dados do COI (Comitê Olímpico Internacional). Os dados da organização mostram que a participação feminina nos Jogos Olímpicos tem crescido expressivamente nas duas últimas décadas. Esse avanço, contudo, perde fôlego quando sai das quadras e vai para os maiores cargos da gestão esportiva.

Basta olhar para o que acontece nas federações internacionais reconhecidas pelo COI e nos comitês olímpicos nacionais (CON). Juntas, essas  estruturas definem os rumos dos esportes olímpicos, desde suas regras, passando pelo preparo de atletas e treinadores, até a articulação de políticas com governos nacionais para fazer do esporte uma plataforma social justa, inclusiva e fonte de diversidade. As federações cuidam dos esportes no nível internacional e os comitês dão suporte para os atletas e treinadores no nível nacional.

Embora as mulheres estejam próximas de alcançar a igualdade de participação nos Jogos Olímpicos, o mesmo não se pode dizer para a participação delas nos cargos que decidem o futuro dos esportes que elas praticam. Essas assimetrias ficam claras no levantamento que o Gênero e Número fez sobre os cargos mais importantes das federações e comitês olímpicos.

A primeira delas está nos cargos dos conselhos executivos das federações internacionais — como a Federação Internacional de Natação ou de Voleibol. Apenas cerca de um quarto deles é ocupado por mulheres. A proporção se repete no quadro de membros do COI: dos 90 ativos, 22 são mulheres. A assimetria é ainda maior nos dois maiores cargos das federações e dos comitês olímpicos. As mulheres ocupam 15% das secretarias-gerais, e, na presidência, a participação masculina é quase absoluta. Mais de 95% dos cargos são ocupados por homens.

Uma série de questões surgem dessa numeralha. Por exemplo: como a participação das mulheres nos Jogos avançou tanto nas últimas décadas, mas elas ainda não conseguem ocupar com o mesmo fôlego os cargos de decisão nas federações e comitês nacionais? Concretamente, o que tem sido feito para que as mulheres ocupem mais cargos de decisão nesses órgãos? Por que o movimento é tão lento? Os obstáculos dessa maratona olímpica pela equidade se confundem com a própria luta pelos direitos das mulheres.

Desde que a venezuelana Flor Isava Fonseca e a finlandesa Pirjo Haeggman se tornaram membros do COI, em 1981, a organização vem abrindo espaço para a liderança feminina. Porém, essa abertura vem ocorrendo a conta-gotas — 35 anos depois de ter as primeiras mulheres em sua estrutura de governança, elas não alcançam sequer um terço do conselho executivo da organização.

A lentidão está aterrada na própria concepção do esporte e dos Jogos Olímpicos, de acordo com Silvana Goellner, professora da Escola de Educação Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). “O esporte foi pensado, produzido e criado pelos homens e para os homens”, explica a especialista em questões de gênero no esporte. “A inserção das mulheres no esporte sempre foi muito conflituosa e, desde o início das práticas esportivas e dos Jogos Olímpicos, elas precisaram lutar muito para pertencer a esse espaço.”

Suor por um espaço à mesa

Atletas como a francesa Alice de Milliatt simbolizam essa luta. Ela organizou os primeiros Jogos Olímpicos femininos em 1922, em Paris, em protesto e para pressionar o COI a aceitar equipes femininas de atletismo. Ações como a de Alice ajudaram a quebrar esteriótipos e preconceitos que remontam à visão que Pierre de Coubertin, fundador dos Jogos Olímpicos da Era Moderna, tinha para o maior evento esportivo do mundo: “uma olimpíada com mulheres seria impraticável, desinteressante, antiestética e imprópria.”

É por isso que o longo percurso da inclusão feminina no esporte reflete o histórico social de desigualdade de gênero no século XX. Desde que a primeira mulher participou de uma competição olímpica, em 1900, a hegemonia masculina no total de atletas nunca foi batida ou igualada. A tendência só começou a verificar mudanças significativas há algumas décadas. Para se ter ideia, a soma do número de atletas mulheres que participaram de todos os Jogos (foram 17!) até 1972, em Munique, foi 5.449. Só a participação masculina naquele ano foi de 6.075 atletas, de acordo com os dados do COI.

Daí a sensação de que a mudança é lenta, num ritmo que é ditado pelas décadas. Apenas em 1995, às vésperas do centenário dos Jogos Olímpicos da Era Moderna, o COI inaugurou a Comissão Mulheres no Esporte. O novo organismo passou a emitir diretrizes mais claras para diminuir as desigualdades de gênero, atuando junto às entidades esportivas nacionais para ampliar o número de mulheres nos Jogos. No ano seguinte, centenário olímpico, o COI realizou a primeira Conferência sobre Mulheres e Esporte.

Os Jogos de 1996 foram marcantes não só pelo centenário da Olimpíada da Era Moderna. Com tantas medidas estruturais que antecederam  o evento de Atlanta, não se trata de uma feliz coincidência que aquela edição tenha recebido 808 mulheres a mais que  Barcelona-1992. Foi o maior salto no número absoluto de mulheres de uma edição para outra em toda a série histórica. A inauguração da Comissão Mulheres no Esporte ilustra a importância da criação de ações afirmativas para promover uma maior igualdade de gênero.

A onda de efeitos que resultaram numa maior participação feminina nos Jogos não parou em 1996. Em Londres-2012, os três Comitês Olímpicos Nacionais que nunca haviam enviado uma representante feminina — Arábia Saudita, Qatar e Brunei — deixaram a triste marca para trás. Esse também foi o ano em que as mulheres disputaram pela primeira vez todas as modalidades esportivas, com a inclusão do boxe feminino. As pugilistas foram aos Jogos, mas competiram em apenas três categorias contra dez disputadas por eles, e no total de eventos, foram distribuídas 30 medalhas de ouro a menos para as competidoras.

Os números mostram que a média de participação das mulheres em Jogos Olímpicos deve alcançar a igualdade nos Jogos de Tóquio-2020, como projetado pelo COI. Mas por que, embora a participação feminina seja maior do que nunca nas Olimpíadas, as funções de liderança no esporte continuam sendo tão pouco ocupadas por elas?

A resposta passa por algo que as mulheres enfrentam todos os dias: desconstruir estruturas concebidas e dominadas por homens há mais de um século. Desde seus primórdios, os Jogos Olímpicos foram erguidos sobre uma base claramente refratária à participação feminina. Seu idealizador, Pierre de Coubertin, chegou a declarar em 1912 que o evento deveria ser reservado para a exaltação solene e periódica das capacidades atléticas masculinas.

“Estamos lidando com uma estrutura antiga que sempre manteve as mulheres de fora, e isso precisa mudar — o COI foi iniciado por homens há mais de um século, e apenas quando há crises ou atividades direcionadas conseguimos mudar as oportunidades”, explica Donna de Varona, ex-nadadora norte-americana que levou pra casa dois ouros nos Jogos de Tóquio, em 1964, e atualmente é integrante da Comissão Mulheres no Esporte do COI. Ela reconhece que o maior desafio hoje é dar mais espaço às mulheres nas funções decisórias da administração esportiva. “Sim, o último lugar em que precisamos avançar é o da liderança no esporte”, afirma a ex-nadadora.

Existem políticas de inserção feminina na estrutura decisória do COI no papel, mas há dificuldade para serem implementadas. Sua efetividade é, no mínimo, questionável. Apesar de determinar que pelo menos 20% dos cargos decisórios nos Comitês Olímpicos fossem ocupados por mulheres até 2005, mais de dez anos depois nem 25% deles cumpriram a meta.

O Estatuto Olímpico do COI define que um dos papéis da entidade é “estimular e apoiar a promoção das mulheres em todos os níveis e estruturas esportivas, com vistas a aplicar o princípio da igualdade entre homens e mulheres”. Embora as federações esportivas internacionais e os comitês olímpicos nacionais, para participarem nas competições olímpicas, precisem estar em conformidade com esse estatuto, não há registros de suspensão de modalidades ou comitês pelas assimetrias de gênero que mantêm.

Encontro do Conselho Executivo da Federação Internacional de Natação. Crédito: Reprodução/FINA
Crédito: Reprodução/FINA

No entanto, entrar numa lógica de suspensões pode acabar prejudicando as próprias atletas. “Já tivemos essas discussões [sobre as suspensões], mas acreditamos que premiar pessoas e organizações que fazem um trabalho melhor, olhar as estatísticas sobre como eles fazem seu trabalho e dar metas é a melhor maneira de ter resultados”, diz Donna. “Se você suspende uma delegação ou exclui um esporte, você está punindo também as atletas — preferimos encorajá-los reforçando os exemplos positivos”, argumenta.

O lugar da mulher no esporte

A desconstrução também precisa ser de estruturas e visões internas, de acordo com Silvana, da UFGRS. “As próprias atletas nem sempre se enxergam nesses espaços de poder, é preciso quebrar os paradigmas estabelecidos do lugar da mulher no esporte.” Regras mais exigentes em prol da inclusão, como as cotas para mulheres na direção do esporte, embora não garantam a equidade nas entidades esportivas, podem gerar resultados mais expressivos, de acordo com a pesquisadora.

Silvana explica que existem representações práticas e discursos associados ao masculino ou ao feminino, e o esporte não fugiria disso. “Quando um menino ou uma menina resolve fazer uma prática esportiva, essas representações estão impregnadas na sua opção”, explica. “Nos esportes de alto rendimento, foram os homens que sempre ocuparam os lugares decisórios, e isso por si só em um empecilho para que as atletas possam ascender de uma forma mais igualitária, um obstáculo com forte componente cultural”, observa.

Apesar de não ser consenso, o tema das cotas femininas acumula exemplos positivos. Na França se consolidou a prática de reservar às mulheres vagas nos cargos decisórios do esporte. As cotas são estabelecidas em regras federais (federações, ligas e sociedades esportivas), e, em nível nacional, o número de mulheres em comitês executivos deve ser proporcional ao número de mulheres atletas federadas. A própria União Europeia estabelece, como diretriz para seus Estados-membro, que condicionem a autorização e a subvenção de associações esportivas a dispositivos estatutários que garantam uma representação equilibrada de mulheres e homens em todos os níveis e em todos os cargos de decisão.

A força do esporte para implodir representações de masculino e feminino e romper com práticas sexistas é reconhecida, e antes da Rio 2016, feministas francesas advogaram junto ao COI pela exclusão de delegações de países árabes que mantêm um “apartheid das mulheres nos esportes”, do mesmo modo que a África do Sul foi proibida de participar no período em que manteve o apartheid racial. Enquanto diretrizes como essas não são postas em prática, a maratona olímpica pela equidade continua, celebrando Jogos Olímpicos onde  o progresso e as desigualdades coexistem.

Natália Mazotte é jornalista e codiretora do Gênero e Número

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