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Mais pessimistas, mais insatisfeitas e mais à esquerda: as mulheres nestas eleições, segundo o Ibope

Manifestação do movimento #EleNão em São Paulo | Foto: Mídia Ninja

Pesquisa constata maior resistência das mulheres a Jair Bolsonaro (PSL) e maior disposição delas para votar em Fernando Haddad (PT); elas também disseram ter votado mais do que os homens em candidatos da esquerda e da centro-esquerda no primeiro turno. Para pesquisadora, dados se relacionam com a experiência cotidiana das mulheres com políticas públicas

Por Carolina de Assis e Marília Ferrari*

A parcela de mulheres que pretende votar no presidenciável Fernando Haddad (PT) no dia 28, data do segundo turno das eleições, é maior do que a parcela de homens com a mesma intenção. Já a proporção das que pretendem votar em Jair Bolsonaro (PSL) é menor do que a de homens na mesma situação. No primeiro turno, elas votaram mais do que eles em candidatos de esquerda e centro-esquerda – Haddad, Ciro Gomes (PDT) e Guilherme Boulos (PSOL) – e também deixaram mais do que os homens para a última hora a decisão sobre o voto.

Estes são dados da mais recente pesquisa do Ibope, realizada nos dias 13 e 14 de outubro, uma semana após o primeiro turno, e divulgada nesta segunda-feira (15/10). Além das intenções de voto em cada candidato, as pesquisas eleitorais também trazem pistas das diferentes posições políticas de grupos de eleitores a partir de diversos recortes, como gênero, renda, cor/raça, idade, escolaridade e religião.

A divisão entre as respostas de mulheres e de homens ao questionário do Ibope aponta para uma maior resistência delas a Bolsonaro, que teve a maior proporção de votos no primeiro turno (46%) e lidera a corrida para o segundo turno, de acordo com a mesma pesquisa (52% contra 37% de Haddad, no total).

A diferença entre a intenção de voto das mulheres e a dos homens no candidato do PSL é de 12 pontos percentuais – 58% dos homens dizem que vão votar nele no dia 28, enquanto 46% delas dizem ter a mesma intenção. Elas também aderem menos a Bolsonaro do que os homens (35% delas disseram que “com certeza votariam” no candidato, contra 48% deles) e o rejeitam mais (39% delas disseram que não votariam nele “de jeito nenhum”, enquanto 30% dos homens disse o mesmo). O PSL também é o único partido mais rejeitado por mulheres do que por homens – 8% delas e 6% deles disseram que não votariam “de jeito nenhum” no partido de Bolsonaro.

Pretendem votar em Haddad no segundo turno 40% das mulheres e 33% dos homens entrevistados. Elas rejeitam menos o candidato do que eles – 29% das mulheres e 27% dos homens disseram que “com certeza” votariam no petista, enquanto 51% deles e 43% delas disseram que não votariam “de jeito nenhum” em Haddad. A rejeição ao PT também é menor entre mulheres (40%) do que entre homens (44%).

Fátima Pacheco Jordão, socióloga do Instituto Patrícia Galvão e especialista em pesquisas de opinião, avalia que as mulheres percebem tanto a candidatura de Bolsonaro quanto o histórico de governos do PT de maneira diferente do que os homens.

“Eu colocaria como questão fundamental a total displicência da campanha do Bolsonaro e a ideologia dessa chapa em relação aos enormes avanços que as mulheres fizeram”, disse Jordão. Para ela, muitas mulheres temem perder o que foi ganho em políticas públicas nos últimos 15 anos, como a lei Maria da Penha, que estabelece mecanismos de combate e punição à violência doméstica, e a lei do feminicídio, à qual Bolsonaro se opõe.

Também conta, observa Jordão, “a percepção, por uma parcela das mulheres, de que o conteúdo de Bolsonaro é misógino ou machista”. No fim de setembro, o movimento #EleNão, impulsionado a princípio por um grupo de mulheres pelo Facebook, reuniu milhares de pessoas em dezenas de cidades do Brasil e de vários países em oposição ao candidato. Entre outras declarações antidemocráticas, Bolsonaro já disse que pretende “acabar com os ativismos”, em referência também às lutas feministas que conquistaram avanços em políticas públicas para as mulheres.

São as políticas públicas que fazem com que as mulheres estejam mais dispostas do que os homens a votar em Haddad e no PT, avalia a socióloga. “As mulheres, segundo as pesquisas que temos feito no Instituto Patrícia Galvão, são muito conscientes das políticas públicas que as beneficiam”, especialmente em relação a saúde, educação e segurança pública, diz ela. “Tem a ver com a experiência da vida cotidiana. A pessoa que conhece a escola em que o filho vai, o ambulatório, o serviço de saúde.”

Jordão avalia que enquanto Bolsonaro não tem histórico de contribuição em políticas públicas para mulheres em seus 27 anos como deputado federal, “o PT e seus aliados têm um histórico enorme” nesse sentido. “Dentro do programa do Haddad vis-à-vis o programa do Bolsonaro isso fica claro”, diz a socióloga, para quem a maior abertura das mulheres ao petista “é um residual de memória, um recall, como dizem os publicitários, de políticas voltadas especificamente para elas”.  

A experiência com os serviços públicos também está na raiz da maior insatisfação das mulheres com a vida e o maior pessimismo em relação ao futuro do país, acredita Jordão. “As mulheres conhecem os serviços públicos com mais profundidade, e obviamente os gastos e a aplicação de políticas públicas foram se deteriorando recentemente. Elas se ressentem disso sobretudo pelo dia a dia, com espera para exames, cirurgia, vagas em creches… Então tem esse aspecto da experiência concreta com o cotidiano.”

‘Indecisão’ ou atenção à escolha do voto?

Tanto a maior parte das mulheres quanto a maior parte dos homens acredita que Haddad representa melhor os interesses das mulheres, constatou a pesquisa do Ibope. Sobre esta questão, 50% das mulheres e 46% dos homens apontaram o candidato do PT, enquanto 41% dos homens e 34% das mulheres responderam que seria Bolsonaro.

A diferença de 10 pontos percentuais entre a parcela de mulheres que pretende votar em Haddad no segundo turno (40%) e a que acredita que ele representa melhor este grupo (50%) poderia ser uma “conquista estratégica” para a campanha do petista, avalia a socióloga. Esta pode também ser a fatia das mulheres que ainda não decidiram seu voto – no primeiro turno, 21% das entrevistadas pelo Ibope decidiram em quem votar para a Presidência na semana anterior ao pleito, e 15% decidiram apenas no dia da eleição.

Jordão afirma que as mulheres demoram mais para decidir seu voto porque estão mais distantes do que os homens da política partidária – historicamente excludente para aqueles que não são homens brancos com certa renda – e porque “escrutinizam mais” os candidatos e suas propostas. Para a socióloga, as mulheres não estão indecisas sobre quem votar, “elas apenas não declararam voto” para o pleito que acontece daqui a dez dias. “Elas estão esperando, aguardando” e avaliando com atenção suas opções, disse Jordão.

*Carolina de Assis é editora e Marília Ferrari é infografista da Gênero e Número.