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Histórias

Linha de frente: lugar a ser ocupado por elas

Leis recentes têm ajudado a abrir caminho para mulheres nas Forças / Força Aérea Brasileira - Divulgação

Mesmo com aumento do número de mulheres nas Forças Armadas brasileiras e mudanças relevantes nas instituições para diminuir diferenças entre gêneros, elas ainda não têm acesso à mesma formação que os homens, o que impacta diretamente na evolução da carreira militar

Reportagem: Giulliana Bianconi
Visualizações: Isis Reis

“E aí, passou em Física?” A pergunta era feita às atuais aspirantes da Marinha, no primeiro ano delas no curso de formação na Escola Naval. Era uma brincadeira, mas quase um deboche, dos colegas homens que também haviam ingressado no curso. É que no currículo dessa primeira turma de combatentes mulheres – que agora está prestes a se formar – a disciplina de Física havia sido substituída por Cultura Organizacional, como mostram as pesquisadoras Renata Giannini, Maiara Folly e Mariana Fonseca no recém-lançado estudo sobre gênero nas Forças Armadas, acessado pela Gênero e Número em primeira mão.

Aquele assunto rendeu. A Marinha justificou a mudança explicando que num primeiro momento as mulheres não precisariam desse conteúdo porque poderiam ingressar em apenas uma das três especialidades relacionadas ao combate existentes na Escola Naval, justamente aquela mais direcionada a questões administrativas, a Intendência. Mas em seguida reviu a diferenciação feita no currículo e, no segundo ano do curso, as cadetes passaram a estudar Física. Não seria a única vez que debates como esse, sobre o que podem e o que devem as aspirantes a combatentes, aconteceriam por ali.

A atuação das mulheres na linha de combate das Forças Armadas brasileiras e os limites impostos a elas nesse espaço são hoje assuntos recorrente nas corporações militares e no Ministério da Defesa. Depois daMarinha, agora é a vez do Exército Brasileiro ampliar o acesso. Após exigência que chegou em forma de lei, em 2012, para que o Exército abrisse a elas a possibilidade de ingresso na tradicional Academia das Agulhas Negras (AMAN), veio o primeiro concurso público nacional com direito a cota de 10% para o sexo feminino, em 2016. As 40 aprovadas chegaram em 2017 à Escola Preparatória de Cadetes, e miram a AMAN, onde entram no início do ano que vem sabendo que também ainda não podem tudo.

Elas não podem se preparar para missões na cavalaria, nem para atender à área de comunicação das tropas em um eventual confronto bélico. Tampouco têm acesso a treinamento com foco nas atividades exercidas pelas tropas de infantaria – as que atuam a pé ou em automóveis. Tudo isso ainda é tido como coisa só de homem. As áreas que as mulheres podem acessar, mesmo ingressando na formação para a linha de combate do Exército, são as de apoio ao combate, como a de material bélico e a administrativa – a Intendência. “Eu ouvi algumas vezes nas entrevistas de campo que fizemos nas três escolas de formação que guerra não é lugar para a mulher”, revela a pesquisadora Renata Giannini, que liderou o estudo.

As opiniões conservadoras estão por toda a parte nas escolas e em diferentes postos hierárquicos, como mostra a pesquisa. A percepção de que à mulher ainda é reservado papel de cuidadora da família, instituição extremamente valorizada pelas Forças Armadas, é dominante nas respostas dos aspirantes a cadetes e de oficiais do sexo masculino.

Mas a abertura das três principais escolas de combatentes, somada ao número crescente de mulheres nas Forças Armadas do Brasil, vem empurrado as fronteiras do debate. As restrições com que as mulheres se deparam nas escolas de formação representam limites para a ascensão na carreira militar, mais associada à figura masculina. Mulheres de todos os níveis hierárquicos das três forças armadas brasileiras somam 25.507 militares e representam atualmente 8% do total do efetivo geral, segundo dados do Ministério da Defesa.

Exército, Marinha e Aeronáutica têm uma estrutura hierárquica comum – embora patentes e postos específicos. A proporção de mulheres em relação ao todo de cada nível hierárquico de cada força – oficial general, oficial, suboficiais e cabos – é sempre baixa, mas piora consideravelmente no Exército, exatamente o último a recebê-las na escola em que acessam a formação para se tornarem combatentes. A Aeronáutica e a Marinha têm, desde as primeiras ingressantes no corpo auxiliar da Marinha, na década de 80, um histórico de maior abertura

É na camada dos Oficiais que existe um menor desequilíbrio na proporção entre homens e mulheres nas Forças Armadas – e ainda assim, em nenhuma das três Forças elas representam sequer metade do total do quadro. Além dessas desproporções da presença de homens e mulheres, há um obstáculo validado por lei na ascensão das oficiais de carreira, especialmente na Marinha e no Exército: como elas não podem receber treinamento a algumas armas específicas que são pré-requisitos para oficiais generais de última patente, já saem na desvantagem, com limite bem claro de onde poderão chegar desde o momento em que se formam oficiais nas escolas. Não por acaso dos 382 oficiais-generais apenas um é mulher.

Thomaz Gollop. Crédito: Agência Senado
Contra-almirante Dalva Mendes, única mulher oficial-general do país| Crédito:Gênero e Número

É possível que em breve as restrições à formação das mulheres na Marinha fiquem para trás. No dia em que recebeu a Gênero e Número para uma entrevista no seu gabinete, numa das áreas onde civis não entram sem uma rigorosa identificação, a contra-almirante Dalva Mendes, única brasileira a alcançar o nível de oficial-general até hoje, disse que tem pensado muito sobre onde as mulheres querem chegar e sobre como devem buscar seus espaços. Contida nos discursos sobre direitos da mulher, ela prefere sempre o argumento da meritocracia. “A essa altura já está mais do que comprovado que nós temos capacidade operativa suficiente para desempenhar funções diversas nas Forças com excelência, e isso é reconhecido por muitos colegas militares homens que se mostram favoráveis, por exemplo, ao ingresso das mulheres nos navios de esquadra, onde hoje ainda somos convidadas”, afirma.

Navios de esquadra são aqueles aptos a missões bélicas, e onde as mulheres hoje não podem fazer parte da tripulação a menos que sejam oficialmente convidadas. Já em diversos outros navios brasileiros, sejam os com fins de pesquisa, de ensino ou de cuidados médicos, as militares brasileiras já embarcam há anos.

Na Marinha, nenhuma mulher conseguiria atualmente ascender até o posto de almirante-de-esquadra, o mais alto do nível do generalato, pois apenas militares que passam pelos quadros de Oficiais de Armada ou de Oficiais de Fuzileiros Navais na Escola Naval podem avançar até a quarta estrela. Mesmo aceitas na escola Naval desde 2014, as mulheres ainda não alcançam esses quadros. Dos três corpos de combate – Fuzileiros navais, Armada e Intendentes – elas podem acessar apenas o último, onde estão concentradas as tarefas administrativas relacionadas ao front bélico. “Estive em Brasília recentemente discutindo essa presença das mulheres nos navios e as funções que podem vir a ter, pois temos no Comando da Marinha uma proposta encaminhada ao Ministério da Defesa para mudança da lei [de Corpos e Quadros]”, diz a contra-almirante.

O movimento pró-abertura total da formação às mulheres a Escola Naval está engrenando. Em abril deste ano, documento oficial da Marinha já afirmava que a ampliação da participação de oficiais e praças femininas em atividades de aplicação efetiva do Poder Naval era uma decisão tomada pelo comandante da Marinha, Eduardo Bacellar, e que até 2023 isso seria praticado. Desde que as mulheres ingressaram na Marinha, em um época em que nem se cogitava formá-las para o combate, a proporção entre mulheres e homens nas patentes mudou muito lentamente, e a presença delas em posto de capitã ou tenente, por exemplo, oscila ora para mais ora para menos.

A abertura total do Exército e da Aeronáutica ainda não tem data estimada. “Essa é uma questão que precisa considerar o amadurecimento das próprias instituições para tratar do tema, além dos estudos e das evidências que as experiências de países que já têm mulheres na linha de combate nos trazem”, diz o presidente da Comissão de Gênero do Ministério da Defesa, o brigadeiro Antônio Carlos Coutinho. “Mesmo que o Ministro da Defesa viesse a público defender a abertura total das Forças para as mulheres, não seria assim que a coisa funcionaria, pois são instituições seculares, com muitas normas, e isso causaria um desgaste que não nos permitiria avançar tanto quanto com o diálogo, que é o que tem sido feito aqui com prioridade desde 2014, quando essa comissão foi criada”, opina o brigadeiro. (GB)

Sessão deliberativa da Câmara dos Deputados. Crédito: Flickr PMDB Nacional
Aluna em treinamento na primeira turma preparatória de cadetes mulheres do Exército/ EsPCEx/Divulgação

Padrão de desempenho masculino ainda dita formação das mulheres combatentes

A competência das mulheres não está em discussão nas Forças Armadas, conforme mostra o estudo “Situações extraordinárias: a entrada de mulheres na linha de frente das Forças Armadas brasileiras”. “De modo geral, existe consenso sobre as habilidades femininas para a administração e a logística, identificadas com as funções desempenhadas pelos intendentes”, pontuam as autoras no artigo. Mas quando se fala de front bélico, o argumento de uma possível redução na eficácia de tropas e, consequentemente, o risco de comprometer a defesa nacional a partir da entrada da mulher passa a ser constante.

O cumprimento ou não de determinados índices de desempenho passa a ser um ponto crucial do debate. A diferença da força física entre homem e mulher, por exemplo, é frequentemente citada. “Carregar sacos de cimento para construir uma ponte durante uma missão das tropas de Infantaria pode ser uma atividade inviável para mulheres”, exemplifica o comandante da Escola Preparatória de Cadetes do Exército, o coronel Marcus Alexandre de Araujo, em entrevista a Gênero e Número.

O coronel tem acompanhado de perto a primeira turma de alunas a combatentes que se prepara para chegar à Academia das Agulhas Negras. “Elas se adaptaram muito bem ao longo deste ano, não tivemos qualquer problema de ordem disciplinar, e vimos ao longo desses meses elas executarem tarefas muito técnicas de igual para igual com os homens, como o tiro”, avalia. “Sentimos diferença mesmo apenas quando houve a necessidade de esforço físico muito intenso e prolongado, como marchar a pé carregando uma mochila muito pesada”, complementa o coronel.

Por ora, as mulheres que entrarem no Exército terão acesso à formação para material bélico ou para a área administrativa, também consideradas “armas” na linha de ensino bélico. Elas fazem a escolha no início do segundo ano, na AMAN. Todo o restante das armas ainda é de acesso apenas dos homens. Mas das 40 ingressantes na primeira turma três já fizeram outra escolha, a de deixar a escola, e abriram mão de seguir para as fileiras de combate. “Isso é perfeitamente normal, pois quem ingressa aqui ainda não tem perfeita noção do que são a rotina e a vida militar”, diz o coronel Araujo. Entre os homens, dos 400 ingressantes no mesmo período, 17 também decidiram por outros rumos.

Parâmetros ideais

Nas escolas de formação de combatentes, os parâmetros de segurança e eficácia para as tarefas e missões sempre foram definidos levando em conta características estudadas no gênero masculino. Mas as discussões que têm sido travadas agora é se é preciso mesmo buscar um desempenho igual para ambos os gêneros para que elas acessem todas as armas.

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“Essa é uma discussão que vemos ocorrer em diferentes países e por onde já passaram todos os países que abriram totalmente suas Forças para as mulheres. Aqui na Comissão de Gênero, em Brasília, recentemente tivemos uma reunião com esse tema central, o entendimento correto da condição fisiológica do organismo feminino submetido a situações de esforço físico intenso, e seguimos discutindo isso sempre que temos oportunidade de irmos a reuniões internacionais que tratam de gênero”, afirma o presidente da Comissão, o brigadeiro Antônio Carlos Coutinho.

Em vários países da América Latina, a discussão já foi superada e as mulheres fazem parte de todos os postos. Na Europa, também há experiências de inclusão total. Na Noruega, mulheres militares fazem parte das frentes de combate desde 1985.

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Peso dos estereótipos

Ainda não há consenso nas Forças Armadas brasileiras sobre o tema. E o peso dos estereótipos segue moldando parte das tropas atuais e futuras do país, como aponta o estudo liderado pela pesquisadora Renata Giannini. “Acompanhei várias cadetes mulheres e a maior dificuldade que eu percebi relaciona-se a justamente àquela brincadeira de mulher não saber estacionar. Há de fato uma diferente noção espacial. Elas têm mais dificuldade com exercícios de aproximação de pouso”. A declaração é atribuída a um oficial da Academia da Força Aérea que teve a sua identidade preservada. Ele foi um dos que responderam ao questionário da pesquisa de campo, realizada por Giannini e equipe do Instituto Igarapé.

Para o brigadeiro Coutinho, trata-se de ignorância emitir opiniões sobre incapacidade de as mulheres atuarem nas frentes de combate sem analisar experiências diversas e entender como se tirar o maior proveito do trabalho conjunto das tropas. Na Força Aérea há 34 anos, ele conta que já observou algumas diferenças entre pilotos homens e mulheres. “Como instrutor, anos atrás, observei que os alunos tinham uma tendência à agressividade e ao ataque maior do que as aviadoras, que demonstravam uma prudência maior, mas o ponto que sempre destaco é que se isso for mesmo característica predominante nos gêneros, mesmo que seja construída socialmente, e você conseguir unir essas diferentes características numa missão, o resultado tende a ser muito interessante, porque afinal o que a gente quer é que um piloto, homem ou mulher, esteja mordendo o calcanhar do inimigo, mas volte são e salvo para casa”, observa. (GB)

Sessão deliberativa da Câmara dos Deputados. Crédito: Flickr PMDB Nacional
Há cada vez mais alunas na escola de formação da Aeronáutica I Força Aérea Brasileira/Divulgação

Primeira a formar combatentes, Aeronáutica ainda é conservadora no debate de gênero

“Na aviação tem um caso sério. Se a mulher descobre que está grávida, é afastada do vôo. Ela pode, então, chegar a ficar dois anos fora. Ela terá que ter treinamento rígido para voltar a ser operacional. Também fazemos muitas missões fora, viajamos muito. Se ela quiser manter a operacionalidade e se destacar terá que optar por ter filho mais tarde. Por volta dos 35 anos, quando voamos menos”. A declaração é de um oficial homem da Academia da Força Aérea (AFA), que teve sua identidade preservada ao responder pesquisa do Instituto Igarapé que buscou mapear em que contexto tem se dado a entrada das mulheres na linha de frente das Forças Armadas brasileiras.

A Aeronáutica, primeira a abrir uma a escola de cadetes para as mulheres no país, em 1996, foi também a pioneira entre as três forças na formação de mulheres para uma arma de combate direto – a aviação – ainda em 2003. Tudo isso muito antes de qualquer lei prever a obrigatoriedade de inclusão das mulheres nos cursos de formação de combatentes – o que só viria acontecer em 2012. Mas mesmo quatorze anos depois do início daquela turma que sacudiu as estruturas da até então 100% masculina linha bélica do país, e com meia centena de aviadoras formadas para o combate até hoje – incluindo uma capitão que integra a equipe de pilotos do avião presidencial – as distinções dos papéis de gênero continuam a ser fortemente percebidas na instituição.

Não são apenas homens que validam uma indissociável relação entre a mulher, o papel de mãe e as atividades que se esperam dela. “Em algumas atividades pode prejudicar a força. Por exemplo, em um ambiente de guerra, como um navio afundando, mulher é a primeira a ser salva. É porque ela gera esperança. Tem que ter cuidado por ela ser mãe, tem que amamentar etc”, destacou uma cadete mulher da mesma Academia em resposta às questões da pesquisa, repetida também nas escolas de formação de combatentes da Marinha e do Exército. As entrevistas na AFA foram realizadas em 2016, quando 43 oficiais e aspirantes, homens e mulheres, participaram.

Fonte: Força Aérea Brasileira I Fotos: EsPCEx/Divulgação

Mesmo que não seja um modelo para a equidade de gênero, a Aeronáutica tem atraído cada vez mais a atenção de mulheres que se interessam pela carreira militar. Entre 2012 e 2016, contou com uma variação de 27% no número total de mulheres na corporação. Elas eram 7.751 e passaram a 9.848, de acordo com dados do Ministério da Defesa. No mesmo período, o número total de homens sofreu variação negativa, diminuindo 6%.

Atualmente, a Aeronáutica é, entre as três forças, a que conta com a maior proporção de mulheres em relação ao efetivo total – mas ainda assim elas não chegam a ocupar 15% do quadro da corporação.

Marginalizados nas Forças Armadas, LGBTs ganham holofotes com caso ITA

Se foi no reduto da Força Aérea que as mulheres exibiram pela primeira vez o uniforme de oficiais combatentes, foi ali também que ficou claro para a sociedade brasileira que o debate sobre gênero nas Forças Armadas é binário. Muito antes do protesto do engenheiro Talles de Oliveira Farias contra a homofobia, em 2016, quando foi à formatura do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA) – uma das tradicionais escolas de formação para a carreira militar – de vestido vermelho e salto alto, a militar Maria Luiza da Silva havia amargado uma dura batalha na Justiça. Ela foi a primeira transexual das Forças Armadas brasileiras a escancarar o preconceito, quando em 2000 recorreu à Justiça após receber parecer do Alto Comando que determinava seu afastamento do trabalho e justificava a decisão tratando claramente “transexualismo” como um diagnóstico que inviabilizava a sua permanência no posto de cabo da Força Aérea.

Na época do parecer, ainda com identidade civil masculina, Maria Luiza foi para a reforma, mas passou uma década buscando seus direitos até que, em 2010, numa decisão histórica, obteve vitória, com determinação para voltar aos quadros da Força Aérea, mesmo que na reserva, por questão de idade, como contou à época com detalhes o jornal Correio Brasiliense.

Thomaz Gollop. Crédito: Agência Senado
O engenheiro Talles Faria protagonizou protesto contra homofobia na formatura do ITA | Crédito:Arquivo pessoal
Em 2016, Talles tinha uma comunidade a seu favor quando decidiu ir a público protestar na formatura. O debate sobre gênero no país avançou e alunos LGBT da escola militar em Barbacena já formam inclusive a AGITA, a Associação LGBT do ITA. Ainda assim, ele, que entrou no instituto em 2012 como militar vindo da Escola Preparatória de Cadetes (EPCAR), saiu, em 2016, como civil. Talles afirma que se sentiu coagido a pedir o licenciamento do serviço ativo da Aeronáutica depois de ser repreendido por seu comportamento e por atos realizados contra a homofobia nas instalações militares. “Eu fiquei com receio de tirarem o direito de eu me formar se eu continuasse como militar, pois a todo o tempo fui repreendido por ser coerente com o que sou, por não me camuflar”, disse ele a Gênero e Número.

Em maio de 2015, depois de um ato relacionado ao Dia Nacional Contra a Homofobia, foi aberta uma sindicância interna para apurar infrações disciplinares. Para o engenheiro, aquilo soou como um alerta. “Eu havia ingressado no ITA por aspirações profissionais, lógico, e também pela possibilidade de já durante a faculdade contar com benefícios como salário e moradia, mas percebi que mesmo que eu quisesse seguir como militar e preferisse escolher mais tarde se era aquela carreira mesmo, o mais importante naquele momento era eu garantir o meu diploma, e por isso me desliguei”, afirma.

Desde o pedido de licenciamento acatado pelo ITA, Talles amadureceu a ideia de protesto na formatura. “Para parte da sociedade conservadora, isso soa como um afronta, mas para mim aquilo ali foi a forma que encontrei de mostrar que não se pode obrigar as pessoas a se encaixarem em estereótipos e que eu não concordo com esse reducionismo porque a gente precisa viver e sermos nós mesmos”.

A imagem de Talles viralizou na internet, ganhou a mídia tradicional, os blogs, foi parar num dos principais programa de domingo da maior emissora do país. O ITA se pronunciou. Pela primeira vez, tratou da acusação de homofobia publicamente. Emitiu nota em que negou ter havido pressão para o desligamento do então militar em formação, mas afirmou que “as diversas transgressões disciplinares que cometeu [o aluno] levariam a um comprometimento de sua avaliação como militar.” Entre as transgressões, a Aeronáutica citava o uso inadequado do uniforme e das redes sociais, onde teria o aluno desrespeitado símbolos nacionais.

Diferentemente de Maria Luiza, Talles Farias decidiu não travar qualquer briga na Justiça. Diferentemente dela, que já tinha 22 anos de contribuição às Forças Armadas quando foi afastada, Talles ainda estava por engrenar na carreira militar quando toda a polêmica se estabeleceu. Já distante da rotina militar, ele diz que o assunto não lhe doi, mas que definiu seus rumos. “Eu hoje exerço minha profissão de engenheiro e estou decidido a trabalhar na área de educação e a me dedicar a esse tema, estou desenvolvendo uma ferramenta que possa melhorar o debate sobre identidade de gênero no processo educacional”, conta sem dar detalhes do que vem por aí.

Nas Forças Armadas, a homossexualidade e a transexualidade são, comumente, abafadas e reprimidas, não apenas no Brasil, como pode ser corroborado recentemente com a declaração do presidente estadounidense Donald Trump, sobre a proibição de transexuais nas Forças Armadas americanas, assunto que vinha sendo tratado sob a ótica de direitos na administração de Barack Obama. Nos anos 90, os EUA já haviam instituído, com o presidente Bill Clinton, a política americana “Don´t ask, don´t tell” (Não pergunte, não conte), onde a ordem era não acatar militares que se declarassem abertamente homossexuais.

Países que não compactuam com o retrocesso no debate, como o Canadá, também têm se posicionado. Após a declaração de Trump, os militares canadenses responderam no mesmo meio usado pelo presidente americano, a rede social Twitter, com mensagem de acolhimento: “Damos as boas-vindas aos canadenses de todas as orientações sexuais e identidades de gênero. Junte-se a nós!”. (GB)

Sessão deliberativa da Câmara dos Deputados. Crédito: Flickr PMDB Nacional
Renata Giannini, pesquisadora do Instituo Igarapé I Fórum Brasileiro de Segurança pública

“Para eles, desconstruir a masculinidade é como se fosse ser um soldado pior”

Especialista em segurança internacional, a doutora em estudos internacionais Renata Giannini tem se dedicado a analisar profundamente o campo a partir de recortes de gênero. No Instituto Igarapé, onde atua como pesquisadora sênior, ela liderou nos últimos dois anos pesquisas que resultaram no recém-lançado estudo “Situações extraordinárias: a entrada de mulheres na linha de frente das Forças Armadas brasileiras”. Para a Gênero e Número, que teve acesso a dados abertos da pesquisa para a produção do reportagens sobre o tema, Giannini falou principalmente sobre desafios atuais e históricos da entrada das mulheres na linha de frente do Exército, Marinha e Aeronáutica, com uma perspectiva de quem conhece os contextos local e internacional.

GN – Desde a entrada das mulheres na reserva da Marinha, nos anos 80, até a abertura das três principais escolas de combatentes das Forças Armadas, bem mais recente, o que pesou para esse processo de mudança a favor delas?

Renata Giannini – A literatura costuma falar bastante do período da redemocratização do Brasil como um momento em que as Forças Armadas sentiram a necessidade de melhorar a imagem para a sociedade em geral. Saindo de um período de ditadura militar, com imagem bem desgastada por causa do envolvimento com várias violações dos direitos humanos. Tudo isso estava presente, e a entrada da mulher é vista também como um fator positivo. Mas depois disso, a gente teve também a nova Constituição, em 1988, buscando garantir igualdade, e isso também pesou a favor das mulheres. Mas mesmo com toda essa movimentação, a gente observa que ao longo do tempo as possibilidades de carreira são muito diferentes para homem e para mulher. Elas só puderam ingressar como oficiais ou suboficiais na década de 90, e isso definia limites de ascensão, que foram sendo questionados à medida em que as mulheres foram entrando nas instituições, prestando concurso, ascendendo e que outros países foram se abrindo. Mas havia a barreira mesmo das escolas de formação de oficiais que podem ir para o combate.

GN – Agora elas ingressaram nessas “escolas de combatentes”, e o que isso significa?

Renata Giannini – Acho importante dizer que em espanhol eles diferenciam entre escola matriz e escola de formação, e eu consigo entender melhor do que como falamos no Brasil. Em inglês, há a expressão ground combat que no fundo se refere à linha de frente, ao combate direto. Na Escola Naval, na Academia das Agulhas Negras e na Academia da Força Aérea, não são apenas para o combate direto, há também especialidades voltadas para o apoio ao combate. Por isso fala-se em linha bélica. Intendentes, de forma geral, não são combatentes (diretos), eles dão apoio ao combate. Aqui, quando você vê as propagandas que temos a respeito do assunto, sobre as mulheres que estão entrando, fala-se em mulheres combatentes, mas na verdade elas darão o apoio ao combate. Quando uma mulher passa por uma escola de formação de oficiais, como a AMAN, podem fazer outros cursos, em lugares como a Escola de Comando e Estado-Maior o Exército, e essa trajetória é importante para ela, lá na frente, se tornar general. Então se elas entram nessas escolas, elas vão realmente ter condições de ascender mais.

GN – A entrada das primeiras turmas de mulheres, seja na década passada, na Aeronáutica, ou agora em 2017, no Exército, carrega muitas questões e polêmicas que aparecem no estudo que você conduziu, afinal não era só uma questão de abrir as portas, não?

Renata Giannini – Sim! Na Força Aérea, a primeira turma de mulheres aviadoras, em 2003, teve muita coisa. Eu conversei com algumas mulheres que são da primeira turma e elas falam que evitavam ao máximo a diferenciação e que aquele primeiro momento foi muito ruim. Primeiro porque o ingresso foi separado, homens e mulheres entraram separados, e segundo porque era a primeira vez que a mulher estava naquela posição de combate, o que atraiu muito a atenção. Elas mesmas contam que eram tratadas como ‘estrelinha’ e isso gerava um problema entre colegas muito grande. No final do dia, o bullying e essas coisas que parecem menores são o grande desafio para elas continuarem ou não nas Forças Armadas. É o dia a dia. É ter que aguentar, numa idade tão jovem, uma série de pressões.

GN – Um ambiente de pressão e predominantemente masculino…

Renata Giannini – Quando vc anda pelas escolas, você vê que as mulheres são poucas. É visual. E isso chama muito a atenção. E uma coisa que acho muito interessante na fala dessas mulheres entrevistadas [na pesquisa] é que elas dizem que como elas são poucas, qualquer coisa que elas fazem chama muito a atenção. ‘Fulana está hoje falando com fulano e amanhã está conversando com outro: ‘ah, ela tá dando mole para dois caras!’. Essa percepção delas aparece em quase em todas as entrevistas, isso de o comportamento de uma ou de outra se tornar representativo de todas as mulheres.

GN – Essa entrada das mulheres na aviação, que marcou o acesso delas a uma arma de combate, pressupõe mesmo igualdade? Esse acesso a armas coloca o debate num outro nível?

Renata  Giannini – Acho que sim, pois justamente estamos falando da última fronteira. Por que estudar gênero nas forças armadas? Existem muitos estereótipos, muitos construções sobre o que é ser homem, o que é ser mulher, e não existe nenhum outro lugar fora das Forças Armadas onde esse estereótipo do que é ser homem se encaixe tão bem. É a força. Então a mulher entrar ali [na aviação de guerra], diante desse papel de gênero que foi historicamente construído para elas como sensível, é quase como um embate dessa feminilidade tal qual nos construímos. Então considero esse um passo importante.

GN – Leis, maior número de mulheres na carreira militar, isso tudo ainda não garante que não haverá sexismo ou violações. Qual o caminho para se avançar nisso, na sua opinião?

Renata Giannini – Uma lei não significa mesmo que todos os desafios estarão superados, mas você ter uma legislação que respalda vai significar melhoras no geral. A novas gerações [de militares] também estão ajudando nesses debates. Eu vejo como uma questão de tempo.

GN – Mas no estudo você pontua que a França, que tem uma alta abertura às mulheres, enfrenta problemas sérios de assédio sexual

Renata  Giannini – Sim, na França houve muito assédio, assim como na Austrália, onde se identificou quase uma “epidemia”. Mas já mudou muito. A a atitude desses países foi exatamente abrir sindicância e apurar os casos, confrontar com a legislação e, a partir disso, buscar melhorar a legislação. Então eles abriram para investigar, para descobrir. Mas infelizmente o que acontece ainda nesses casos de violação, indiscriminadamente, é que as Forças Armadas tendem a esconder. Aqui no Brasil, um dos nossos problemas é que a legislação não dá conta de crimes como assédio sexual.

GN – Aqui no Brasil a entrada das mulheres nas escolas foi cercada de cuidados, distâncias, normas rígidas. que você ouviu sobre isso?

Renata Giannini – Eu ouvi bastante nas entrevistas que as mulheres não podem ser permitidas em alguns acessos para protegê-las. Mas me parece um absurdo você impedir a entrada de uma mulher num determinado ambiente ou arma porque vc acha que o direito dela vai ser violado. Então você usa o argumento de uma possível violação e termina violando o direito do acesso? E foi interessante que fomos até a Escola Preparatória de Cadetes da Aeronáutica, em Barbacena, e lá quem ingressa depois pode entrar direto na AFA. E os oficiais diziam: ‘aí o bicho pega , pois elas são meninas. Tem o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente)’.

GN – Nessas escolas, o que mais você escutou?

Renata Gianini – Parte-se da ideia de que mulher não deve estar na guerra. Mas já que tem que estar, por mil razões, a quantidade de frases que denota uma postura misógina é enorme. Ouvi algumas assim: ‘Mas imagina você ser comandado por uma mulher? Não dá.’ e ainda: “Porque sei que se ela for pega por um inimigo, o que vai acontecer com o restante das tropas?. Eles vão todos estar preocupados em protegê-la, e nao em cumprir com a missão”. Eu entendo que tudo isso é porque eles estão vendo a mulher não como uma colega, nao como uma profissional, mas como mãe, aquela imagem construída, que não se encaixa na guerra.

GN – Dentro das escolas você percebia que as mulheres se sentiam livres?

Renata Giannini – Tem uma pesquisadora, a professora Emilia Takahashi, que fez tese de doutorado sobre as primeiras mulheres que ingressaram nos quadros de Intendência. E ela fala como essas mulheres tiveram que se masculinizar para serem aceitas. E isso era bem comum nas opiniões que eu ouvia nas escolas também, durante as entrevistas, mulheres falando coisas como: “a gente faz intendência porque não dá pra eu ser da infantaria”. Elas mesmas incorporam esse discurso, mas destaco que, assim como há mulheres pensando assim, há homens que não têm esse discurso, não..

GN – Mas você viu mulheres reclamando do quanto elas são obrigadas a seguir esse um padrão de feminilidade?

Renata Giannini – As oficiais que foram entrevistas nessa parte de carreira falaram muito sobre isso. Algumas diziam que adorariam que o marido ajudasse mais com os filhos. A mulher ainda tem um papel diferenciado com a família, com os filhos, então para elas é, sim, um desafio. Uma delas me contou que teve que ficar uma semana fora e preparou um calendário de atividades, mas o marido levou a filha para a natação quando era balé. Então elas contam essas histórias mostrando como isso, no final, afeta a carreira delas. Elas falam sobre a dificuldade do homem militar assumir o papel de quem cuida da casa. É sobre reconstruir mesmo o modelo de masculinidade. E aí as Forças armadas, onde a gente fica falando tanto de força física, esse modelo de masculinidade é reforçado. Precisamos falar não só sobre o avanço, sobre o quê as mulheres podem conquistar, mas sobre como desconstruir a masculinidade. Sim, e é muito difícil, pois para eles desconstruir a masculinidade é como se fosse ser um soldado pior.

GN – Ao longo do estudo, fica evidente que à mulher é reservado ainda um papel de cuidadora e de mãe. Você chegou a ouvir claramente que guerra não é espaço para a mulher?

Renata Giannini – Sim, ouvi bastante. Mas também notamos que aqueles que já estiveram em missões com contingentes mistos ou que já tiveram a oportunidade de conversar com militares de outros países, são bem mais abertos à ideia e geralmente mudam a forma de pensar.

GN – São as referências, então, que pesam?

Renata Giannini – Referências. Precisamos muito disso nesse debate. Praticamente em todas as entrevistas foi citada a militar americana que deu entrevistas falando que Forças Armadas não é lugar de mulher. Eles conhecem essa referência muito bem. Mas a coronel-infante norueguesa que eu conversei, que comandou tropas na bósnia, eles não sabem que é. Preferem as referências que reforçam os estereótipos (GB)