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Entre os homens que cuidam de filhos e parentes em casa, os com maior escolaridade cuidam mais

Cerca de metade dos homens e das mulheres afirmam que cuidam de crianças entre 0 e 14 anos, segundo a PNAD | Foto: Adytia Bose / Divulgação

Pesquisadora analisa que ainda há vazio no debate sobre o lugar das masculinidades em comparação com os avanços de estudos feministas que reorganizaram o lugar das mulheres na sociedade 

Por Aline Gatto Boueri*

Isso que dizem ser amor é trabalho não-remunerado”. A frase, da filósofa feminista italiana Silvia Federici, está escrita nos muros das grandes cidades, escancarando uma questão de gênero. Da porta para dentro ainda não está claro como resolver a equação para equilibrar entre homens e mulheres a divisão de tarefas domésticas e, particularmente, o tempo dedicado ao cuidado com os filhos.

No Brasil, dados do relatório sobre outros tipos de trabalho da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD- Contínua/IBGE) apontam que 26,1% dos homens realizam tarefas de cuidado não-remuneradas com moradores da casa ou parentes. Para mulheres, a taxa é de 37%. Homens brancos são as pessoas que menos dedicam seu tempo ao cuidado não-remunerado, seguidos muito de perto por homens negros. Na outra ponta, mulheres pardas são as que mais se dedicam a esse tipo de tarefa. 

Ainda que o total de mulheres que se dedica ao cuidado não-remunerado seja superior ao dos homens, entre as mulheres, as brancas são as que menos realizam essas tarefas.

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Homens cuidam, mas realizam menos tarefa

Cerca de metade dos homens e das mulheres afirmam que cuidam de crianças entre 0 e 14 anos. Segundo a PNAD, 51% dos homens e 50,6% mulheres realizam tarefas de cuidado com crianças de zero a 5 anos, enquanto 51,3% dos homens e 50,9% das mulheres afirmam cuidar de crianças e adolescentes entre seis e 14 anos. O dado refletem respostas instantâneas dos entrevistados.

Quando esses cuidados são especificados, mulheres voltam a superar homens em todas as tarefas. A atividade que os homens mais realizam é “ler, jogar e brincar”. 73,7% dos que afirmam realizar tarefas de cuidado reconhecem que participam desses momentos. Para as mulheres, a taxa é de 77%. Já o auxílio em atividades educacionais recai sobre elas: enquanto 72% de mulheres afirmam realizar esse trabalho, 60,7% de homens fazem o mesmo.

Daniel Costa Lima é pai de Francisco – sua principal atividade -, psicólogo, mestre em saúde pública e consultor no campo de gênero, masculinidades, paternidade e cuidado, e escreve uma coluna online sobre o tema. Para ele, que circula em um ambiente bastante progressista, existe hoje algum constrangimento entre homens em dizer que não se envolvem no cuidado de filhos e filhas, mas isso ainda não é suficiente para uma equidade radical nas tarefas em casa. “Existe uma estratificação de gênero para esse cuidado. Os homens tendem a brincar mais com os filhos, sair, fazer atividades de lazer, mas atividades como cuidar da saúde, cozinhar, cuidar da roupa, que demandam uma carga horária muito grande e são atividades constantes – a comida é todo dia, cinco vezes por dia, no caso de crianças -, esse tipo de cuidado acaba ficando, principalmente, com as mulheres”, reconhece.

Classe, raça e paternidades

Homens que possuem ensino superior completo são os que mais afirmam cuidar de parentes, enquanto os que não têm instrução ou possuem ensino fundamental incompleto são os que menos dizem realizar tarefas de cuidados.

Para o historiador Luciano Ramos, especialista em políticas públicas para a infância pelo Núcleo Latino-americano da Universidade de Harvard e consultor de programas do Instituto Promundo, homens que realizam trabalhos que exigem menor especialização, principalmente trabalhos braçais, enfrentam dificuldades específicas na hora de compartilhar as tarefas de cuidado. “Homens que trabalham como pedreiros, na construção, em algum trabalho que envolva risco, não podem cochilar, às vezes sequer piscar, durante sua jornada de trabalho. Isso é mais difícil depois de passar uma noite em claro com um bebê”.

Para os homens periféricos que trabalham com vínculos empregatícios, Ramos defende que haja maior sensibilização das empresas e do Estado, com políticas públicas, que incentivem o exercício da paternidade cuidadosa, como licenças-paternidade pagas e adequadas para estimular a maior participação no cuidado dos filhos recém-chegados à família. 

Por outro lado, para homens que trabalham de maneira informal, Ramos acredita que os Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) podem ser uma porta de entrada para incluí-los no debate sobre participação na vida dos filhos, assim como a conformação de grupos e rodas de conversa. Ele aposta também na formação de lideranças comunitárias a partir de uma nova leitura sobre masculinidades para ampliar o alcance do debate sobre paternidade cuidadosa.

Ele destaca que ao falar sobre paternidades e cuidado com crianças é necessário olhar também para questões de raça e classe. “Falar sobre paternidades para a classe média é muito mais fácil. São homens que conseguem chegar em casa mais cedo, não estão cansados fisicamente e ainda conseguem participar um pouco da vida desses filhos, também porque são privilegiados.”

Lima observa que é não é possível dissociar o desejo de exercer uma paternidade mais cuidadosa dos privilégios que permitem esse exercício a parte dos homens. “Essa paternidade envolvida, da qual a gente tanto fala, é pra quem quer ou é pra quem pode? Não é somente uma questão pessoal, ainda que seja óbvio que é preciso haver o desejo de participar do cuidado de filhos e filhas. Mas muitos homens que desejam não conseguem. Homens trabalhadores, que trabalham sete dias por semana, na informalidade, muito longe de casa, que são homens negros – e também é a realidade de mulheres negras – têm menos possibilidade de estar com filhos e filhas.”

Para o consultor do instituto Promundo, a vulnerabilidade que homens pretos experimentam tem influência na forma como educam seus filhos. “O preto periférico tem que criar um repertório enorme para lidar com o racismo com que seus filhos vão conviver. E muitas vezes esse homem preto não tem esse repertório e isso gera sofrimento. Ele é vulnerável e o filho dele vai aprendendo que o fato de ser preto também faz dele um alvo.”

A doutora em Sociologia das Organizações pela Universidade de Sophia e pesquisadora da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Carmen Migueles avalia que a vulnerabilidade de homens negros também amplia a vulnerabilidade de mulheres negras. “Homens negros têm a maior taxa de evasão escolar, a maior taxa de mortalidade, a maior distorção entre idade e série. Isso está ligado à questão de como a masculinidade foi pensada nas famílias negras. Ainda não temos estudos abrangentes sobre isso, mas é possível que seja um resquício da violência da escravidão. As famílias eram vendidas, então esses homens negros nunca pensaram de fato esse papel masculino na casa”.

Nas famílias mais pobres estão as maiores taxas de abandono paterno, de violência doméstica com mulheres e crianças, e isso reproduz um papel desse homem negro, que aprendeu a ser homem dentro desse contexto.  “A mulher negra fica muito mais vulnerável porque ela precisa prover e cuidar dos filhos”, elabora a pesquisadora.

Os homens encontraram essa mulher que se redescobriu de inúmeras formas e que reivindica uma série de direitos e o homem não sabe que discurso masculino deveria ser produzido em relação a isso. Há todo um corpus de sociologia feminista, de emancipação das mulheres, revistas femininas que discutem essas micro relações desde a década de 50, mas esse locus de discussão da masculinidade, socialmente, para dar suporte aos indivíduos, ele está vazio.

— Carmen Migueles, pesquisadora”

Para Migueles, no entanto, há ainda um vazio no debate sobre o lugar das masculinidades em comparação com os avanços de estudos feministas que reorganizaram o lugar das mulheres na sociedade ao longo dos dois últimos séculos. “Os homens encontraram essa mulher que se redescobriu de inúmeras formas e que reivindica uma série de direitos e o homem não sabe que discurso masculino deveria ser produzido em relação a isso. Há todo um corpus de sociologia feminista, de emancipação das mulheres, revistas femininas que discutem essas micro relações desde a década de 50, mas esse locus de discussão da masculinidade, socialmente, para dar suporte aos indivíduos, ele está vazio.”

O documentário “O Silêncio do Homens”, a ser lançado em breve pelo Papo de Homem, é um mergulho no universo masculino a partir dessa percepção de que falta espaço para homens discutirem questões de gênero nos seus círculos sociais.  Durante um ano, 32 pessoas trabalharam para entrevistar, analisar dados e produzir um filme. Entre os principais achados da pesquisa está o fato de 7 em cada 10 homens enfrentar algum distúrbio emocional.

Luciano Ramos, que participa de rodas de conversas com trabalhadores da construção civil e participa, pelo Instituto Promundo, de um projeto que debate paternidades e masculinidades em favelas do Rio de Janeiro, defende que é preciso trabalhar essas questões de maneira específica com homens periféricos. “Com esses homens, a gente vivencia uma norma rígida de gênero, onde o homem não é o cuidador, ele é o provedor. Mesmo depois de políticas como o Bolsa Família, que coloca a mulher no centro, a gente observa que existe a ação, mas não a mudança de paradigma na norma de gênero. Esses homens não saíram do lugar de provedor porque a eles também é cobrado estar nesse lugar. E eles também se cobram isso, dentro desse modelo de masculinidade que a gente tem imposto na sociedade brasileira.”

*Aline Gatto Boueri é jornalista e colaboradora da Gênero e Número.

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