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“Gênero fantasma”: o desafio de classificar os dados de gênero da política

Passadas as eleições para as câmaras municipais, já havia dados disponíveis para demonstrar os avanços ou retrocessos no número de mulheres nos espaços políticos em 2016. Essa é a segunda disputa em nível municipal depois da vigência da Lei das Eleições, que determinou uma cota de ao menos 30% para candidaturas de cada sexo. Na prática, essa cota buscava incluir mais mulheres na disputa eleitoral.

Os números obtidos nas urnas permitem uma análise da sua eficácia: afinal, as mulheres estão realmente na disputa? Para a reportagem “Partidos recorrem a candidatas ‘fantasmas’ para preencher cota de 30% para mulheres“, baixamos os resultados eleitorais do repositório do TSE e verificamos as informações sobre os candidatos. Para obter o número de mulheres e homens sem nenhum voto, excluímos os casos em que a votação dos candidatos é anulada e aparece como zerada, mesmo que tenham sido votados. É o caso, por exemplo, de candidaturas aptas e indeferidas com recurso ou cassada com recurso.

Os dados do TSE trazem as votações recebidas por cada candidato em cada zona eleitoral, e o tamanho do arquivo extrapola o limite de processamento de softwares de planilha comuns (Google Spreadsheet, Libre Office, Excel). Então consultamos em SQL (a sigla para o que em português chamamos de Linguagem de Consulta Estruturada) os candidatos zero voto reunindo todas as zonas eleitorais.

Essa base não apresentava a coluna “sexo”, um desafio que já se tornou bastante comum para nós, da Gênero e Número. Embora o TSE tenha essa informação em seus registros, ela não está presente em todas as suas bases. Análises de gênero nem sempre são possíveis por essas limitações. Ou seja, apenas com a planilha de resultados do TSE não teríamos como separar homens e mulheres. Contudo, a base trazia o nome e o número sequencial dos candidatos, algo que usamos para importar os dados de sexo da base de candidaturas.

A partir daí, com o recorte de candidatos homens e mulheres sem voto nas eleições de 2008, 2012 e 2016, chegamos ao que queríamos checar: a cota impulsionou as candidaturas femininas, mas além de não alterar o quadro de eleitas, levou os partidos a criarem uma nova categoria de candidata, as “fantasmas”, que são convidadas e convencidas a entrar nas chapas, mas efetivamente não entram na disputa, não fazem campanha, não recebem apoio ou sequer dão a si mesmas seus votos.

Homens ou mulheres? Gênero na composição partidária

A baixa representação feminina na política tem origem nos partidos, onde elas também são minoria, especialmente se olharmos estruturas partidárias como o Diretório e a Executiva nacionais. E foi o que fizemos.

A primeira dificuldade, nesse caso, é que o TSE não dá uma base consolidada dos membros dos diretórios e das executivas. O que temos disponível é um sistema de consulta com informações registradas pelos partidos – o Sistema de Gerenciamento de Informações Partidárias (SGIP). Nele podemos verificar a composição dos órgãos partidários, e elas nem sempre estão totalmente atualizadas.

Criamos um raspador em Python para obter a composição de todos os diretórios e comissões executivas nacionais dos partidos do SGIP e jogamos no Google Sheets. O segundo problema: mais uma vez, não tínhamos dados de gênero. Eram mais de 5600 nomes, como classificá-los por homens e mulheres manualmente?

A segunda etapa com essa base foi encontrar um dicionário de nomes na língua portuguesa que tipicamente eram associados aos sexos feminino e masculino. Usamos esse dicionário como uma base inicial de consulta para atribuir gênero aos nomes raspados do SGIP. Esse dicionário inicial mostrou-se incompleto. Usamos um filtro para classificar, manualmente, os nomes que não constavam no dicionário e aqueles em que não era possível determinar o gênero apenas pelo seu uso comum. Nesses casos, fizemos pesquisas na web para verificar quem eram os candidatos. Não identificamos 17 dos 5662 nomes, o que representa 0,3% do total, uma quantidade inexpressiva nas nossas análises.

Com essa base fizemos uma primeira análise da proporção entre mulheres e homens nos partidos. Alguns casos acenderam um alerta – por exemplo, a Erundina, que foi candidata pelo PSOL à prefeitura de São Paulo, ainda aparecia como membro do diretório do PSB. Depois de checar com o TSE, tivemos a certeza de que nem todos os dados ali estavam atualizados. Então decidimos separar os dez partidos com maior representatividade no Congresso Nacional e checar os nomes em todos eles.

A tendência dos dados se mantinha a mesma por partido, a baixa presença feminina nos cargos decisórios dentro da máquina partidária estava comprovada, e ouvimos mulheres dentro dos partidos para entender o que isso representava, na prática.

Em todas as pautas, a preocupação se mantém a mesma: ir dos dados à escuta, porque os números precisam ser checados e precisam de contexto, e eles sozinhos não contam as histórias que queremos trazer, todo mês, na Gênero e Número.

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