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ENTREVISTA: “Uma criança educada do ponto de vista sexual está preparada para não ser vítima de abusos”

Foto: Felipe Barros/ExLibris/Secom-PMI

Pesquisadora especializada no tema alerta para os perigos do silêncio em sala de aula e aponta escola como espaço onde o debate deve ser tratado com naturalidade

Por Redação Gênero e Número

O EDUSEX – Grupo de Pesquisa Formação de Educadores e Educação Sexual, da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) – capacita docentes sobre um assunto que se tornou espinhoso para vários setores da sociedade brasileira nos últimos anos. Membro do grupo e pesquisadora da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Mary Neide Damico Figueiró, psicóloga e doutora em Educação pela Unesp, lançou este ano o livro “Educação Sexual: Saberes Essenciais a Quem Educa” e conversou com a Gênero e Número sobre as dificuldades enfrentadas no Brasil quando o assunto é educação sexual. “Uma criança educada do ponto de vista sexual está preparada para não ser vítima de violações, deixa de ser vulnerável e se torna mais atenta”, ressalta.

Leia a seguir trechos da entrevista.

Gênero e Número: Em 2018, a palavra “gênero” ganhou mais força do que nunca nos debates políticos, principalmente quando usada em ambiente escolar. O que significa o debate de gênero nas escolas?

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Mary Neide Damico Figueiró: Em primeiro lugar, precisamos pensar o que significa a palavra “gênero”, que tanto tem assustado as pessoas. “Gênero” diz respeito aos jeitos de ser homem ou mulher em dada cultura, em dada sociedade; como o homem ou a mulher se comporta, ou deve se comportar, se vestir, e seu papel na relação com outras pessoas ou na família. Diante da palavra “gênero”, a maioria das pessoas conservadoras e que têm medo das questões ligadas à diversidade sexual – homossexualidade, travestilidade, transgeneridade – sentem medo, porque acreditam que o jeito de ser homem ou de ser mulher é ditado pela biologia. Como se ao nascer já estivesse determinado como a pessoa vai se comportar enquanto homem ou enquanto mulher. Mas não é isso que acontece. Ser homem, comportar-se como um homem, é algo aprendido desde pequeno pelo menino, como a menina também aprende desde pequena como ser mulher. Ser homem no século 21 no Brasil é muito diferente de ser homem no início do século 20. Também é diferente ser homem no Nordeste e ser homem no Sul do Brasil, ou ser homem no Brasil e em um país islâmico.

O debate de gênero na escola faz parte de um trabalho mais amplo. Educação sexual é levar à criança todas as informações necessárias para ela entender o próprio corpo, conhecer a diferença entre o seu corpo e um corpo com um sexo diferente; compreender de onde viemos; entender que ela precisa cuidar e proteger seu corpo, que não pode deixar nenhuma pessoa maior tocar em suas partes íntimas.

Conversar sobre gênero na escola é inclusive ajudar meninos e meninas a compreender que os meninos não precisam se encaixar só no que é azul e temer a cor rosa. É ajudar a criança a entender que ser homem ou ser mulher é poder fazer qualquer coisa que ela goste de fazer, escolher qualquer profissão que queira, independentemente do genital com que ela nasceu. É questionar a desigualdade e fazer as crianças pensarem: “na casa de vocês, quem limpa a casa, quem lava a roupa? É só a mamãe?” Vamos conversando e ajudando a criança a compreender, por exemplo, que o serviço doméstico é de responsabilidade de todos, porque todos precisam do cuidado com a casa. Essa igualdade nos deveres e nos direitos precisa ser trabalhada com a criança desde pequena.

Há uma preocupação de alguns setores da sociedade em relação ao tom do debate de acordo com a idade da criança…  

Na cabeça de muitos adultos, explicar de onde vêm os bebês é algo feio, porque vai falar de relação sexual, mas existem maneiras de graduar essa explicação.

Muitos adultos aprendemos o sexo como algo feio, sujo, vergonhoso, por isso nos assustamos diante da possibilidade de explicar com naturalidade para uma criança sobre isso, como algo que faz parte da vida. Quando eu trabalho com formação de professores, eu os ajudo a repensar como foi a educação sexual deles. Muitos concluem que tiveram uma educação sexual que não foi positiva, aprenderam a ver o sexo como algo feio e sujo. Temos que nos dar conta disso e repensar e retrabalhar conosco mesmo uma visão positiva do sexo, do corpo, para poder falar com tranquilidade com as crianças.

Eu tenho três filhas, com diferença de dois anos e meio de uma para outra. Me aconteceu mais de uma vez da filha maior fazer determinada pergunta e a menor estar próxima, e eu responder. Com certeza a menor não entendeu tão apropriadamente quanto a mais velha, mas ela capta também do jeito dela alguma mensagem. O que fica de mais importante é que [a menor pensa] “minha irmã fez uma pergunta e minha mãe respondeu, que legal, minha mãe é uma pessoa perguntável. Quando eu tiver alguma dúvida, também vou perguntar para ela”. Em sala de aula acontece o mesmo: o professor explica algo para as crianças e elas entendem em menor ou maior grau, mas entendem também que estão em um ambiente em que se fala com naturalidade, se explica, se esclarece, e isso é muito saudável para a criança. Ela aprende que sexo é um assunto que também se debate na escola, e educação sexual não é apenas ensinar sobre sexo, mas sobre todas as questões ligadas ao corpo.

É saudável para a criança conversar e ter o esclarecimento de um adulto, e é muito importante que os pais saibam que se a criança não tiver essa explicação, ela vai descobrir as respostas de outro jeito, e muitas vezes de um modo menos positivo, como pela internet ou com amiguinhos que nem sempre explicam de maneira positiva. Então é importante que os pais não tenham medo e saibam que quando criamos um espaço para debater sobre tudo que é ligado ao corpo e à vida sexual, ensinamos os alunos a pensar. É um espaço para ensinar a pensar. O professor não deve só falar, muito pelo contrário: ele deve ouvir os alunos, dar espaço para eles expressarem o que pensam, o que sentem, as dúvidas, os receios, e expressar sua opinião.

Existe diferença entre um professor formado ou não como educador sexual ao lidar com um aluno abusado sexualmente dentro da família? Qual a importância dessa formação, quando a maioria dos casos de abuso acontecem por parte de parentes?

Uma criança educada do ponto de vista sexual está preparada para não ser vítima de abusos, deixa de ser vulnerável e se torna mais atenta. Ela sabe que é errado que adultos, pessoas maiores do que ela, queiram tocar em suas partes íntimas ou peçam que ela toque as partes íntimas de outras pessoas. Ela sabe que a relação sexual acontece entre adultos.

Na formação, preparamos os educadores para entenderem que a criança precisa saber o que é um ato indevido de um adulto. O educador vai criar um espaço para as crianças conversarem sobre essas questões. Elas sentirão confiança e poderão se abrir se forem vítimas. O educador também vai saber identificar uma criança abusada sexualmente, porque o comportamento dela, sua expressão facial, suas reações mostram que ela vem sofrendo. Então faz diferença se um professor está bem preparado para trabalhar esse tema.

O futuro presidente [Jair Bolsonaro] já disse que quer manter a inocência da criança. Quando você mantém a criança inocente sobre o que é sexo, ela com certeza vai estar muito mais vulnerável, porque quando acontecer com ela o abuso, ela não vai saber do que se trata ou vai achar que ela é culpada e vai ter medo de contar para os adultos.

Quantas pessoas só revelaram depois de adultas que haviam sido abusadas na infância? Elas se mantiveram em silêncio porque não foram preparadas desde pequenas para saber que isso existe, que é errado e que se algo acontecer elas têm que contar para alguém. Manter as crianças inocentes só vai deixá-las mais vulneráveis para ser vítimas de abuso sexual.

Como funciona a formação dos educadores?  

Ouvimos os professores e lidamos com as questões que eles enfrentam. Abordamos temas como a chegada da puberdade, doenças sexualmente transmissíveis, direitos sexuais, direitos reprodutivos, diversidade sexual… A gente sempre orienta que não se deve responder imediatamente quando a criança faz uma pergunta. É preciso levar a pergunta para a classe e ver se alguém já tem alguma ideia a respeito. Temos que deixar os alunos falarem primeiro e complementar. Trabalhamos muito também a importância desta educação na vida da criança e do adolescente. O professor tem que sentir que é responsável também pela formação integral do educando, com a formação de valores humanos, o respeito à igualdade, à justiça, à fraternidade, o respeito ao outro.

Mesmo que em casa as crianças tenham com os pais boas informações, boas conversas a respeito de gênero e sexualidade, a escola também precisa tratar desse tema. É na escola que eles têm contato com crianças e adolescentes da mesma idade, para poder debater, trocar ideias, saber que existem várias opiniões sobre uma mesma questão e aprender a respeitar opiniões diferentes. O professor não faz uma aula expositiva, não é só falar; ele tem que saber ouvir e coordenar debates, usar dinâmicas e estratégias que coloquem o aluno em um processo ativo de aprendizagem.

Como tranquilizar famílias em relação à diferença do papel da escola e dos pais na formação sexual de seus filhos?

É natural que os pais estejam assustados, por causa dos discursos distorcidos em relação ao Escola sem Partido e à “ideologia de gênero”. A grande maioria não tem realmente conhecimento do que seja educação sexual. Professores bem preparados não vão dizer se acham certo ou errado fazer sexo antes ou depois de casar. O educador deve criar espaços para que as crianças saibam que todas as questões ligadas à vida sexual têm visões mais progressistas ou mais conservadoras.

Os professores devem trabalhar valores morais, como o amor, o respeito a si mesmo e ao outro, a fraternidade, a não-violência… Podemos dizer que são valores morais cristãos. São os mesmos valores com que as famílias se preocupam agora.

Para tranquilizar as famílias, professores bem preparados têm que mostrar que não vão doutrinar seus filhos, não vão incentivar criança nenhuma a se tornar homossexual ou travesti. Se nossas crianças nas escolas compreenderem a diversidade sexual, elas não vão mudar sua orientação por causa disso, mas saberão amar e respeitar se tiverem filhos homossexuais, por exemplo. Teremos mais famílias em paz.

Existe idade certa para iniciar a educação sexual?  

A educação sexual começa desde que a criança é pequena. Por exemplo, na educação infantil, quando a professora vai dar banho nas crianças e permite que elas tomem banho juntas. Meninas veem o corpo dos meninos e vice-versa. Elas passam a compreender as diferenças, sem tabus. Quando uma criança de dois anos vê uma professora grávida na escola, ela pode dizer: “aqui dentro dessa barriga tem um bebê que está bem pequenininho, vai sair daqui de dentro e crescer”. O importante não é só esperar pelas perguntas e respondê-las. A gente não espera criança dizer “ei, me ensina a ler e a escrever”. A gente sabe qual é o momento em que ela já pode começar a aprender e em que isso é importante para ela.

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