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ENTREVISTA : “Nenhuma mulher negra sabe o que é viver uma vida livre do racismo, só conseguimos imaginar”, diz pesquisadora

Mulheres negras marcham contra o racismo no Rio de Janeiro |Foto: Mídia Ninja

Cientista política Ana Claudia Jaquetto Pereira compila em livro o pensamento de intelectuais negras brasileiras e mostra heterogeneidade da luta dos grupos 

Por Vitória Régia da Silva*

Aintelectualidade não se restringe mais ao pensamento masculino e branco, e as mulheres negras disputam este lugar dentro e fora da Academia. Na literatura, Grada Kilomba, escritora e intelectual negra portuguesa, liderou a lista dos livros mais vendidos na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) deste ano com “Memórias da Plantação”. Ano passado, a filósofa brasileira Djamila Ribeiro emplacou o segundo lugar da lista da Flip com a obra “O que é Lugar de Fala”. No livro “Intelectuais Negras: Horizontes Políticos”, baseado na tese de doutorado de Ana Claudia Jaquetto Pereira, em ciência política pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos (Iesp) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), ela trata do pensamento social e político dessas e de outras mulheres negras brasileiras. A obra será lançada dia 19 de setembro. Com análise de textos e entrevistas com ativistas e intelectuais, a autora busca sintetizar os elementos centrais no pensamento político dessas mulheres. 

Em entrevista à Gênero e Número, a cientista política falou sobre a organização das mulheres negras, a relevância da raça como um marcador social e os horizontes políticos para essas mulheres: “Quando falamos de interseccionalidade sem a dimensão raça e classe, só de gênero, se perde a memória de um movimento de mulheres negras. A raça está no centro de como vivenciamos a sociedade”.

Leia a seguir trechos da entrevista:

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Gênero e Número: Como surgiu a motivação para a pesquisa sobre a organização e pensamento político das mulheres negras?

Ana Claudia Jaquetto Pereira: Eu fiz doutorado em ciência política e na mesma época comecei a fazer atividades com um grupo de mulheres negras. Nesse período, passei a viver uma vida dupla, em que eu lia os textos acadêmicos e tinha a oportunidade de ver presencialmente como movimentos sociais de mulheres negras se organizam, as ideias que estavam promovendo e defendendo. Eu sempre achei que o pensamento político das mulheres negras tinha muito a ver com ciência política, mas ao mesmo tempo eram as ideias que eu não estava lendo na academia. Por isso, me interessei em sistematizar isso. Foram anos de pesquisa. Trabalhei com entrevistas e materiais publicados por duas organizações de mulheres negras, que falam sobre projetos de governo e desigualdade. Na academia, já existe muito material sobre mulheres negras, mas não existem textos que busquem pontos em comum e que busquem dizer o que é específico dos trabalhos dessas intelectuais. Foi o que fiz.

Gênero e Número: O título do seu livro é “Intelectuais Negras”, que é um termo que está em voga e em disputa na mídia e na academia. A discussão da intelectualidade negra está mais restrita ao ambiente acadêmico?

Ana Claudia Jaquetto Pereira: Uma marca característica das intelectuais negras é que elas não têm interesse só em elaboração, mas também em mudar o mundo, e não só escrevendo ou teorizando. Por isso, suas reflexões nascem dessa experiência de urgência de uma transformação social. Elas contribuem com o debate de um público amplo que vem pensando e questionando o que significa essa intelectualidade e o que é ser intelectual. As negras representam muito essa discussão de uma intelectualidade que não é elitista e não está restrita apenas à universidade.

Gênero e Número: Na pesquisa, você afirma que as mulheres negras têm consciência de que são um grupo heterogêneo. De que forma esse pensamento contribui para o movimentos de mulheres e para as discussões sobre identidade? 

Ana Claudia Jaquetto Pereira: Elas tiveram uma contribuição importante nesse sentido e seguem tendo. Uma das minhas entrevistadas me disse que o que une as mulheres negras é uma condição histórica e social, e dentro disso, temos que ter liberdade de sermos diferentes e de representarmos nossas diferenças. E é isso que as mulheres negras fazem. Quando elas interpelam o feminismo, contribuem para marcar essa diferença e ser mais conscientes disso. Essas diferenças entre as mulheres não são questões já resolvidas, mas já existe uma preocupação de que as mulheres negras sejam parte dessas discussões. Um ponto que eu respeito muito na minha pesquisa é de que muitas das minhas interlocutoras se recusam a usar o termo feminista, não porque sejam antifeministas, mas porque dizem que sua tradição e inspiração é muito anterior ao feminismo. Uma outra contribuição vem de mulheres negras mais velhas, referências que têm buscado contribuir com um diálogo geracional com as mais jovens de forma acentuada. Além disso, o movimento de mulheres negras concentra uma grande capacidade de olhar não só para a categoria raça, mas para a categoria classe, que acho que nem todos os feminismos e movimentos sociais são capazes fazer. 

Gênero e Número: Devido a essa diversidade entre as mulheres negras, é possível falar em um projeto político único ou são vários?

Ana Claudia Jaquetto Pereira: São vários. Um dos capítulos do livro é só sobre horizontes políticos e foi difícil de escrever. Eu naveguei por várias dimensões desse discurso, mas como é uma dimensão utópica, é difícil chegar lá. Nenhuma mulher negra sabe o que é viver uma vida livre do racismo. Só conseguimos imaginar. Dentro da diversidade das mulheres negras, é possível chegar nesse lugar de diferentes formas. 

Alguns grupos de mulheres negras têm um pensamento político antiestado, porque entendem que a forma como o Estado foi construído existe para reprimir certos grupos. Outros grupos vão trabalhar com o aprimoramento de políticas públicas porque querem redirecionar as noções de Estado. Outras são anticapitalistas porque não acham que dá para reformar o capitalismo. E ainda há os grupos que buscam ascender dentro da estrutura social e não questionam a estrutura capitalista. São muitos projetos e é importante buscar tendências e continuidade entre esses horizontes políticos, não porque seja preciso haver  um projeto só, ou porque um é melhor que o outro, mas para ver o que as mulheres negras têm sido capazes de produzir e para que possamos conhecer e nos reconhecer nesses projetos. 

As orixás são divindades africanas que atuam como representações sociais em que as mulheres negras desafiam e interpelam os homens em pé de igualdade, segundo a pesquisadora. |Foto: Clara Nascimento
As orixás são divindades africanas que atuam como representações sociais em que as mulheres negras desafiam e interpelam os homens em pé de igualdade, segundo a pesquisadora. |Foto: Clara Nascimento

Gênero e Número: Na sua pesquisa, aparecem com frequência três figuras: as ialodês, orixás e empregadas domésticas. Por que essas figuras se destacam e são importantes quando falamos sobre movimento de mulheres negras?

Ana Claudia Jaquetto Pereira: Essas figuras têm a ver com os papéis que as intelectuais relacionam com a organização das mulheres negras e com o modo como elas veem o mundo. São dimensões diferentes da vida, tratam do econômico, do cultural, do simbólico e do político. As orixás, divindades africanas, seriam representações sociais em que as mulheres negras desafiam e interpelam os homens em pé de igualdade; são representações do feminino que insere a luta da mulheres negras e que foge do que o feminismo eurocêntrico traz como referências principais.

As empregadas se relacionam com a desvalorização do trabalho doméstico e trazem uma questão de classe e de posicionamento entre as próprias mulheres. Essa relação faz uma interlocução direta com as mulheres brancas que são patroas e as negras que são  empregadas domésticas. Lembrando que as domésticas têm direitos trabalhistas diferenciados, são uma categoria extremamente desvalorizada, e este tipo de trabalho tem sido atribuído às mulheres negras desde a escravidão. As ialodês surgem pela referência de um artigo de Jurema Werneck. São mulheres que trabalham como lideranças comunitárias e políticas. 

A partir dessas representações se abre um espaço para falar de mulheres negras no seu protagonismo. Uma das minhas entrevistadas para a pesquisa me disse uma frase que ficou comigo: “As empregadas domésticas financiaram nossos estudos. As nossas mães e avós trabalharam para nos dar condições de estudar para que pudéssemos lutar e imaginar, não só para que a gente obedecesse”. 

Gênero e Número: Segundo sua pesquisa, o  pensamento social e político das mulheres negras se diferencia por sua articulação com questões de raça, classe e gênero. Qual o impacto de pensarmos essas articulações entre identidades?

Ana Claudia Jaquetto Pereira: Hoje existe uma discussão sobre interseccionalidade e a articulação de gênero, raça e classe, nessa sequência. Analisando o que as intelectuais negras pensam ficou muito evidente um protagonismo da dimensão racial e de como essa dimensão vai determinar as posições de classe. As intelectuais negras brasileiras trazem uma discussão de classe muito potente. Elas entendem raça e classe como questões difíceis de ser dissociadas, devido à estruturação do capitalismo, que implica uma exploração racial grande. Por isso, em um momento não é possível diferenciar a exploração de classe e de raça. O gênero surge como a terceira dimensão, que vai tratar de como essa posição inferiorizada será vivenciada na sociedade. Então a ordem de análise, segundo as intelectuais negras, seria raça, classe e gênero.  

O conceito da interseccionalidade vem de uma intelectual negra, a pesquisadora e professora americana Kimberlé Crenshaw, como ferramenta de análise das identidades e opressões. No Brasil, essa ferramenta é muito usada por movimentos sociais. No entanto, quando falamos de interseccionalidade sem a dimensão raça e classe, só de gênero, se perde a memória do movimento de mulheres negras. A raça está no centro de como vivenciamos a sociedade. Por isso, em diversos momentos, as mulheres negras são parceiras de lutas dos homens negros, grupo mais atingido pelo homicídio na população brasileira. Ambos compartilham uma vivência inferiorizada tanto pela questão de raça  como de classe. 

Gênero e Número: As mulheres negras também costumam ser maioria nos casos de violência e vulnerabilidade. Quais são as formas de resistência que as mulheres negras têm construído?

Ana Claudia Jaquetto Pereira: São muitas formas. Uma delas é a transformação na esfera do simbólico, com a ressignificação de vários elementos como o cabelo, roupas e estética negra. Deste modo, independente da discriminação, nós, mulheres negras, resgatamos e afirmamos o nosso orgulho. Há ainda a dimensão comunitária e política, com a liderança das mulheres negras para financiarem nossos estudos, e das mulheres que tiveram seus filhos mortos pelo Estado e lutam pela memória. A Marcha das Mulheres Negras é um marco importante, no sentido de construir uma resistência muito forte contra o racismo. E, por fim, a dimensão econômica, em que as mulheres negras, apesar de representarem o grupo populacional com a renda mais baixa, não estão passivamente esperando o mundo mudar, vão para a rua e para a luta, e investem no empreendedorismo. 

*Vitória Régia da Silva é repórter da Gênero e Número

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