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ENTREVISTA: “Há um plano articulado na educação para combater o debate sobre gênero na América Latina”

Jeronimo Centurión, diretor do documentário "Gênero sob ataque": no Brasil, "nenhum professor quis falar diante das câmeras por causa das ameaças"| Foto: Arquivo pessoal

Premiado pela ONU, o documentário peruano “Gênero Sob Ataque” analisa o crescimento do discurso conservador contra o debate sobre gênero na América Latina; no Brasil e em três  países da região, o diretor Jeronimo Centurión observou que religiosos e políticos têm um movimento coordenado para reforçar a ameaça sobre uma suposta “ideologia de gênero” nas escolas  

Por Maria Martha Bruno*

Durante seis meses, o jornalista peruano Jeronimo Centurión viajou por Costa Rica, Peru, Brasil e Colômbia para pesquisar um fenômeno que avança com força em toda a América Latina: o combate à chamada “ideologia de gênero”. O resultado está no filme “Gênero Sob Ataque”, que teve exibição especial ontem no Rio de Janeiro, e deve chegar às salas do país em 2019, ainda sem data prevista. Esta semana, o trabalho recebeu o prêmio de Melhor Filme no Festival de Cinema de Direitos Humanos da Bolívia, concedido pelo ACNUDH (Alto Comissariado das Nações Unidas para Direitos Humanos).

Liderado por políticos conservadores e religiosos ortodoxos, o debate contra o que eles chamam de “ideologia de gênero” ganha espaço na educação e na política, apelando para uma suposta ameaça de conversão das crianças em homossexuais, dentro das salas de aula. Em entrevista à GN, Centurión disse acreditar que haja um plano coordenado na região para fortalecer essa ideia. Entre os países visitados pelo diretor, o Brasil foi que mais preocupou o cineasta: “Há políticos de outros países que consideram Jair Bolsonaro uma grande referência. Daqui a pouco, as pessoas podem começar a achar que ser homofóbico e machista é algo cool”.

Leia abaixo trechos da entrevista.

GN: O que motivou você a filmar o documentário?

JERONIMO CENTURIÓN: Eu queria que essa mensagem chegasse para além dos nossos círculos. Nós, pessoas feministas, sabemos que ideologia de gênero não existe. Mas não devemos ser o público deste tipo de mensagem. Estamos dentro de uma bolha, apesar de tão conectados pela tecnologia. Inicialmente o Consórcio Latino Americano contra o Aborto Inseguro [Clacai, organização multilateral formada por ativistas, instituições e pesquisadores, que inclui membros do Brasil] me pediu uma pesquisa. Mas lamentavelmente as pessoas já não leem tanto. Como sou fã de projetos audiovisuais, apresentei a proposta do documentário e eles aceitaram. Aprendi muito nos seis meses entre as filmagens e a finalização, este ano. Percebi que conhecia menos sobre o tema do que eu pensava. Não sabia, por exemplo, como as mensagens sobre ideologia de gênero influenciaram na derrota no referendo sobre o acordo de paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), em 2016. Há um discurso conservador, de várias frentes, que impede avanços na região.

A estratégia que limita a discussão sobre gênero é planejada na América Latina?

Há uma coordenação entre igrejas evangélicas muito conservadoras, que inclusive envolve um financiamento dessas campanhas, para o qual o dízimo dos fieis presta uma grande contribuição. O que mais me preocupa é o círculo vicioso. Essas correntes se tornam atraentes para a sociedade, e os políticos veem aí uma oportunidade. Com isso, arrastam empresários e financiadores. E alguns desses políticos são evangélicos. Apenas na Argentina e no Uruguai, onde há uma classe média mais sólida, com um nível de educação mais alto, movimentos como este têm dificuldade de avançar com tanta força.

Qual situação te pareceu mais preocupante entre os quatro países que você visitou para fazer o filme?

O Brasil é o caso mais grave. A repercussão política, econômica e social do país na América Latina é muito forte. O Brasil é uma referência para todos. A corrente mais progressista, liderada pelos ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, teve efeitos muito positivos para o Peru, Bolívia, Equador e outros países, mas negativos também, como os casos de corrupção que se espalharam pela região. O que vai acontecer na América Latina com a vitória de [Jair] Bolsonaro? Se tínhamos medo de [Donald] Trump, imagine agora? No Peru e na Colômbia, há políticos que consideram Bolsonaro uma grande referência. Daqui a pouco, as pessoas podem começar a achar que ser homofóbico e machista é algo cool. Há perfis de políticos que podem ganhar mais força com vitória dele. É muito preocupante.

Você tem acompanhado os preparativos para o governo do presidente eleito?

Sim, eu acompanho pela minha bolha do Facebook (risos). Ele anunciou uma evangélica para o Ministério de Direitos Humanos. Como pode ser? Também me preocupam suas declarações sobre acabar com a “ideologia de gênero” nas escolas. O problema é que isso é mentira. Não há “ideologia de gênero”. O que houve nos últimos anos na América Latina foi um bom trabalho sobre direitos humanos e gênero, como houve em diversos países do mundo.

O que mais o espantou ou o surpreendeu durante as filmagens no Brasil?

O medo dos professores. Ouvi vários testemunhos de que estavam sendo ameaçados por continuar falando sobre gênero nos colégios. Nenhum deles quis falar diante das câmeras por causa das ameaças. Eles me disseram que isso estava acontecendo desde antes da vitória de Bolsonaro. Isso pode parecer teoria da conspiração, mas acredito que haja um plano articulado na educação para combater o debate sobre gênero na América Latina. Não acho que a vitória de Bolsonaro seja o resultado dessa coordenação. Outros fatores contribuíram para seu sucesso. Mas existe um plano para retirar a palavra gênero dos projetos de educação nos países da região. Esse plano tem agenda, organização e dinheiro, por isso está avançando. É um plano friamente calculado.

Você mencionou sua bolha do Facebook e abre o filme falando sobre como a tecnologia não ajudou a nos conectar. Acredita que os setores progressistas estão perdendo a batalha narrativa?  

Sim. Está estabelecido que a religião representa a ordem, e nós somos o caos. A liberdade que defendemos está apresentada como caos pelos conservadores. E a ordem é associada à religião, à ditadura e ao militarismo. Nós não gostamos da família. Além disso, o debate sobre a segurança também se associa muito à religião.  

O que está em risco para a América Latina diante desse cenário?

Sobretudo a democracia e a própria sociedade. Gênero não é um assunto de feministas, nem de ativistas LGBTI. É um tema que diz respeito a todas as pessoas. Se teremos gerações que acham que não há problema com a homofobia e com o feminicídio, estamos incitando a violência. Em geral, o objetivo principal dos partidos políticos é ganhar a eleição. Mas estes grupos evangélicos têm um plano de trabalho e de poder de longo prazo.

Qual é a saída para combater os discursos de ódio e frear o avanço desse projeto?

Temos que nos comunicar de maneira mais simples. Os intelectuais, os políticos e os governos continuam falando apenas entre si. Não podemos ganhar essa guerra apenas com a razão. Temos que ir além e partir para a emoção. Eles se apegam ao medo, por isso deu certo. O medo mobiliza muito. Nós temos que construir uma emoção como contrapartida.

Qual seria?

Falo em amor e liberdade, mas estamos em crise. Também é difícil falar sobre isso (risos). De todos os modos, temos que mostrar que, sem amor, a vida não tem sentido. E é preciso dar mais peso à liberdade e ao respeito também.

*Maria Martha Bruno é colaboradora da GN.