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Encontro de Mulheres na Matemática discute medidas de inclusão de gênero e raça na ciência

As cientistas organizadoras e palestrantes do I Encontro Brasileiro de Mulheres na Matemática |Foto: Divulgação IMPA

Pesquisadoras da Unicamp apresentaram projeto para estimular interesse de alunas do ensino fundamental na área e professora da UFBA elaborou mapa de matemáticas negras espalhadas pelo país

Por Vitória Régia da Silva*

Se para chegar ao topo da carreira científica as mulheres enfrentam um caminho desigual e tortuoso, na matemática não é diferente. Elas são 26% do total de cientistas da área, mas só 11% das bolsas Produtividade em Pesquisa, o mais alto nível na escala do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), vão para as mulheres. A desigualdade de gênero foi o tema do Primeiro Encontro Brasileiro de Mulheres na Matemática, que reuniu quase 500 pesquisadoras e pesquisadores no Instituto de Matemática Pura Aplicada (IMPA), no Rio de Janeiro, nos dias 27 e 28 de julho. 

O evento teve duas frentes de articulação: a divulgação científica, com a apresentação dos trabalhos de jovens pesquisadoras que concluíram o doutorado a partir de 2010, e a diversidade de gênero e racial na pesquisa. Além disso, o encontro apresentou medidas de inclusão que abrangem o enfrentamento da violência de gênero na academia, iniciativas voltadas à maternidade e à carreira científica, e uma base de dados sobre matemáticas negras. 

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“Existem muitos projetos e ações para inclusão sendo desenvolvidos em todo o país. Por isso, apresentamos alguns deles ações para inspirar as pessoas, porque as iniciativas têm um potencial multiplicativo enorme. E porque queremos que essas iniciativas possam dialogar umas com as outras. A ideia é mostrar que há muitas pessoas se movimentando nessa direção e que queremos canalizar toda a energia do evento para avançarmos no debate sobre inclusão e diversidade na matemática”, disse Carolina Araújo, pesquisadora do IMPA e uma das organizadoras do evento. 

Anne Caroline Bronzi é matemática e uma das organizadoras do projeto Meninas SuperCientistas | Foto: Divulgação IMPA
Anne Caroline Bronzi é matemática e uma das organizadoras do projeto Meninas SuperCientistas | Foto: Divulgação IMPA

Uma das iniciativas apresentadas foi o projeto “Meninas SuperCientistas”, organizado por um grupo de professoras e alunas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e voltado a estudantes de ensino fundamental II. Em quatro sábados de junho deste ano, 50 meninas de escolas públicas e privadas participaram em Campinas (SP) de oficinas, palestras, visitas a museus e atividades práticas em várias áreas de conhecimento. A ação tem o objetivo de incentivar o engajamento nas carreiras científicas, especialmente na matemática, e ainda nas áreas de exatas e engenharias, segundo Anne Caroline  Bronzi, professora do Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica (IMECC) e uma das organizadoras do projeto. 

“A sociedade e a família desestimulam o interesse das meninas pela ciência. Elas têm muita capacidade, só não sabem que é possível e que são capazes. A iniciativa busca incentivar e fomentar o interesse por essa área e mostrar que ciência é coisa de mulher”, afirma Bronzi. Para a professora, as alunas perdem o interesse na área de exatas durante o ensino fundamental, por isso essas iniciativas buscam reverter esse cenário durante esta etapa.

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Falar de diversidade na ciência é também falar de diversidade racial. Segundo o Censo da Educação Superior mais recente, de 2016, as mulheres negras com doutorado não chegam a 3% do total de docentes, sendo que mulheres pretas são apenas 0,4% do corpo docente nas pós-graduações em todo o país. 

A inquietação de não saber quantas são e onde estão essas pesquisadoras, bem como sua participação no curta-metragem realizado pela Gênero e Número Potência N, sobre mulheres negras na matemática, foi o ponto de partida para que Manuela da Silva Souza, matemática e professora da Universidade Federal da Bahia (UFBA), começasse um trabalho individual de levantar os nomes de negras e indígenas nessa área. Até o momento, o mapeamento já conta com 45 cientistas negras de todas as regiões do Brasil. No levantamento ainda não foram identificadas cientistas indígenas.

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A professora e matemática Manuela da Silva Souza é a primeira mulher e pessoa negra a ocupar o cargo de coordenadora do mestrado da UFBA | Foto: Divulgação IMPA
A professora e matemática Manuela da Silva Souza é a primeira mulher e pessoa negra a ocupar o cargo de coordenadora do mestrado da UFBA | Foto: Divulgação IMPA

“Atuar na questão racial no Brasil é delicado. Nas ciências exatas e na matemática não se discute raça. Por isso esse mapeamento não foi apenas para uma questão estatística, mas para marcar presença e reivindicar espaço. E quando falo sobre isso, faço sempre questão de trazer o nome e sobrenome dessas cientistas, algo que sempre foi negado a pessoas negras”, conta Souza à Gênero e Número. A pesquisadora é coordenadora do curso de Mestrado em Matemática da UFBA e é a primeira mulher e pessoa negra a ocupar esse cargo.

“Onde a gente não se vê, a gente não se pensa e não se imagina”, pontua a pesquisadora e doutora em química Bárbara Carine Soares Pinheiro, sobre a importância da representatividade e de medidas de inclusão de mulheres negras na ciência. Ela participou da mesa redonda “Diversidade na Ciência”, composta por três mulheres negras da área das exatas. Também participou da mesa uma das principais palestrantes do evento, a física Sonia Guimarães, primeira mulher negra com PHD em física no país, pela University of Manchester Institute of Science and Technology, e professora de física no Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA).

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*Vitória Régia da Silva é repórter da Gênero e Número

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