close

Em breve: a Gênero e Número realiza pesquisa de opinião sobre violência contra LGBTs nos contextos eleitoral e pós-eleitoral

Largo do Arouche é um das referências de sociabilidade LGBT+ em São Paulo | Foto: Getty Images

Com lançamento previsto para fevereiro em plataforma online, nova pesquisa da Gênero e Número vai analisar a percepção de escalada de violência no período eleitoral contra LGBTs

Por Vitória Régia da Silva*

Com o objetivo de identificar e qualificar a incidência de violência ou a ameaça de violência contra pessoas lésbicas, gays, bissexuais e transgênero no contexto das eleições de 2018 e no período pós-eleitoral, a Gênero e Número realizou a pesquisa “Percepção de Violência LGBT+ no contexto eleitoral e pós-eleitoral”, com lançamento previsto para fevereiro em plataforma online, e disponibilização de base de dados aos interessados.

A pesquisa de opinião ouviu 400 pessoas autodeclaradas LGBT+ com idade igual ou superior a 16 anos, frequentadoras de espaços de sociabilidade dessa população, por meio de aplicação de questionários em três cidades: Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo. As cidades foram escolhidas levando em consideração critérios populacionais – são as mais populosas do Brasil – e por serem locais de ativismo e concentração da população LGBT+ das suas regiões.

O coordenador de pesquisa e pesquisador do Núcleo de Estudos dos Marcadores Sociais da Diferença (NUMAS-USP) e do COCCIX – Estudos em Corpo e Cidade (USP), Lucas Bulgarelli, explica que o levantamento busca entender, a partir dos dados, de que forma aconteceu o fenômeno da violência política contra pessoas LGBT+. “Houve um sentimento geral entre militantes do movimento LGBT+ e na sociedade civil de que alguns grupos foram especialmente atingidos em termos de violência durante as eleições. Isso ficou muito visível nas redes sociais, com depoimentos e denúncias, e o grupo LGBT+ foi um dos mais atingidos pela violência”, disse. De acordo com Bulgarelli, a pesquisa também vai analisar, para além do contexto eleitoral, como essa violência política é percebida a partir do momento em que Jair Bolsonaro assume a presidência.

campanha-mapa-da-violencia-de-genero-350px

A aplicação da pesquisa aconteceu nos dias 17, 18 e 19 de janeiro nas três cidades. “Fomos bem sucedidos em ter uma diversidade de pessoas que atendeu a pesquisa, mas percebemos que alguns públicos não se sentem confortáveis, não têm acesso financeiro ou espacial a certos espaços, como a população trans, por exemplo. Ela não está nos mesmos lugares de sociabilidade que as pessoas cis na mesma quantidade ou intensidade”, pontua Bulgarelli.

O pesquisador ainda destaca que a pesquisa também se propõe a visibilizar mais estudos e dados qualificados sobre população LGBT+, que são escassos. “Durante a aplicação da pesquisa, as pessoas que se disponibilizaram a responder estavam cientes da  importância [da iniciativa], por saberem que há uma ausência desses dados e, sobretudo, com relação a dados sobre violência contra LGBT+ durante as eleições.” 

A Gênero e Número, desde o seu lançamento, em 2016, tem trabalhado, a partir de dados, pesquisas, estudos e evidências, para manter na cobertura editorial os principais temas relacionados a direitos LGBT+ e violações de direitos desse grupo. Com apoio da Fundação Ford, a pesquisa sobre violência LGBT+ estava prevista desde o início de 2018, mas no contexto eleitoral, onde se impuseram discursos de ódio, ataques nas redes sociais a minorias políticas e relatos de violência física contra LGBT+, ficou evidente a importância de investigar essa percepção de escalada de violência no período eleitoral.

“A população LGBT+ sempre enfrentou a LGBTfobia no Brasil, o que não significa, obviamente, que violência e preconceito devam ser encarados como irreversíveis. Mas no período em que a disputa eleitoral se estabeleceu, havia algo emergindo, mais escancarado, que era quase um orgulho dos homofóbicos por estarem nessa linha de frente violenta. A gente aqui acompanhava registros informais, recebíamos relatos pelas redes, acompanhávamos reportagens de outros veículos e era alarmante, sim”, disse a codiretora da Gênero e Número, Giulliana Bianconi. “Entendemos que seria relevante fazer um estudo dessa percepção, para entender o quanto essa violência foi crítica para quem tem essa condição de lésbica, gay, bissexual, transgênero, pois é sabido também que essa discussão precisa continuar, que as políticas públicas precisam enxergar os desafios de sobrevivência que essas pessoas encaram”, afirmou.

O projeto envolve cinco pesquisadores que têm trabalhos relacionados a temas de gênero. Além do coordenador Lucas Bulgarelli, estão no time o assistente de pesquisa Arthur Fontgaland, as pesquisadoras Paula Alegria e Milena Fahel, que aplicaram os questionários no Rio de Janeiro e em Salvador, respectivamente, e a doutora em Ciência Política e analista de dados na Gênero e Número, Flávia Bozza.

*Vitória Régia da Silva é jornalista e colaboradora da Gênero e Número

close-image